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Alice no país dos aranhins

Puxo agora pela memória a figura de uma mulher muito querida por nós, na minha terra original


Retirantes de Portinari

Retirantes de Portinari Foto: Pinterest

A memória é matéria prima essencial no artesanato da História. A vida em sociedade move-se por ondas e marés de memórias que cada pessoa e coletividade cultivam enquanto caminham em direção ao futuro, ao vir a ser.

As memórias nos orientam, animam, às vezes desvanecem. Conferem-nos a mediana condição da segurança existencial. Positivamente, como é prazeroso recordar certas coisas da vida, relembrá-las à luz de experiências posteriores. Esmiuçá-las num âmbito de acontecimentos mais amplos. Enfim, transformar memória em repertório de conhecimento histórico.

Puxo agora pela memória a figura de uma mulher muito querida por nós, na minha terra original. Dona Alice Alves Feitosa, ou Alice do Antonio do Germano. Doralice seu nome oficial.  

Alice chegou em Passagem Franca, criança de colo, no ano de 1932, em meio a diáspora da terrível seca que afastou milhares de “nordestinos” no rumo do Maranhão e da Amazônia. Veio do R. G. do Norte ao Maranhão, trazida pelos pais, a bordo de “um animal de carga”, num “jacá”. Viagem penosa. Na Passagem ela cresce, fica moça bonita, olhos claros, gateados. Estuda o primário. Aos vinte e poucos anos casa-se com um rapaz de sua idade, Antonio, muito conhecido por extrovertido, brincalhão, trabalhador disposto, criado como dileto filho do homem então mais conhecido da cidade, o coronel-prefeito Germano Cardoso da Silva, daí que todos sempre chamaram o moço de “Antonio do Germano”, de nome civil Antonio Silva Fernandes.

Antonio, passagense, nascido no lugar Aranhim, o mais ancestral entre os povoados que formaram a paróquia e o município da Passagem. Aranhim, à beira do riacho das Inhumas, é referência memorial de um povo tupi que ali viveu, e resistiu quanto pode resistir à fúria colonizadora, que, por fim, roubou-lhe as terras e o próprio direito de existir. Antonio nasceu já no século XX, 1929, sendo a povoação do Aranhim, então, terra de agricultores e criadores e muitos agregados empobrecidos e migrados do Ceará, os Pereira da Silva, entre eles. E, como se disse, esse Antonio do Aranhim, filho de Luiz e Martinha, foi “dado” a Germano e Delmira, para criá-lo “na cidade”, sair da roça e ter outro futuro.    

Alice e Antonio casam-se ainda na década de 50. Foram fazer e criar os filhos. Muitos: José Sebastião, Valdeny, Joaquim, Gaudêncio, Antonio, Valmir, José Clemilton, Américo, Clodoaldo e Adão. A “eva” vem a ser a neta Paula Fernandes, espécie de caçula da casa.

Como se vê, uma prole numerosa eles trazem ao mundo, um desafio para criar essa gente toda. Ainda em 1955, falece o pai de fato e protetor de Antonio, coronel Germano, um apoio, sem dúvida. E ele então tocou a vida como um trabalhador insone. Leandro Feitosa, caripina competente, o sogro, tinha uma casa bem estruturada à rua do Grajaú, com fundos para a nova “rua do campo”, área aberta pelos anos 1940 para se jogar futebol. Antonio faz sua morada ali nos fundos do quintal dos pais de Alice, os referidos Leandro e Petronília, a dona Pitu, casa essa onde nasceram seus filhos.

Para criar essa meninada dignamente, o casal se desdobra em esforços. Desde os anos 50, Antonio dedica-se ao trato das coisas do Curral do Conselho, isto é, repartição da prefeitura que administrava o abate de reses para o Mercado Público, tornando-se um marchante... É um destacado pescador pelas lagoas dos arredores.  

Muito retraída em casa, completamente envolvida na criação e equilíbrio de sua família, dona Alice contava com a inestimável colaboração de suas irmãs Alaíde e Heloísa, trabalhadoras e dedicadas tias da garotada. O mais velho, Sebastião, “Sessé”, mais vivia na casa da vó Pitu que na sua.

Aliás, na vida duramente levada por Alice e Antonio, mas sem mortificação redundante, um raio caiu sobre a família: a partida antecipada do Sessé, numa tarde de junho de 1963. Um Jeep o colhera, infante, e do meio da rua o “louro” do Antonio do Germano foi para a eternidade. Fatalidade.

Alice, que do Rio Grande sob o sol ardente alcançou o Maranhão, aguenta o tranco e aceita o destino de entregar ainda mais filhos ao mundo. Uma fortaleza humana. Deixou-nos há pouco tempo.  

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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