“A Semana Santa é uma semana singular na vida da Igreja, porque ao longo desses dias acompanhamos o Senhor que vai a Jerusalém e sobe a grande cidade para consumar a vontade do Pai, que é a salvação da humanidade.” A explicação é do Padre Robert Araújo, Assessor Eclesiástico de Comunicação da Arquidiocese de Teresina, e traduz o significado de um dos períodos mais importantes para os fiéis católicos.
Vivida com intensidade em todo o Piauí, a Semana Santa mobiliza comunidades inteiras em celebrações que unem fé, tradição e reflexão. Missas, procissões e rituais simbólicos marcam os dias que relembram a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, levando milhares de pessoas às igrejas e às ruas.
Mais do que uma tradição religiosa, o período é visto como um convite à renovação espiritual, à oração e ao fortalecimento da fé, reunindo famílias e devotos em momentos de profunda devoção.
Padre Robert relata que a semana inicia com o Domingo de Ramos: “onde Jesus adentra a cidade de Jerusalém, aclamado como o Messias, aos gritos de ‘Hosana nas alturas, bendito o que vem em nome do Senhor’. E ali, ao longo desta semana, nós vamos vivendo momentos importantes da vida de Jesus: a sua entrega, a sua doação, até a sua paixão, morte e ressurreição. Por isso, a Semana Santa contém nela o tríduo pascal, que é o mistério central da nossa fé”, reforça.
Padre Robert Araújo explica o verdadeiro sentido da Semana Santa. (Foto: Ascom Arquidiocese de Teresina)
A Páscoa, segundo acrescenta o pároco, é a festa mais importante para os cristãos, porque eles têm a certeza do amor de Deus pela humanidade e de como Ele nos salva, possibilitando-nos, agora, ter como herança a vida eterna. “Nestes dias, vivenciamos os mistérios da nossa redenção, que é Jesus quem nos reconcilia com Deus e reúne a nós, que estávamos dispersos, fazendo-nos um só povo para Deus”, pondera.
Ele conta que todos devem viver estes dias com contrição e justifica: “Contrição é diferente de tristeza, pois a contrição é estar com o Senhor, acompanhá-lo nesses momentos decisivos da vida d’Ele, isto é, desde a subida a Jerusalém até as acusações, a perseguição, o sofrimento, a via-sacra de Jesus, ou seja, o caminho para o Calvário; acompanhá-lo em sua morte, morrer com Ele para depois também com Ele ressuscitar e nos alegrar com este grande mistério que toca diretamente a nossa vida”, observa Padre Robert.
Por isso, o religioso diz que é possível viver estes dias da Semana Santa com o espírito de contrição, de quem reclina a cabeça ao peito do Mestre para estar com Ele, para viver com Ele. “E alcançar d’Ele aquilo que Ele nos dá gratuitamente, que é a salvação, que é o seu amor, e viver este amor como novo homem, nova mulher, ressuscitados”.
O sacerdote argumenta que vivemos em um mundo cada vez mais acelerado, e o fruto dessa agitação do dia a dia pode ser visto, por exemplo, na ansiedade cada vez mais presente na vida das pessoas. “Eu penso sempre que a Semana Santa nos convida à contemplação: olhar, admirar-se com a maravilha que Deus realiza diante de nós. Eu penso sempre em Pilatos que, muito agitado pelas pressões exteriores dos sumo-sacerdotes que levaram Jesus até ele, do povo que pedia para que ele crucificasse Jesus e soltasse Barrabás, não foi capaz de contemplar a verdade que estava diante dele”, lembra o padre sobre os ensinamentos da Igreja Católica.
Em sua explanação, ele diz que a espiritualidade da Semana Santa é um convite à contemplação. “Contemplar aquilo que Deus foi capaz de fazer por nós. Contemplar o mistério tão sublime da nossa salvação, amor extremo, até as últimas consequências, que Jesus dispensou sobre nós para nos oferecer a sua própria vida. Por isso, a Semana Santa pode ser vivida a partir da contemplação, com o olhar fixo no Senhor que, por nós, morreu e ressuscitou, devolvendo-nos, por fim, a alegria de uma vida sempre nova”, enfatiza.
Religiosidade é motivada pela fé do povo
Segundo o último censo do IBGE, aponta o sacerdote, Teresina se mantém como a capital proporcionalmente mais católica do país. Ele afirma que não é difícil ver o rosto da piedade católica nas pessoas. “Vou citar apenas dois exemplos do que é vivenciado ao longo desta semana aqui em Teresina. O primeiro é a procissão do Senhor Morto, que acontece logo depois da celebração da Paixão do Senhor na Igreja Catedral de Teresina. As pessoas se reúnem para uma procissão que não tem divulgação, convite ou qualquer organização formal, a não ser o senso de fé. A maioria sai de suas paróquias logo após a celebração das três da tarde, nas mais diversas zonas e bairros da cidade, e se desloca até a Igreja Catedral, na Praça Saraiva. E ali, quando termina a celebração, já há uma multidão disposta a caminhar com Jesus na procissão do Senhor Morto até o adro da Igreja de São Benedito”, frisa Padre Robert, destacando que essa manifestação tem caráter puramente popular e expressa a fé e a piedade do povo, vividas com intensidade.
A segunda prática de piedade em Teresina que se consolidou nos últimos anos, conforme o religioso, “é a procissão ‘Teresina Ressuscita com Cristo’, saindo da Igreja de São Benedito e indo até a Potycabana, logo após a celebração da Santa Missa. As pessoas, com grande entusiasmo e alegria, se concentram e vivem aquele momento proclamando que Jesus é vitorioso, que ressuscitou e que, por isso, nós também, com Ele, podemos ressuscitar e ter vida nova. Essas duas práticas religiosas são bastante interessantes porque são abraçadas pela fé viva das pessoas que creem na morte e na ressurreição do Senhor”, finaliza.
Oeiras revive tradição centenária que atrai multidões de fiéis
Marcadas pela fé, devoção e forte participação popular, as celebrações da Semana Santa no Piauí mantêm vivas tradições que atravessam gerações e relembram a prisão, crucificação e ressurreição de Jesus Cristo. Em um dos estados mais católicos do Brasil, onde 77% da população se declara seguidora da religião, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os rituais religiosos mobilizam cidades inteiras.
Fiéis durante Procissão do Fogaréu já é uma tradição religiosa na Semana Santa. (Foto: Reprodução)
Entre os símbolos mais antigos dessa devoção está a Procissão do Fogaréu, realizada há mais de 200 anos na cidade de Oeiras, antiga capital do estado e conhecida como “Capital da Fé”. Todas as Quintas Santas, milhares de homens percorrem as ruas carregando tochas acesas, em um espetáculo de fé e tradição.
Inspirada nos relatos bíblicos, a procissão representa a perseguição dos soldados romanos a Jesus Cristo, culminando em sua prisão e crucificação. Com o passar dos anos, o ritual também passou a simbolizar, para os cristãos, o encontro com a luz do mundo, representada pela figura de Cristo.
Tradição que atravessa séculos
Enquanto os homens seguem em duas filas durante o percurso de cerca de dois quilômetros, as mulheres participam acompanhando o trajeto pelas ruas e praças ou em oração na Catedral de Nossa Senhora da Vitória, ponto de partida e chegada da procissão. Ao final, os fiéis se reúnem para acompanhar o tradicional Sermão do Fogaréu.
De acordo com a Diocese de Oeiras, a celebração terá início às 21h, no dia 2 de abril, seguida por um momento de adoração ao Santíssimo Sacramento, reforçando o caráter espiritual e penitencial da data.
Milhares de fiéis celebram a Semana Santa mostrando devoção e fé. (Foto: Reprodução)
Dando continuidade às manifestações religiosas, o dia seguinte é marcado pela Procissão do Senhor Morto, que reúne novamente os fiéis em um cortejo que simboliza o sepultamento de Jesus após sua morte na cruz.
Em clima de profundo respeito e silêncio, a Sexta-Feira da Paixão começa sem músicas na Catedral da Vitória, em sinal de luto. Durante a manhã, a cruz é apresentada aos fiéis, que participam de um momento de oração e devoção por meio do tradicional beijo da cruz.
Já no período da noite, a emoção toma conta do pátio da Catedral, onde ocorre o ritual do descimento da cruz. Padres retiram a coroa de espinhos e os pregos de uma imagem de Jesus, que é colocada em um esquife e conduzida pelas ruas da cidade, acompanhada pela imagem de Nossa Senhora das Dores.
Conforme a programação oficial da Diocese de Oeiras, o momento penitencial está previsto para as 8h do dia 3 de abril, enquanto o descimento da cruz será realizado às 17h, encerrando mais um dia de intensa vivência religiosa para os fiéis.
Fonte: Arquidiocese de Teresina