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ARTIGO

Na Ufpi, sussurros sucessórios

Que leitura fazer dos sussurros que enredam reitoráveis a esta altura das antecipações eleitorais?


UFPI

UFPI Foto: Divulgação

Tendo como cenário as traquinagens do regime em relação às universidades federais e de olho na lei que delimita mandatos de reitor em quatro/oito anos, na Ufpi está deflagrado o processo sucessório 2020.

O assunto é muito relevante porque diz respeito a uma Instituição cujo destino tem muito a ver com o futuro do Piauí. Na vida da Ufpi estão diretamente envolvidos milhares de estudantes, agentes trabalhadores de diversos fazeres.

Que leitura fazer dos sussurros que enredam reitoráveis a esta altura das antecipações eleitorais?

Em primeiro lugar, saber se haverá a chamada “consulta” à comunidade universitária com vistas à elaboração de lista tríplice de postulantes. Em havendo, que regra adotar e seguir, em meio às incertezas políticas e do presente, em face da quebra da legalidade constitucional com juízes fazendo o que a chefia do regime aponta seja feito.

Diz a lei que o colegiado maior da Ufpi pode convocar a referida consulta para oferecer-lhe nomes para a composição da lista. Pode convocar? Sim, não é obrigado a fazê-lo. Mas uma vez assim decidindo, vinculada fica ao resultado das urnas a composição de nomes para a escolha do Executivo. Esse princípio que vem orientando as cinco últimas sucessões prevalecerá no Consun, Colégio Eleitoral e em Brasília?

Na realidade, abre-se, na prática, um processo eleitoral cheio de dúvidas, propiciadoras de vário aventureirismo em relação às funções diretivas e cargo maiores da Ufpi, a reitoria e seu aparato imenso de poder.

Chegada aos 50 anos (criada por lei em 1968), a Ufpi, e sua reitoria, tornam-se nessas transições objeto desejado por muitos – em princípio justa – docentes candidatos à chamada Magnificência.

São em geral momentos em que se fala muito de ideias, projetos diversos, solução de antigos e novos problemas. Desafios não faltam, sazonalmente agravados pela escassez de verbas. Na escassez ou nas ofertas mais generosas de verbas, algo parece não mudar na Ufpi: as discussões sobre o déficit de democracia interna a mover os fluxos decisórios. Problema maior: a centralização do poder interno na Instituição é avassalador, qual uma dádiva para os viciados em burocracia, esta expressão maquinosa de poder, cujo exercício reiterado por um só de bloco de agentes – que se reinventa e mantem –, desencadeia nas instâncias de base da Universidade um nível de alheamento fundado na percepção de que pouco ou nada adianta exercitar, com afinco, por exemplo, um processo decisório real em nível das colegialidades de base.

Não faz tempo, vi uma demandante de certa matéria, no Conselho do CCHL, na saída de sessão em que sua pretensão fora convertida em diligência, dizer, alto e com riso petulante, que não adiantava aquela diligência e questionamentos do colegiado de pares, porque aquela matéria já estava resolvida a seu favor, em cima. E estava, logo se viu.

O ciclo de maior viço democratizante no Brasil, dos últimos 30 anos, agora rompido, não nos concedeu alcançar um padrão de maior alargamento na construção de um organismo universitário menos sujeito às injunções do poder concentrado e sua tinhosia. Um reitor tem, registre-se, mais ou menos, “de confiança”, isto é, demissíveis ad nutum, o dobro dos funcionários que são os dirigentes da chamada Administração Setorial. Aqueles, com retribuição remuneratícia e bônus de poder e prestígio igual ou superior a estes. E na estrutura administrativa acadêmica de base – chefias de departamento e coordenações de curso e afins –, mais de uma centena de agentes recebendo por volta de dez vezes menos que a burocracia da camada dirigente de cima.   

O momento sucessório que se abre, com pré candidatos em franca mobilização, ainda não vem isentado de enfrentar essa trava. Mas lastimavelmente algumas conversas chegam a propor que se construa candidaturas, não que acima de tudo sirvam à sociedade no governo da Ufpi, mas que se ajustem, a priori, ao jeito que o regime golpista, bolsomorista, quer de um reitor/a, isto é, a reiteração do revés civilizatório em curso. Intragável a dose a recusar.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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