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Tecnologia e conservação

Sob os mais variados aspectos, a industrialização não é exatamente um meio pelo qual todas as sociedades vão se desenvolver social e economicamente


Tecnologia

Tecnologia Foto: Reprodução

Muita gente tem como ideia de desenvolvimento a expansão de indústrias, a substituição massiva de coberturas vegetais nativas por plantios e criação ou a expansão horizontal das áreas urbanas. Sem prejuízo de que se possam abrir novas estruturas industriais pelo mundo, expandir a produção agropecuária e fazer as cidades crescerem, há equívocos em perceber crescimento social e econômico sob os três vieses citados.

Sob os mais variados aspectos, a industrialização não é exatamente um meio pelo qual todas as sociedades vão se desenvolver social e economicamente – muito pelo contrário. Em algumas áreas, a presença de estruturas industriais cujas atividades têm impacto ambiental elevado, a instalação de atividades do tipo pode ser muito mais onerosa que vantajosa. Ativos naturais e santuários de conservação podem ser mais rentáveis que uma fábrica ou atividade mineradora, por exemplo.

Pode-se usar a mesma perspectiva para a substituição de florestas nativas por cultivos ou criação de animais. Ora, mas o país precisa cultivar e criar mais, para consumo próprio e para exportação de excedentes. Tudo bem, é verdade que temos de focar em atividade econômica essencial para manter o bem-estar de outras cadeias produtivas e para a geração de empregos, mas antes de abrirmos novas áreas para a agropecuária devemos focar em maior uso de tecnologia para ampliar o rendimento agropastoril, bem assim buscar ocupar áreas já abertas ou degradadas, cuja recuperação pela agricultura certamente serão um sinônimo muito mais adequado de desenvolvimento social, econômico e ambiental.

Finalmente, nesse trinômio em que apontam equívocos acerca de desenvolvimento, tem-se a expansão horizontal dos centros urbanos – de todos os tamanhos. É evidente que cidades com áreas urbanas maiores tendem a ter um custo maior para oferecer serviços aos seus cidadãos, sobretudo os mais básicos, como transporte, saneamento básico (que inclui água, tratada, esgoto, coleta e tratamento de lixo), energia e comunicações. Daí porque em vez de se expandir a cidade, fazendo com que as áreas urbanas sejam mais extensas, uma solução que parece mais razoável é concentrar as pessoas em áreas mais qualificadas, com mais serviços e espaços verdes de uso comum.

Essas três abordagens levam a uma terceira, que é o massivo uso da tecnologia em favor da qualidade de vida – não de sua destruição. A tecnologia que amplia o rendimento da agropecuária e recupera terras degradadas pode salvar florestas (fauna e flora) mananciais (rios, lagos, nascentes, lençóis freáticos e aquíferos), reduzindo a emissão de gases do efeito estufa e, claro, fazendo melhorar a vida de milhões de pessoas. É essa mesma tecnologia que pode, nas cidades, reduzir os consumos de água e energia, favorecendo que as pessoas possam morar em espaços menores, verticalizados e próximos de áreas verdes de recreação para uso comum. Mas e quanto às indústrias? Bem, não precisamos necessariamente de grandes estruturas industriais, mas sim de atividades econômicas sustentáveis e que ocupem as pessoas no entorno delas – aqui entre nós, por exemplo, cultivos e serviços com grande suporte tecnológico.

Assim, é realmente interessante que a gente pense em desenvolvimento econômico não como uma corrida para se ter coisas gigantescas, mas sim para termos atividades produtivas e de serviços com pegada socioambiental focadas, sempre, em preservar a vida, fazendo-a melhor.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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