A denúncia é dura e vem de dentro do próprio partido. Em entrevista concedida ao podcast do Portal Piauí Hoje, a professora Fabíola Lemos, militante histórica do PT com 30 anos de filiação, fez um desabafo sobre as barreiras que as mulheres enfrentam na legenda. Pré-candidata a deputada federal, ela revelou aos jornalistas Luiz Brandão e Robert John que sua vaga corre risco de ser ocupada por mulheres vindas de outros partidos, em negociações feitas por homens e sem participação das instâncias partidárias.
A reclamação central de Fabíola é que as mulheres do partido estão sendo preteridas em favor de nomes de fora, em acordos que ignoram a trajetória de quem construiu a legenda ao longo de décadas. “Tá mais do que escancarado como a gente é tratada como bucha. Agora é o momento de encontrar a bucha certa, aquela que seja mais adequada para a eleição de um candidato a deputado federal”, desabafou.
As críticas da professora não param por aí. Ela listou uma série de problemas que, segundo ela, tornam o ambiente partidário hostil às mulheres e inviabilizam candidaturas femininas com perfil de militância. Uma das queixas de Fabíola diz respeito à distribuição do fundo eleitoral. Ela lembrou que, em 2018, quando foi candidata a deputada federal, recebeu apenas 75 mil reais para toda a campanha. Enquanto isso, uma candidata que já ocupava mandato teve 1,5 milhão à disposição.
Uma das queixas de Fabíola é distribuição desigual do fundo eleitoral“A gente até entende que quem tem mandato tem que fazer o possível para não perder a vaga, mas nessa desproporcionalidade isso é de uma violência incomensurável”, afirmou. A diferença de recursos, segundo ela, inviabiliza qualquer tentativa de renovação e mantém o poder concentrado nas mesmas mãos. “Parece que a ideia é realmente aniquilar esse tipo de candidatura pra que fique só as outras candidaturas que fazem política pautada no clientelismo.”
Alianças que afastam o eleitor
Outro ponto levantado por Fabíola foi o peso das alianças políticas firmadas pelo partido, que muitas vezes afastam o eleitorado de esquerda. Ela citou o exemplo de 2018, quando o PT fez aliança com o senador Ciro Nogueira no Piauí, uma decisão que ela diz ter combatido internamente, mas sem sucesso.
“Em época de campanha, as pessoas diziam: só não voto em você porque seu partido fez aliança com o Ciro Nogueira. Eu coloquei a tese contrária no encontro de táticas, mas infelizmente só tive 16 votos contra mais de 300 a favor da aliança”, relembrou. Para ela, decisões como essa beneficiam quem já tem mandato e pode fazer campanha de outras formas, enquanto candidaturas de opinião, como a dela, acabam prejudicadas.
Fabíola critica alianças políticas firmadas pelo PT, como uma firmada com o PP de Ciro Nogueira
Fabíola também criticou o fato de que as decisões sobre as candidaturas estão sendo tomadas por um grupo restrito de parlamentares, sem passar pelas instâncias que deveriam deliberar sobre o tema. “Isso não diz respeito às instâncias das mulheres. Então não pode. Não tem como a gente aceitar isso”, afirmou.
A queixa encontra respaldo na fala de outras lideranças. O vereador Dudu (PT), em entrevista recente, admitiu que “a mulherada do PT também reclama porque na hora do ‘pega pra capar’ a estrutura que é dada não é uma estrutura que fortaleça essas candidaturas”.
Ambiente tóxico desencoraja mulheres
A professora chamou atenção ainda para o ambiente político cada vez mais hostil às mulheres. Ela citou episódios de violência política contra parlamentares, como o caso da ministra Marina Silva, alvo de desrespeito na Câmara, e lembrou que quanto mais violência, mais engajamento nas redes e mais votos para os agressores.
“Como é que a mulher vai ter coragem? O ambiente está cada vez mais tóxico e esse tipo de postura tem aumentado a votação dos machistas. Quanto mais violência contra a mulher, mais isso gera engajamento e ajuda a eleger os piores homens que existem”, criticou.
Apesar das duras críticas, Fabíola fez questão de afirmar que não desiste do PT. “Nós temos 46 anos de história. Nós não podemos desistir do PT. Mas a gente precisa fazer debates mais sérios em relação a situações que a gente fica paralisado por conta desse poder dos parlamentares.”
Ela defendeu que o partido precisa ser puxado para a esquerda e que as discussões internas não podem ser evitadas com o argumento de que “não se deve falar mal do partido”. “Se nos nossos fóruns internos a gente não puder lavar a nossa roupa suja, qual é a esperança que a gente vai ter de um partido que possa ser feito de outra forma?”, questionou. “A gente tem que trabalhar muito as nossas bases, melhorar nossa comunicação, fazer formação política de verdade, na luta. A melhor formação política é ir lá dentro da luta. Os jovens precisam olhar para seus líderes e sentir que ali tem uma luz de esperança.”
Confira a entrevista completa no canal do Portal Piauí Hoje no Youtube, clicando abaixo:
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