"Não tive mais doenças", saneamento leva saúde e dignidade a moradores de Teresina

Relato de dona de casa evidencia impacto do saneamento básico na saúde; especialistas alertam para riscos e importância do esgotamento sanitário

Depois que chegou a água tratada, eu não tive mais doenças. Não tenho do que me queixar. A qualidade da água melhorou muito. E eu senti muita diferença. O tratamento do esgoto é essencial pra saúde, pra vida, a água é tudo, é vida. 

O depoimento da dona de casa, Libiny de Paula Fonseca que antes da chegada da Águas de Teresina, sofria constantemente com diarreia, náuseas, enjoos e dores estomacais causados pelo consumo de água não tratada é o retrato fiel de como o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário redefine a dignidade humana. “Eu não gostava da qualidade da água. Ela era esbranquiçada, com gosto salgado. Sempre que eu tomava, meia hora depois, eu já sentia o incômodo”, conta.

A dona de casa relata que realizou exames e não foi diagnosticado nada grave, apenas infecções. Ela tomava a medicação prescrita pelo médico, melhorava, mas os sintomas sempre voltavam. A solução encontrada foi comprar água mineral, o que pesou no orçamento da família. 

O caso da Libiny de Paula não é isolado, se repete em muitos lares nordestinos, e dados do Instituto Trata Brasil confirmam essa realidade. Em 2024, a região Nordeste registrou mais de 93 mil pessoas doentes por saneamento básico inadequado, como consumo de água não tratada ou esgoto contaminado.

Esse problema tem solução: investimento em saneamento. Desde 2017, a Águas de Teresina já investiu R$ 1,3 bilhão no setor na capital. Os aportes colocaram Teresina como a capital do Nordeste que mais investe na área, segundo o Ranking do Saneamento 2025, divulgado pelo Instituto Trata Brasil.

A capital piauiense já possui abastecimento de água potável em toda a zona urbana e 59% de cobertura na coleta e tratamento do esgoto. Os investimentos chegaram rápido na casa da dona Libiny de Paula e mostram que o saneamento salva.

“A qualidade da água melhorou muito ao longo dos anos, graças a Deus, têm melhorado. Se continuasse como estava, o ser humano não sobrevive. É só doença. Quem acha que saneamento não é importante é desinformado. Precisa se conscientizar”, afirma.

Dona de casa Libiny de Paula | Foto: Arquivo pessoal

Doenças causadas pela falta de saneamento podem levar à morte

As doenças de veiculação hídrica, causadas pelo consumo de água não tratada ou pelo contato com esgoto contaminado, tendem a aumentar durante o período chuvoso, especialmente em áreas com saneamento básico precário. 

A médica Ana Vitória Monte afirma que as doenças mais comuns associadas à água contaminada incluem a amebíase, esquistossomose, leptospirose e hepatite A. Todas estão relacionadas ao chamado ciclo fecal-oral, que ocorre por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados.

Médica Ana Vitória Monte | Foto: Piauí Hoje

“São doenças que ao início são doenças um pouco mais leves, mas que podem levar a graves acometimentos. No caso da hepatite A, por exemplo, a doença pode evoluir para complicações no fígado, gerando insuficiência se não tratada e levando à morte. A leptospirose pode começar com dores musculares intensas e evoluir para falência de órgãos”, afirma a médica.

Crianças, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido estão entre os grupos mais vulneráveis. Pacientes com doenças como câncer e HIV também exigem atenção redobrada. Outro fator de risco é o local de moradia. Pessoas que vivem em regiões sem saneamento básico ou expostas a enchentes têm maior probabilidade de contrair essas doenças.

O tratamento inclui hidratação, repouso e controle dos sintomas, como febre e diarreia. Em casos mais graves, é fundamental procurar atendimento médico.

“E aquele acompanhamento em casos de uma hipotensão ou no caso de uma diarreia mais grave que não acaba, vômitos, mal-estar muito intenso, uma febre também que não passa, é importante ter esse tipo de acompanhamento médico”, explica a médica.

Saneamento previne doenças, reduz internações e economiza recursos públicos

O saneamento básico depende de quatro elementos: oferta de água potável, drenagem de águas pluviais, esgotamento sanitário e coleta de resíduo sólido, segundo o professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), especialista em saúde pública, Osmar Cardoso.

A oferta de água potável, por exemplo, precisa ser livre de contaminantes biológicos, como bactérias e parasitas e de substâncias químicas nocivas, como metais pesados, que podem causar câncer.

“Além das doenças causadas pela falta de saneamento básico, há também riscos de adoecimentos crônicos, como contaminação por metais e exposição a moléculas químicas que podem provocar câncer e problemas respiratórios”, alerta o pesquisador. 

Professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Osmar Cardoso | Foto: Piauí Hoje

Os impactos positivos do saneamento vão além da prevenção de doenças, também está relacionado com a economia de gastos públicos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, para cada R$ 1 investido em saneamento, há uma economia de R$ 4 em gastos com saúde pública. A pesquisa “O líquido da vida: estimando os impactos dos serviços de água e saneamento na saúde no Brasil” mostra que o aumento de 10% na cobertura de água potável e esgoto pode reduzir em mais de 50% as internações por dengue, doença comum no Piauí.

“Se a população começa a utilizar mais os hospitais e passa a frequentar ambientes como hospitais e clínicas, isso pode impactar negativamente a qualidade de vida. Por isso, é essencial ter acesso ao saneamento básico para garantir melhores condições de vida. Com esse acesso, evita-se a sobrecarga do sistema de saúde”, explica o pesquisador.

De acordo com o professor de saúde pública, Osmar Cardoso, o tratamento eficiente da água traz impactos diretos para a saúde pública, com a redução de internações hospitalares e da mortalidade infantil. A melhoria também se reflete no funcionamento do sistema de saúde, ao diminuir a ocupação de leitos e os custos com atendimentos.

Imóvel sem ligação com rede de esgoto contamina toda a rua 

Além dos investimentos da empresa Águas de Teresina, os moradores também devem investir na conexão entre a residência e a rede de esgoto do bairro. Um só imóvel desconectado pode poluir toda a região e doenças, como as que afetaram a dona de casa Libiny de Paula podem afetar os moradores.

“De uma rua que tenha 10, 15, 20 casas, se tiver uma pessoa que não se conecta na rede esgoto, ela vai impactar toda a sua rua, todo o seu bairro, toda a cidade. Então vai acabar lançando o seu esgoto bruto na sarjeta, que depois vai afetar todas as casas, todo o bairro de Teresina, e depois vai para os rios Poty e Parnaíba, poluindo esses pontos. Então essa conexão da residência à rede de esgoto é muito importante”, afirma Mauro Nascimento, gerente de serviços da Águas de Teresina.

Mauro Nascimento, gerente de serviços da Águas de Teresina | Foto: Piauí Hoje

O processo é simples: depois que a rede de esgoto é instalada na rua, a concessionária coloca, na frente de cada casa, um ponto de acesso chamado Terminal de Inspeção e Limpeza (TIL). O morador precisa ligar o encanamento da própria casa a esse ponto. Essa ligação leva o esgoto da residência para a rede pública.

“Se não tiver conexão feita, não há saneamento,o seu benefício não ocorre e acaba que há o lançamento do esgoto na sarjeta e depois vai para os rios, poluindo e causando doenças”, explica o gerente Mauro Nascimento.

A empresa também realiza campanhas para facilitar a conexão dos moradores à rede de esgoto, para reduzir custos e estimular a adesão ao serviço.

Para famílias de baixa renda é ofertada a ligação de forma gratuita e desde março de 2025, passou a valer um acordo que isenta o cliente da cobrança pela ligação entre o imóvel e a rede pública, se a ligação ocorrer em até seis meses, não paga nada por esse serviço. Caso faça entre seis meses e um ano, paga apenas metade do valor.