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Clodoaldo, fundador de academias

Ao ser instituída a AML, cada fundador escolheu um patrono para a respectiva Cadeira


Acadêmicos Fonseca Neto e Elsior Coutinho, sucessores de Clodoaldo Freitas na Cadeira 1, da Academia Piauiense de Letras, e na Cadeira 18, da Academia Maranhense de Letras.

Acadêmicos Fonseca Neto e Elsior Coutinho, sucessores de Clodoaldo Freitas na Cadeira 1, da Academia Piauiense de Letras, e na Cadeira 18, da Academia Maranhense de Letras. Foto: Divulgação

Clodoaldo Severo Augusto Conrado de Freitas é um notável piauiense, nascido no município de Oeiras, a 7 de setembro de 1855. Homem público e idealista da República, com reconhecida contribuição à grandeza humana por onde passou, seja como protagonista judiciário e publicista insone.

O Piauí e o Maranhão devem-lhe muito. Fez-se escritor e sua escritura é bastante influente, pelo valor de fundamento e registro literário-historiográfico. Coisa de paladino, de romântico. Aliás, diga-se logo, que ser amante e prático da República, no Brasil, é incorrer na doce insanidade de namorar utopias.  

Mas devo assinalar nesta nota, antes de mais nada, a figura de Freitas como fundador de grêmios literários, notadamente os mais vistosos e perenes entre eles, a Academia Maranhense de Letras, em 1908, e a Academia Piauiense de Letras, em 1917. O motivo imediato da lembrança é a sucessão na Cadeira 18, dele, na AML, fato ocorrido há duas semanas, na cidade de São Luís. Na APL é o fundador da Cadeira 1.

Ao ser instituída a AML, cada fundador escolheu um patrono para a respectiva Cadeira, seguindo o modelo da Academia Brasileira de Letras. Freitas fixou-se no nome de Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, falecido havia seis anos, em 1902. Sousândrade: poeta e fautor de obra plena, complexa, erudita. Mas no juízo do republicano Clodoaldo, há que se pensar que levou em consideração o Sousândrade literato e prócer da radicalidade republicana, com quem pessoalmente terçou cumplicidades na vetusta São Luís quando alcançava o Novecentos.    

Desde o último dia 29 de agosto, na Cadeira 18 sucedeu a Freitas, por terceiro, o escritor Elsior de Sousa e Silva Coutinho, maranhense do município de Coelho Neto, com ascendência parental nos Coutinho do velho Estanhado parnaiba-ribeirinho, hoje cidade de União. Falecido em 1924, Freitas foi na AML imediatamente sucedido pelo padre Astolfo Serra, intelectual de grande valor, liberal-social convicto e prático, que chegou a governar o Maranhão em 1931, alçado pelo movimento que empalma o poder federal no ano anterior. Foi vigário de Flores, agora Timon, até o dito ano, quando manteve intensa articulação política com chefes trintistas em Teresina. Estava presente em Teresina na solenidade especial que instalou a Faculdade de Direito do Piauí, em março de 1931, junto com o então prefeito de São Luís, Carlos Macieira. Falecido em 1978, a Dezoito foi assentada pelo poeta Manoel de Jesus Lopes, filho do Maranhão central, hoje município de Dom Pedro, falecido em 2017.

Agora Elsior Coutinho o sucede, em festa solenemente despojada. Conforme a praxe, entre costume e estatuto, faz a memória clodoaldiana, e assim de Sousândrade, Serra e Lopes. Lavra nos cultivos da imortalidade, força cogente do silogeu maranhense, ali pegado aos fundos do tricentenário Convento do Carmo.

“Além do Piauí e do Maranhão, viveu e trabalhou [...] no Pará, no Amazonas, em Mato Grosso, Minas Gerais e no interior do Rio de Janeiro. Foi desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí”: este é trecho que recorto do discurso do eleito-ingressante sobre Freitas, ao qual acrescento que esse périplo pelos “brasis” foi movido por perseguição a suas acendradas qualidades republicanas, tornadas letras decisivas em suas sentenças de magistrado. Enormes suas dificuldades para sustentar a família, atacado pela vil política do Brasil arcaico, que corroeu a República que sonhara com Sousândrade e não tantos outros.  

Subscritor desta nota a tudo assisti.

Assisti, na qualidade para mim honrosa de quinto sucessor de Clodoaldo Freitas na APL, Cadeira 1, que tem de patrono José Manuel de Freitas, jurista-escritor, piauiense de Jerumenha, também com fortes ligações com o Maranhão, que governou na estação provincial.

Um anticlerical de marcada extração, Clodoaldo foi na 18 sucedido por um padre, Astolfo. Idem, na 1, em 1925, justamente por um jovem padre, que dele se tornara um especial amigo, Cirilo Chaves Soares Carneviva, de ascendência materna maranhense, em Caxias. Seguiram-se o segundo sucessor, Esmaragdo de Freitas e Sousa, Dom Avelar Brandão Vilela, cardeal, o terceiro, e quarto, Alberto Tavares Silva.

Elsior, na terceira sucessão de Freitas, na AML, e este subscritor, na quinta estação sucessória dele, na APL, haveremos de cumprir o que aspiram de nós os imortais, que assim sejam, no céu que também almejamos.   

 

Fonseca Neto, da APL.

Fonte: Fonseca Neto, da APL.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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