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Raimundo Baptista, um homem bom!

Pessoalmente, devo a ele o amor que desenvolvi pela filatelia e também por estar atento àqueles que narravam bem um acontecimento


Raimundo Barbosa de Carvalho Baptista

Raimundo Barbosa de Carvalho Baptista Foto: Divulgação

Em meio a uma era de incertezas, perdeu-se na semana passada o desembargador Raimundo Baptista, com quase um século de vida. Faria 98 anos em 30 abril. Sua longa vida foi uma travessia por boa parte da nossa história, mas me cabe lembrar algo mais próximo, como sua amizade com meu avô, João Osório Porfírio da Mota, e de meu pai, Berilo Mota.
É evidente que ele foi homem nascido no entreguerras, que jovem pôde acompanhar os horrores da II Guerra e testemunhar marchas e contramarchas da humanidade no que se chamou de pós-gerra. Isso certamente impôs-se em sua formação, fazendo dele uma pessoa exemplar, o que fez dele um grande mestre como professor de Direito Civil da Faculdade de Direito do Piauí e também como magistrado.
Pessoalmente, devo a ele o amor que desenvolvi pela filatelia e também por estar atento àqueles que narravam bem um acontecimento. Era assim com o desembargador Raimundo Baptista: um homem capaz de narrar um fato não somente de modo verossímil, mas também com rigor àquilo que de verdade se punha.
Em minhas mais longínquas memórias, lembro das conversas que meu pai tinha com o desembargador Raimundo Baptista, na praça Rio Branco, e de tê-lo visto ainda trabalhando na antiga sede Tribunal de Justiça na Praça Deodoro, onde hoje funciona o Museu do Piauí. Eu realmente era muito pequeno, mas é algo que a memória traz a mim agora que o velho magistrado não mais se encontra fisicamente entre nós.
Memória de uma cidade de Teresina em que havia rodas de conversas afamadas como a “Rádio Calçada”, o famoso ponto de encontro na praça Pedro II, próxima ao Theatro 4 de Setembro, onde notáveis senhores se reuniam muito mais para trocar experiências e impressões que para temas desimportantes. Tudo numa cordialidade que se esvai no tempo.
Lembro-me de sua presença constante no Tribuna de Justiça, o qual ele presidiu e do qual se afastou e 1992 pela compulsoriedade da aposentadoria aos 70 anos de idade. Sempre que o encontrava no TJ, frequentemente às quartas-feiras, podia sorver de Raimundo Baptista a sabedoria que somente aos mais vividos e atentos à vida e seus caminhos é dado ter. Ele fazia parte dessa plêiade de homens cujo passar dos anos aperfeiçoa.
No caso de Raimundo Baptista, a inteligência e a perspicácia lhes eram algo rotineiro, a ponto de ele exprimir a forma mais suprema de mostrar-se um homem inteligente: agir sempre com humildade e simplicidade, último grau da sofisticação, no dizer de Da Vinci.
Daí porque, Raimundo Baptista poderá e deverá ser lembrado pela sua obra como magistrado, como um homem público que deu dignidade aos cargos que exerceu. No meu caso, sempre poderei lembrar como alguém que forjou em mim o amor pelo que é certo e justo. Penso que muitos que tiveram a sorte de conhecê-lo também haverão de ter podido aprender sobre o que é certo se fazer sempre.

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