ABRAÇO DE MAMBIRA
Por Luiz Brandão
23 de julho de 2026 às 21:36 ▪ Atualizado há 7 horas
O que se viu na tarde desta quinta-feira (23) foi mais um capítulo digno de novela mexicana na política brasileira, protagonizado pela família que transformou a falsidade em método de governo. O pedido público de desculpas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à madrasta, Michelle Bolsonaro, e a encenação de um "acordo de paz" não passam de um jogo de cena orquestrado para tentar enganar o eleitorado bolsonarista e estancar a sangria que ameaça a candidatura presidencial do primogênito do clã.
Costurado pela governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), o encontro entre a ex-primeira-dama e o enteado foi tão ensaiado que pareceu roteirizado por um departamento de marketing desesperado. Michelle foi flagrada gravando um vídeo em uma confeitaria nos arredores do Jardim Botânico, perto da residência onde vive com o ex-presidente Jair Bolsonaro, para anunciar que teria feito as pazes com Flávio.
A cena, construída para consumo imediato nas redes sociais, escancara a tentativa desesperada de conter o racha que dividiu o bolsonarismo ao meio: de um lado, os chamados "bolsonaristas raiz" , que seguem Flávio; de outro, a ala mais ligada aos evangélicos, que se identifica com Michelle.
A farsa exposta
A narrativa de reconciliação entre a madrasta e o enteado, no entanto, colide com a realidade dos fatos e com a história recente da família. Como todos sabem, Michelle Bolsonaro e os filhos de Jair sempre se deram mal, e as rusgas são mais antigas que as próprias ambições políticas da ex-primeira-dama. A ponto de Jair Bolsonaro nunca ter conseguido promover um almoço em família com todos presentes. Sempre há um faltoso nos encontros do clã, o que demonstra a profundidade do abismo entre eles.
O episódio lembra, em sua essência cínica, a "brincadeira" de Jair Bolsonaro ao convidar o ministro Alexandre de Moraes para ser seu vice em 2026, uma tentativa grotesca de dissimulação que não engana ninguém. A diferença é que, agora, Bolsonaro está condenado e preso, e sua família tenta desesperadamente manter o espólio político do patriarca.
Os alvos de Valdemar
A verdadeira motivação por trás desse "abraço de Tamanduá", como chamamos aqui no Nordeste esses acordos falsos, não é afeto nem união familiar, mas puro interesse eleitoral. É uma tentativa desesperada de juntar os cacos sob orientação do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que enxerga um risco constante de perda de cadeiras na Câmara e no Senado por conta das desavenças da família Bolsonaro.
Para Valdemar, que sonha em ampliar a bancada do PL para ter acesso a mais dinheiro do Fundo Eleitoral e destinar emendas para seus aliados, a briga interna é um pesadelo. Pesquisas recentes mostram que a candidatura de Michelle ao Senado pelo Distrito Federal é competitiva, com ela aparecendo numericamente à frente em alguns cenários ou em empate técnico com a senadora Leila do Vôlei (PDT). Sem Michelle, a vaga do PL no Senado pelo DF seria ocupada pelo senador Izalci Lucas, que registra apenas 12,5% das intenções de voto, um desempenho pífio que poderia custar uma cadeira crucial ao partido.
Estratégia de sobrevivência
A farsa da paz entre Flávio e Michelle é, portanto, uma estratégia de sobrevivência para salvar a candidatura de Flávio, que enfrenta desgaste após crise e mais crise, e para viabilizar a própria candidatura de Michelle ao Senado. É o que o mercado chama de "contenção de danos", mas na política bolsonarista, chama-se cinismo.
Enquanto a cena do perdão público era preparada, nos bastidores, a guerra continua. Michelle já sinalizou que não comparecerá à convenção nacional do PL que oficializará a candidatura de Flávio à Presidência, preferindo participar do evento no Distrito Federal em agosto. Eduardo Bolsonaro, outro filho do clã, classificou as críticas públicas de Michelle a Flávio como "imaturidade". A harmonia é tão falsa quanto a promessa de um almoço em família que nunca acontece.
O cinismo e a tentativa de enganar o povo são, de fato, uma constante na família Bolsonaro. A incoerência nunca foi uma estranha entre eles e seus seguidores. Dizer uma coisa hoje e outra amanhã é a regra, não a exceção. Mas o eleitor, cansado de tanta falsidade, já começa a perceber que esse "acordo de paz" não passa de mais um episódio de uma longa novela marcada por traições, interesses mesquinhos e um desprezo absoluto pela verdade.
A família pode até ensaiar um sorriso para as câmeras, mas a realidade, essa sim, é implacável: o racha está aí, e nenhum jogo de cena vai esconder a podridão de um clã que transformou a política em um negócio de família e, a mentira, em seu maior patrimônio.

Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
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