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Ridento castigat mores. Loas?

Uma manifestação genuína da alma do povo em movimento


Mascara de Carnaval

Mascara de Carnaval Foto: Divulgação

O mundo ocidental acaba de ultrapassar a semana do Carnaval, oficialmente os três dias que antecedem a Quaresma, tempo de brincar, liberar insondáveis sensações de prazer.

O Brasil é destaque mundial no grande evento: a vida social inteira é afetada pelo acontecimento, efeméride mobilizadora como nenhuma outra no campo do encantamento e sobretudo do bom humor.

Na elaboração, na plástica e sobretudo nas inspirações que movem a festa a cada ciclo de sua realização, muito evidente este ano uma crítica social-política ao regime golpista que viça no Brasil, agravado com a tomada do poder pelo bolsomorismo.

Uma manifestação genuína da alma do povo em movimento – a exemplo de outras conjunturas, do militarismo ditatorial, p. exemplo – o Carnaval 2020 cumpriu um papel de denúncia das tiranias em viço atualmente.

Ridento castigat mores, do latim que se vulgarizou, significa “é rindo que se corrigem os costumes”. Ora, o Brasil de agora, sob a imposição de facínoras travestidos em corregedores morais, assiste a agressão fundamentalista desses boçais fascistas, e os artistas de toda inspiração e sabedoria são suas vítimas mais insultadas.

Daí a característica obscurantista que marca os regimes de extrema direita, no Brasil atualmente nadando de braçadas a hipocrisia extremista falso-moralista e o nazi-fascismo alastrado em todas as faixas do corpo social. 

Essa onda tenebrosa no Brasil, confrontada pelas vagas populares e diversas alegorias libertárias neste Carnaval, teve caráter de insurgência, exprimindo a recusa da falsa moralidade reivindicada pela operação golpista, sabuja do imperialismo.

Os setores da institucionalidade que degeneraram no golpismo estariam preocupados com esse carnaval do escracho contra seu reacionarismo? Chiaram os dementes animadores e derivados das ditas bancadas “da bala, do boi e da bíblia”?

Mas o Carnaval, com parecença de alienação, se canalizando lampejos de contestação contra o fascismo em viço deu uma ótima senha, ainda não dá para dizer que os brasileiros acordaram da estupefação ante o regresso civilizatório em marcha.

Carnaval é povo na rua e a liberdade na ponta dos pés a desfilar por elas. Diverte, explodem as pulsões de prazer que o corpo desejante impõe. É mobilização popular genuína. Mas logo se pergunte: por que o Carnaval, sim, mas a luta pela própria liberdade não se agiganta em mobilização neste contexto em que o direito de exercê-la é ferido pela ordem de inspiração ditatorial que avança?

Talvez não se alcance, assim em cima da cena, e do lance, respostas mais satisfatórias. Contudo, alenta constatar que pelo riso de foliões há vislumbres de contestação ao reacionarismo ensandecido em voga.

Com rosas e risos dá para enfrentar o ódio, a bala, a mentira criminosa em regra? O furor deflagrado que incandesce a polarização revelada na luta de posições nesta conjuntura desesperançada?

Corrigir costumes pelo riso: esta parece ser a essência do brocardo latino do título. No caso do Brasil atual, haverá de se dá mesmo um sentido demolidor dos costumes obscuros que o regime golpista está impondo.

Relembremos, só: a educação como exercício da obediência, isto é, o costume de se obedecer sem pestanejar, a “disciplina” militar; a volta da “castidade”, ou, o costume da virgindade como presente aos machões; a recidiva da escravidão, ou, costume do “entrega-me a riqueza do teu corpo e trabalho” e te deixo comer nos coxos de minha senzala pós-moderna; “eu prendo e arrebento”, ou, a lei, “ora a lei!”, costume das perversões arraigadas na desalma dos capatazes insones.

Que esses costumes, e outros mais, desfaçam-se nessa espécie de mágica do riso, no Brasil doente e acostumado às misérias do autoritarismo, ao vil racismo; daí o ódio de classes, os desesperançados; o menosprezo pela democracia, o ataque mortal a valores da igualdade entre humanos.

Não se esqueça, porém, urge, que haja loas ardentes dos milhões nas ruas no dever de bradar por liberdade, comida, justiça; direitos indeclináveis na compulsão do viver junto.

Fonte: Fonseca Neto

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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