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Germes

Para Jareb Lima, um desconfiado das verdades dizíveis!


Coronavirus

Coronavirus Foto: Divulgação

As nações e suas gentes lutam contra o chamado coronavírus ou covid-19. Ele passa levando vidas e fazendo tempestade no que muitos tinham por uma ordem social normal sobre a face da terra.

Mais uma vaga pestilenta, mais um susto pavoroso na longa crônica da guerra entre humanos e os germes – os micróbios, assim poderíamos chamar esse flagelo pelo falar português comum de todo dia. Pestes.

Chamam-nas de pestes, no modo ainda mais popular de falarem umas pessoas com as outras.

Os estudos históricos, colhendo nas linhas longas da crônica do existir, com evidências cabais havidas pelo conhecimento cientificamente aplicado, dizem-nos que esses micronesíssimos seres pertencem ao movimento/processo comum do que também comumente se chama de vida e morte e vida. E morte.

Eles disputam com outras formas de vida uma espécie de “direito” à vida a seu modo. “Direito” de sobreviver, ter sua existência continuada. Que outros seres e modos de vida se destruam para que sobrevivam os germes seria apenas algo ínsito na inexorabilidade das coisas sob nossos céus particulares e no coração pulsante do Cosmos, da Criação.

Lembra-nos Jared Diamond, em “Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas”, o que muita gente nem desconfia: não são as guerras entre povos sobre a esfera terráquea que mais dão fim à vida humana, em massa, e em espaços curtos de tempo. São os micróbios.

Diz ele: “Os principais assassinos da humanidade ao longo de nossa história recente [...] são doenças infeciosas que se desenvolveram de doenças de animais, embora a maioria dos micróbios responsáveis por nossas próprias epidemias agora esteja, paradoxalmente, quase restrita aos seres humanos. Por terem sido as maiores assassinas das pessoas, as doenças também moldaram de forma decisiva a história”.

Essa análise do professor norte-americano, considerado um polímato, membro da Academia de Ciências dos Estados Unidos, inclui uma referência interessante sobre o desenvolvimento da agricultura e, junto, a domesticação dos animais selvagens, tudo isso potencializando a expansão dos germes, agora hospedados noutros seres e na sua faina incessante pela própria sobrevivência. Repita-se: ainda que destruam os hospedeiros ...

Acrescenta Diamond que até “a Segunda Guerra Mundial, uma quantidade maior de vítimas morreu por causa de micróbios trazidos com a guerra do que dos ferimentos das batalhas”. Mais: “Todas essas histórias militares que glorificam grandes generais simplificam demais a dolorosa verdade: os vencedores das guerras passadas nem sempre foram os exércitos com os melhores generais e as melhores armas, mas quase sempre aqueles que simplesmente carregavam os piores germes para transmiti-los aos inimigos”.  

Como ele recorda, vírus como arma vem insidiosamente usado desde guerras distantes no tempo. Do tempo que nem se sabia que eles existiam, mas se tinha certeza da existência de doenças que “pegavam” de uns nos outros. Nações e Impérios foram erguidos e derrubados por ação silenciosa e devastadora deles.

Recordo em nossa própria história que em torno do ano de 1815, no Maranhão, entre Caxias e a Passagem – não muito distante desta chapada onde está Teresina hoje –num ato cruel, grupos indígenas habitantes da margem esquerda do Itapecuru foram atraídos à sede municipal caxiense e, propositalmente, colocados junto a variolosos, numa terrível alastração desse mal, e quando eles voltaram para os aldeamentos de origem, contaminaram suas famílias, levando à dispersão e desaparecimento o seu povo indefeso. Estamos falando dos timbiras capiecrãs e parentes. Quando alguém do grupo aparecia com o sintoma, febre e coceira, punham sua cabeça sobre uma pedra e a esmagavam, na esperança de debelar o mal. Resultado de uma hediondez branca, um etnocídio (cf. Memória das Passagens, pp. 58-620).

Foi com crimes desse naipe – quando não da eliminação pela superioridade da pólvora –, que os régulos da ganância luso-mercantil se tornaram os latifundiários dessa bela e fertilíssima região. Episódio lastimado até por certo oficialismo reinol.   

É agradável a leitura do professor J. Diamond, tratando dessas guerras de longe com micróbios e armas. E é nosso dever assinalar que elas se deram e se dão aqui e agora.    

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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