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A vida prossegue

Não há uma só pessoa entre os 212 milhões de brasileiros que não tenha sido atingido pelas perdas causadas por uma doença emergente


Coronavirus

Coronavirus Foto: @Reuters

Na próxima semana teremos o segundo Dia de Finados da pandemia de covid-19, com mais de 610 mil mortos pela doença no Brasil. Isso nos leva a uma triste percepção: todos nós acrescentamos ao menos uma saudade às saudades que cultivamos no dia 2 de novembro. Todos nós ficamos mais pobres pela perda de pais, irmãos, primos, tios, avós, amigos. A covid nos deu mais mortos para cultuar a saudade de perdas que não se reparam.

Não há uma só pessoa entre os 212 milhões de brasileiros que não tenha sido atingido pelas perdas causadas por uma doença emergente. Há lamentos, choro, luto, vazio e dor em algum grau no coração de todos, porque a tragédia foi ampla, geral e irrestrita, embora o correr dos meses e os estudos posteriores possam demonstrar que determinados estratos sociais, econômicos, étnicos e etários possam ter sido mais ou menos atingidos.

Importa pouco, no entanto, a estratificação dos que morreram. Se a gente observar pelo horizonte nos números absolutos, haverá um sofrimento linear que atinge a maioria de nós – seja pelo luto nosso direto, seja pelas perdas que indiretamente nos fazem sentir. 

Quantos sorrisos e histórias se apagaram pela devastadora ação da doença? Numa comparação com o ditado africano sobre a morte de uma pessoa ser uma biblioteca incendiada, temos centenas de milhares de bibliotecas queimadas e de modo tão rápido que sequer se pôde replicar os livros nelas contidas. Imaginem-se os prejuízos socioafetivos causados? Imaginem-se as perdas de histórias de vida que não poderão ser repassadas às novas gerações?

Contudo, a vida prossegue e uma vez que estamos atingidos pelo vazio das bibliotecas queimadas, nossa obrigação é o de seguir o caminho, recompondo os livros, refazendo laços de afetividade, mantendo vivas em nós as muitas pessoas que se foram em tão curto espaço de tempo.

O que melhor podemos fazer na celebração de 2 de novembro é lembrar da vida dos que se foram. É a vida deles, com sua riqueza, que importa celebrar, lembrar e louvar.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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