Economistas lançam campanha nacional por transparência nos gastos públicos

Juros elevados e privilégios são apontados como vilões das contas do Brasil. Membros do Cofecon e Corecon-PI defenderam orçamento acessível à população e criticaram o alto custo da dívida pública

Em uma agenda que percorre todo o país, economistas ligados ao Conselho Federal de Economia (Cofecon) e ao Conselho Regional de Economia do Piauí (Corecon-PI) estiveram no portal Piauí Hoje na quarta-feira (2) para discutir um tema que consideram central para o desenvolvimento do Brasil: a transparência dos gastos públicos.

O economista e professor universitário Odilon Guedes, membro do Cofecon e idealizador da campanha “Orçamento Público e Transparência Popular” do Corecon-SP, ao lado da presidente do Corecon-PI, Clarissa Araújo, defenderam que a população precisa ter acesso claro e descomplicado às contas do governo — e que os economistas têm papel fundamental nesse processo.

“A gente precisa lutar com mais representação política. E nós temos sim capacidade técnica e também capacidade de debater os assuntos importantes”, afirmou Guedes durante a entrevista ao jornalista Luíz Brandão.

A campanha que quer descomplicar o orçamento

Idealizada pelo Corecon-SP, a campanha “Orçamento Público e Transparência Popular” propõe que prefeituras adotem um modelo simplificado de apresentação de receitas e despesas, por meio de painéis eletrônicos ou banners em locais de grande circulação. O objetivo é que o cidadão comum entenda, de fato, para onde vai o dinheiro público.

“O atual estágio tecnológico, educacional e administrativo em que nos encontramos já nos permite progredirmos mais. Reforçamos a necessidade de que seja criada uma peça mais inteligível ao grande público”, explica Odilon Guedes, que também coordena a Comissão de Economia do Setor Público do Corecon-SP.

A proposta já foi levada a municípios como Fernandópolis (SP), e cidades como Marília, Bauru e Ribeirão Preto já adotaram modelos semelhantes de “Orçamento Cidadão”. No Piauí, a ideia é levar o debate às universidades. “É mais importante ainda as pessoas se apropriarem desse conteúdo, os estudantes. Vamos fazer agendas nas universidades para a gente debater esse tema fundamental”, destacou Clarissa Araújo.

O mito do “Estado gastador” e a verdade dos juros

Um dos pontos centrais da entrevista foi desmistificar a narrativa de que o governo federal gasta além da conta. Segundo Odilon Guedes, o grande vilão das contas públicas não é o Bolsa Família nem os investimentos sociais, mas sim o pagamento de juros da dívida pública.

Dados de projeções para 2026 mostram que o déficit primário (diferença entre arrecadação e despesas, excluindo juros) deve ficar em torno de R$ 59 bilhões. Já o déficit nominal  — que inclui o pagamento de juros — deve ultrapassar R$ 1 trilhão.

“Quem ganha com isso é quem aplica no mercado financeiro. Não é o Bolsa Família, não é o trabalhador. A imprensa repete isso sem parar”, criticou Guedes.

O economista também apontou que a taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano, é uma das maiores do mundo, enquanto a inflação está em torno de 4,5%. “Quem aplica no mercado financeiro está ganhando quase 10% real ao ano. O que está aumentando a dívida pública é o pagamento de juros”, afirmou.

A economista Clarissa Araújo e seu colega Odilon Guedes Privilégios que ninguém quer mexer

Guedes foi enfático ao citar privilégios de setores que, segundo ele, deveriam ser revistos antes de qualquer corte em políticas sociais:

· Poder Judiciário: o teto constitucional para juízes do Supremo é de R$ 46.319, mas muitos ganham entre R$ 60 mil e R$ 70 mil por mês, e alguns chegam a R$ 200 mil ou R$ 500 mil.

· Militares: são a única categoria do funcionalismo que se aposenta com salário integral, enquanto servidores civis e trabalhadores da iniciativa privada se aposentam pelo teto da Previdência, de R$ 8.100.

“Você precisa mexer no Poder Judiciário, mexer nos militares. O governo precisa falar isso claramente. Eu tenho certeza que, se o governo falar isso, ele vai ter o apoio da população”, defendeu.

O papel do Estado e a defesa do serviço público

Os economistas também aproveitaram para rebater o discurso neoliberal de que o Estado atrapalha. Guedes citou exemplos concretos do sucesso da atuação estatal:

· A Embraer é a terceira maior fabricante de aviões do mundo e exporta graças ao financiamento do BNDES, um banco estatal.

· O SUS é referência mundial e atende mais de 80% da população. “Nos Estados Unidos, uma cirurgia de apendicite custa US$ 115 mil. Aqui você faz transplante de coração de graça”, comparou.

· 95% da pesquisa científica no Brasil é feita em instituições públicas.

· A maior parte dos estudantes universitários vem de escolas públicas.

“O funcionalismo responde toda vez que é necessário. Você tem problemas, como tem em qualquer lugar do mundo. Mas estamos fazendo esse trabalho de resgate do papel do Estado”, concluiu Guedes.

O que esperar da campanha no Piauí

Além da entrevista no portal Piauí Hoje, a comitiva já esteve reunida com a direção do Conselho Regional de Contabilidade do Piauí e realizaaram um evento com estudantes de Economia e economistas do estado. A agenda também prevê debates na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), onde Clarissa Araújo atua como professora.

“A sociedade precisa se apropriar desse debate e fazer uma pressão”, reforçou Clarissa. “A questão dos juros no Brasil é uma questão histórica que nós precisamos enfrentar.”

A campanha do Corecon-SP segue em expansão, com a expectativa de que mais cidades brasileiras adotem o modelo de orçamento transparente e acessível — e que a população, munida de informação, cobre de seus representantes o uso correto do dinheiro público.

Veja a entrevista completa