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Sobre o tempo

O tempo é matéria-prima dos historiadores, mas é também uma espécie de insumo fundamental para todas as demais profissões


Tempo

Tempo Foto: Divulgação

O tempo é um conceito relativo, todo mundo diz. O tempo pode ser medido, ignorado ou negligenciado. Porém, é seu caráter inexorável passar independente de nossa vontade que faz do tempo um inimigo ou aliado, dependendo do modo como lidamos.

O tempo é matéria-prima dos historiadores, mas é também uma espécie de insumo fundamental para todas as demais profissões. Médicos, por exemplo, se perdem um tempo mínimo no atendimento a uma pessoa ferida gravemente, podem, simplesmente decretar a morte do paciente. Advogados, sem perdem o prazo, podem condenar uma pessoa e contadores se não estiverem atentos ao tempo certamente vão obrigar seu cliente a pagar mais tributos.

Sou advogado e lido o tempo todo com prazos. Devemos cumprir fielmente o prazo e isso nos deve ensinar que é importante o respeito ao nosso tempo e ao tempo de outros. Seja isso porque a perda de um prazo pode incorrer em prejuízo ao cliente, seja porque respeitar o tempo das pessoas representa não lhes tirar algo que não pode ser devolvido.

Se ainda não está claro, vamos a um fato simples: se você marca um compromisso com uma pessoa e a deixa esperando por uma ou mais horas, simplesmente houve, neste caso, a apropriação do tempo alheio. As horas perdidas num compromisso não consumado representam uma perda irreparável. Assim, convém que o tempo nos imponha também regras de boa conduta.

Se não podemos, por qualquer razão, comparecer a um compromisso, é certo e justo que a gente avise para não deixar a pessoa esperando à-toa. Se vamos nos atrasar, vale o mesmo: avisa-se para que não haja a perda do tempo pela pessoa que nos aguarda. É muito simples, é gentil e educado, mas a maioria das pessoas se esquece disso e vai tomando um tempo que não lhe pertence.

A ideia do tempo como algo que não se pode tomar dos outros não é minha, tampouco é uma novidade. Lembremos, por exemplo, do pecado da usura, que condenava a cobrança de juros. Qual a sua base mais importante? O tempo. Os juros são cobrados pelo tempo que uma pessoa permanece com o dinheiro sem quitação da dívida vincenda ou vencida. Mas o entendimento da Igreja Católica (no Islã também se pensa assim) é o que não se pode cobrar pelo tempo porque este é mercadoria de Deus. Eis um ponto interessante de inflexão: o tempo não pertence a uma pessoa, mas a Deus, que o concede para melhor uso de cada um dos seus filhos.

Ora, então se o tempo não pertence a uma pessoa, mas a Deus que dá esse tempo à pessoa, somente ela poderá dispor de como vai usar esse tempo. É obviamente esta uma discussão comprida demais, complexa e que se não flexibilizada capaz de nos levar a um espaço fundamentalista. Porém, cabe lembrar que o tempo das pessoas deve ser respeitado com rigor, até para que o tempo de cada um não seja alvo de frequente desrespeito.

E como até aqui ganhei parte do seu tempo, aplicado na leitura deste texto, cabe encerrar com uma reflexão do livro do Eclesiastes:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Ex-Presidente da OAB-PI. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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