Proa & Prosa
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Adélman

Agora ele parte: faz neblina sobre os Picos.


Adelman de Barros Villa

Adelman de Barros Villa Foto: Divulgação

Teresina viu viajar para o outro lado do mistério, no último dia 9, um cidadão devotado ao estudo, particularmente ao Direito: Adélman de Barros Vila. Do tempo em que esse conhecimento requeria embasamento no que a tradição clássica chama de Humanidades.

Um dia, numa aula de Direito Administrativo, no curso de Direito da Universidade Federal do Piauí, descobriu-me nascido numa cidade da zona dos cocais itapecuranos, do Maranhão, e logo falou que por lá também nascera: não mais quando me viu deixou de chamar de “conterrâneo”. E também foi logo dizendo: “certamente tu conheces o belo livro Minha Terra e Minha Gente, de meu parente Reis Jr...”. Disse-lhe que conhecia por referência, mas tinha muita curiosidade em compulsá-lo. Na aula seguinte, eis o livro em minhas mãos, aliás, autografado originalmente para Washington Vila.

“Fica com ele quanto tempo quiseres”. Posso fotocopiar? “Quantas cópias necessárias. É muito raro e somente alguns familiares têm exemplares”, disse. Desde então – era a segunda metade dos 1970 –, nunca mais deixamos a prosa. E ele, chamando-me, às vezes, de “meu conterrâneo radical”, tinha gosto em falar das coisas de nossa gleba comum. Eu o dizia “meu mestre-conterrâneo”.

Além de perguntar sobre o livro, naquele primeiro contato, logo também viria a me perguntar se ainda existia, e eu conhecia, a Fazenda Bois, exato lugar de seu nascimento, nos arredores da cidade de Picos, no Maranhão, na década de 1920, cidade e município depois chamados de Colinas.

Durante muitos anos, ele me “provocou” a ir lá com ele, pois nunca se considerou colinense, mas sim um “picoense”. Dizia-me que não voltara à cidade de sua infância depois da referida alteração toponímica, e que por isso, eu, mais novo, deveria “apresentar Colinas... porque a cidade que conheço é Picos”. Eu gostava muito dessa prosa com mestre Adélman. Certa feita ele franqueou-me uma ida à sua casa a entregar um relatório de estudos, que não poderia esperar a aula seguinte. Fui juntamente com minha colega de turma, Hortulina Paiva, que o venerava. Mostrou-nos com prazer sua biblioteca, rica em títulos para quem gosta de Humanidades.   

Reencontraria o “mestre-conterrâneo” mais tarde, agora seu colega no CCHL/Ufpi, ele já se aposentando do magistério. Ali, em conversas amiudadas, testemunhei o quanto vibrava com os feitos estudiosos do Adélman Jr., da inteligência jurídica da esposa Maria Luzia, procuradora, das meninas.

Nada, porém, em se tratando de afeto escancarado, podia se comparar em matéria de apego ao neto Lucas Vila. Não esquecerei do quanto ele se mostrava positivamente impactado com o fato de Lucas fazer duas graduações na Ufpi, ao mesmo tempo, Filosofia e Direito, “inseparáveis”. Preocupava-o, em certo momento, o neto apegar-se mais ao especular filosófico que à ciência e prática do Direito.

Quanta satisfação irradiava, certo dia, adentrando a sala de diretor do CCHL a me apresentar o neto estudante – que eu já havia cuidado de conhecer entre a estudantada. “Olha aqui um grande poeta...”. Depois fomos assistir à calorosa festa de lançamento do Viscerátika no Salão Nobre da Reitoria. Ali ele servira, durante algum tempo, como Assessor Especial do Reitor.

E para ser esta recordação ainda mais justa, devo dizer que foi nesse exercício de assessor, e eu de diretor do CCHL, eleito numa posição político-acadêmica diversa do staff reitorial, que, certo dia, reitor ao centro, no gabinete, tivemos, os “conterrâneos”, uma altercação em torno de determinado Parecer... 

Um pouco de frieza durante algum tempo, pelo componente acirrado da posição reitorial em face do CCHL sobre algumas questões. Mas logo estávamos de novo “tratando” da viagem a Colinas, isto é, a “Picos”, que habitava sua mente. A viuvez o desvaneceu um pouco: “queria levar Maria...”. Depois, combinou: “vamos organizar a viagem e trate disso com o Adélman Jr.”

Um senso de humor... Certo dia, achei de surpresa o mestre-conterrâneo, no Supermercado. Pegava um litro de whisky. Logo me perguntou: “gosta dele? Tem que ser do melhor”. Era um Old Par, ainda novidade, muito caro. Rimos.

Agora ele parte: faz neblina sobre os Picos.  

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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