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Simples, mas não fácil

Podemos tomar como exemplo uma série de demandas por serviços públicos, como água, coleta e tratamento de esgotos e lixo


Complexidade

Complexidade Foto: Divulgação

Uma frase bastante usada quando alguém quer definir um político populista ou uma ideia do mesmo naipe ensina que para um problema complexo se propõe uma solução fácil. Essa é uma assertiva realmente boa, porque para a maioria dos problemas das pessoas tende a considerar que há meios fáceis de resolver problemas complexos. Por complexidade devemos entender o grau de dificuldade para a solução, então pode ser que haja meios simples, mas não fáceis para a resolutividade de problemas.

Podemos tomar como exemplo uma série de demandas por serviços públicos, como água, coleta e tratamento de esgotos e lixo ou ainda produção agropecuária com menor impacto ambiental. Há quem considere fácil a solução para os problemas que envolvem as situações elencadas. Neste caso, como em qualquer outro caso, a prudência recomenda olhar-se com reservas para aqueles que dizem ser fácil solucionar problemas.

Assim, a gente precisa voltar à questão da complexidade. O que representa essa condição? Complexo é o que se constrói com numerosos elementos interligados e interdependentes, de tal modo que, por mais simples que sejam as soluções apresentadas para problemas com alguma complexidade, elas dificilmente poderão ser fáceis. Volte-se à questão da água: aumento ou redução de oferta depende de como lidamos com os mananciais, se os protegemos e os conservamos, se garantimos uma gestão equânime para uso racional, e, dentro deste uso gerenciado, aplicamos maior peso financeiro sobre quem usa água com fim de obtenção de lucros.

Neste sentido parece razoável que estejamos prontos a rechaçar as soluções prontas, “fáceis” para demandas e problemas complexos. Não que inexistam ideias simples para questões complexas, mas nada é feito facilmente, principalmente considerando custos financeiros ou barreiras legais e jurídicas, que levam em conta interesses coletivos, de grupos sociais específicos ou direitos difusos.

Há um risco bastante grave em subestimação da complexidade dos problemas e em superestimação da facilidade de suas soluções, qual seja, de tornar muito mais difícil solucioná-los ou, ainda pior que isso, tornar mais caras as soluções. O risco de elevação do ônus financeiro, socioambiental e político de soluções deveria ser medido e pesado o tempo todo, tanto por líderes quanto por cidadãos votantes.

Quanto mais considerarmos a ideia populista das soluções fáceis, mais riscos a gente segue correndo de ampliar nossos problemas e reduzir os espaços para resolubilidade. Isso custa caro agora e pode ter um preço alto demais para ser pago no futuro.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

 

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