"Nem ele mesmo saiba o que vai fazer" diz FHC sobre Bolsonaro

Em entrevista ao 'Clarin", tucano disse que indicação de Moro é 'garantia de proteção da democracia'


Ex presidente Fernando Henrique Cardoso

Ex presidente Fernando Henrique Cardoso Foto: © Reuters

Em entrevista ao jornal argentino "Clarin", o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou que ainda não há clareza sobre como vai ser o governo do Jair Bolsonaro (PSL) e o ironizou ao dizer que talvez nem mesmo o presidente eleito o saiba. FH diz, ainda, que o Brasil está muito polarizado e não há "muito espaço" para pessoas razoáveis. Segundo a publicação, para o tucano, o convite para o juiz federal Sergio Moro assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, ainda que arriscada, é uma garantia de proteção da democracia.

- Fui senador, ministro, presidente, mas nunca o vi enquanto era deputado. Nunca escutei sua voz, não ouvi ele dizer o que pensa. Não se sabe realmente o que (Bolsonaro) vai fazer. Creio que nem ele mesmo o saiba - afirmou FH.

Questionado se havia semelhanças entre Bolsonaro e o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, que também era militar, FH respondeu que ambos acreditam que a autoridade "deve ser imposta", embora o venezuelano fosse um populista mais próximo ao povo. Neste ponto, o tucano diz que o futuro presidente do Brasil está mais próximo do líder dos Estados Unidos:

- Bolsonaro, como Trump, não quer o povo, não quer os imigrantes, quer um passado idílico.

Ao "Clarin", Fernando Henrique descarta se candidatar novamente porque, em suas palavras, o país precisa de "energia jovem" e pessoas razoáveis, como ele se considera, "não têm muito espaço em um país polarizado". Para ele, o eleitor brasileiro não foi razoável ao eleger Bolsonaro e permitir a polarização:

- A radicalização começou durante os governos do PT, que sentenciava: 'Nós somos os bons e os outros, os maus'. Me acusavam de ser neoliberal e nunca o fui, mas essa era a forma de colocarem uma etiqueta para dizer: 'Este não serve'.

Além da polarização, a eleição de Bolsonaro foi impulsionada, de acordo com FH, pela crise econômica, problemas na segurança pública, antipestismo e a ideia que muitas pessoas desenvolveram após as investigações da Lava-Jato, de que "todos os políticos são ladrões".

Para o tucano, Bolsonaro não pode ser definido como "fascista":

- O fascismo é algo organizado, com uma visão corporativa da sociedade, com um partido. E ele é outra coisa. Representa um autoritarismo que pode ter uma base ideológica de qualquer tipo. Ele tem expressões autoritárias, mas se elas vão se materializar ou não, ainda não sabemos.

Ao comentar sobre a proposta de mudança da Embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, afirmou que foi um gesto precipitado, "desnecessário e gratuito" de Bolsonaro e acrescentou que sua posição é a favor do Estado de Israel e da Palestina, como sempre defendeu o Brasil.

Quando foi perguntado se a indicação de Moro para o Miniistério da Justiça seria uma garantia de proteção da democracia, FH concordou:

- É, sim. É arriscado porque ele nunca foi ministro. Mas creio que ele fez isso (aceitou o convite para ser ministro) porque pensa que pode influenciar. Tomara que consiga.

A entrevista ao "Clarin" foi concedida em Madri, na Espanha, onde FH acompanhava o Foro Iberoamérica. O ex-presidente contou que precisou adiantar a volta a São Paulo porque sua mulher, Patricia Kundrat passou mal em meio ao inverno espanhol. O tucano brincou que isso aconteceu porque casou-se "com uma anciã" - Patrícia é 46 anos mais jovem que ele.

Fonte: O Globo

Próxima notícia

Dê sua opinião: