CONCEITO HOMOFÓBICO
Teresinha Ferreira
29 de agosto de 2026 às 12:29 ▪ Atualizado há 1 hora
Imagine a situação: uma mulher está em uma reunião de trabalho, apresenta um assunto que conhece profundamente e, pouco depois, um homem começa a explicar para ela exatamente aquilo que acabou de dizer — muitas vezes de forma simplificada e como se estivesse ensinando algo que ela desconhece. A cena pode parecer apenas desagradável ou constrangedora, mas é tão recorrente que ganhou um nome: mansplaining.
A expressão vem da junção das palavras inglesas man (homem) e explaining (explicando) e é utilizada para descrever situações em que um homem explica algo a uma mulher de maneira condescendente ou paternalista, partindo da presunção de que ela possui menos conhecimento sobre determinado assunto. Não se trata, portanto, simplesmente de um homem explicar alguma coisa para uma mulher. O elemento central é a desvalorização do conhecimento, da experiência ou da autoridade feminina.
Como identificar o mansplaining
Um exemplo bastante claro ocorre quando uma mulher é especialista em determinada área e um homem que não possui a mesma formação tenta explicar a ela conceitos básicos da própria profissão. Também pode acontecer quando uma mulher apresenta um argumento e, em vez de discutir o conteúdo em condições de igualdade, o interlocutor adota uma postura excessivamente didática, como se ela não tivesse capacidade para compreender o tema.
A Justiça do Trabalho aborda o mansplaining entre as chamadas microagressões de gênero nas relações profissionais. Material divulgado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região explica que a prática ocorre quando homens explicam a mulheres, de maneira óbvia e didática, assuntos sobre os quais elas já possuem domínio, subestimando sua inteligência.
No ambiente corporativo, esse comportamento pode afetar a confiança da profissional e repercutir também na forma como sua autoridade e competência são percebidas pelos demais integrantes da equipe.
De onde surgiu a expressão?
A popularização do conceito está diretamente relacionada à escritora norte-americana Rebecca Solnit. Em 2008, ela publicou um ensaio no qual relatou, entre outras situações, uma conversa em que um homem tentou falar para ela sobre um importante livro que havia sido lançado sobre o fotógrafo Eadweard Muybridge. Havia um detalhe fundamental: Solnit era a autora daquele livro. Mesmo assim, segundo o relato da escritora, o interlocutor demorou a perceber que estava tentando explicar para a própria autora uma obra escrita por ela. Solnit não utilizou a palavra “mansplaining” naquele ensaio. O episódio e as reflexões apresentadas no texto, entretanto, ajudaram a inspirar a expressão, que posteriormente se popularizou nas redes sociais e nos debates sobre desigualdade de gênero.
Nem toda explicação é mansplaining
Esse é um ponto importante para compreender corretamente o conceito. Um homem discordar de uma mulher, corrigir uma informação incorreta ou explicar alguma coisa quando solicitado não caracteriza automaticamente mansplaining. O problema aparece quando existe uma postura condescendente baseada na presunção de que a mulher sabe menos — principalmente quando sua experiência, formação ou conhecimento sobre aquele assunto são ignorados.
O contexto, portanto, faz diferença.
Explicar, ensinar, trocar informações e discordar respeitosamente fazem parte das relações pessoais e profissionais. O mansplaining surge quando a conversa deixa de ocorrer em condições de igualdade e alguém assume uma posição de superioridade intelectual sem considerar aquilo que a mulher já sabe.
Ambiente de trabalho é terreno frequente
É no universo profissional que esse tipo de comportamento pode produzir consequências particularmente relevantes. Uma engenheira pode apresentar uma análise técnica e, logo depois, ouvir de alguém sem a mesma especialização uma explicação básica sobre sua própria área. Uma economista pode precisar demonstrar repetidamente sua qualificação antes que sua análise seja considerada válida. Uma gestora pode apresentar uma decisão e ser tratada como se não compreendesse plenamente o assunto sob sua responsabilidade.
Estudo publicado na revista científica Trabalho, Educação e Saúde, disponível na SciELO, inclui mansplaining, manterrupting, bropriating e gaslighting entre comportamentos relacionados à tentativa de estabelecer superioridade intelectual e desmerecer conhecimentos de mulheres. Outra pesquisa brasileira sobre abuso psicológico aponta que as implicações do mansplaining podem aparecer tanto no nível cotidiano — como trabalho e sala de aula — quanto em espaços mais amplos, como política, religião e posições de liderança.
Mansplaining não está sozinho
O termo costuma aparecer acompanhado de outras expressões que ajudam a identificar diferentes maneiras pelas quais a participação feminina pode ser diminuída. Manterrupting ocorre quando uma mulher é constantemente interrompida por homens e encontra dificuldade para concluir seu raciocínio. Bropriating acontece quando uma ideia originalmente apresentada por uma mulher é apropriada por um homem, que posteriormente recebe reconhecimento ou crédito por ela. Há ainda o gaslighting, conceito diferente e mais amplo, relacionado à manipulação capaz de levar uma pessoa a questionar suas próprias percepções, lembranças ou interpretação dos acontecimentos. Embora possam ocorrer simultaneamente, esses comportamentos não são sinônimos.
O que fazer diante desse comportamento?
Reconhecer a situação é um primeiro passo. No ambiente profissional, empresas e instituições podem adotar práticas que assegurem espaço de fala, respeito às competências técnicas e reconhecimento adequado da autoria de ideias e projetos. Se uma mulher é interrompida repetidamente durante uma reunião, por exemplo, colegas podem devolver a palavra a ela para que conclua o raciocínio. Se uma proposta apresentada por uma profissional reaparece posteriormente na fala de outra pessoa, também é possível registrar quem apresentou originalmente aquela ideia.
Homens podem, ainda, fazer uma reflexão simples antes de iniciar uma explicação: a pessoa pediu ajuda? Ela já demonstrou conhecer esse assunto? Estou realmente acrescentando alguma informação ou apenas repetindo aquilo que ela acabou de explicar? São perguntas que ajudam a separar colaboração de condescendência.
Dar nome ao comportamento ajuda a reconhecê-lo
Expressões como mansplaining ganharam espaço justamente porque deram nome a situações que muitas mulheres relatavam vivenciar sem possuir uma palavra específica para descrevê-las. O debate não significa que toda explicação masculina seja inadequada nem que homens e mulheres não possam discordar entre si.
A questão central é o reconhecimento da competência.
Conhecimento, experiência e autoridade profissional não deveriam depender do gênero. Quando uma mulher precisa provar repetidamente que domina determinado assunto enquanto a competência masculina é presumida, uma situação aparentemente pequena pode revelar uma desigualdade muito maior.
Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região; artigos científicos disponíveis na SciELO; estudos sobre gênero e relações de trabalho.
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