O Piauí registrou 648 notificações de intoxicação por produtos cáusticos em crianças de zero a 11 anos entre 2007 e 2026. Os dados são do Ministério da Saúde, atualizados até junho deste ano, e foram apresentados durante audiência pública realizada nesta segunda-feira (14), na Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi).
A audiência foi proposta pelo deputado estadual Francisco Limma e discutiu medidas de prevenção e o fortalecimento da campanha Fora Cáusticos no Piauí. A iniciativa busca ampliar a conscientização sobre os riscos de substâncias corrosivas presentes em produtos utilizados no dia a dia.
Entre os produtos que podem provocar intoxicações estão soda cáustica, água sanitária e amoníaco. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, cerca de 37 crianças sofrem diariamente no país acidentes envolvendo produtos cáusticos ou pilhas e baterias.
Deputado propõe campanha de conscientização
Após a apresentação dos dados, Francisco Limma afirmou que vai avaliar medidas para reduzir os acidentes e ampliar a proteção das crianças. Entre as primeiras propostas está a realização de uma campanha educativa pela TV Assembleia e pela Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi).
Também será analisada a possibilidade de promover um Dia D de conscientização, com o objetivo de levar informações às famílias sobre os riscos dos produtos e as formas de prevenção.
“São acidentes que podem causar a morte ou deixar consequências para a vida inteira. Em muitos casos, podem ser evitados com informação e medidas de proteção. A audiência reuniu diferentes instituições justamente para construirmos respostas conjuntas. O mais importante é que essa causa não fique restrita a uma audiência. Precisamos transformar o debate em ações concretas de prevenção e proteção às nossas crianças”, afirmou Limma.
Acidentes acontecem principalmente dentro de casa
A médica Joceli Oliveira dos Santos, presidente da Sociedade de Gastroenterologia do Piauí, destacou que os produtos corrosivos estão presentes na rotina das famílias e representam um risco principalmente para crianças pequenas.
“Quem não tem em casa uma soda cáustica, uma água sanitária ou um amoníaco? O grande problema é que os acidentes por ingestão desses produtos ocorrem sobretudo com crianças de zero a cinco anos. E 88% desses acidentes acontecem dentro do próprio domicílio da criança”, alertou.
De acordo com a médica, a ingestão de substâncias corrosivas pode provocar consequências graves e de longa duração. O esôfago está entre os órgãos mais afetados nesses casos.
“Muitas vezes, a criança vai precisar de dilatações por muito tempo e, nos casos mais graves, pode precisar de uma grande cirurgia”, explicou.
Joceli defendeu que os produtos sejam mantidos fora do alcance das crianças, preferencialmente em locais fechados. Para ela, porém, a prevenção também depende de medidas que envolvam o poder público e os fabricantes.
“Não é só a família que precisa ser responsabilizada. Precisamos discutir também a atuação do Estado. É necessário avançar na prevenção, nas embalagens, nos lacres, na comercialização e também criar um protocolo e um fluxo de atendimento para essas crianças”, defendeu.
Venda fracionada aumenta preocupação
A coordenadora do Centro de Apoio e Defesa da Saúde do Ministério Público, Carla Daniela, apontou a orientação das famílias e a fiscalização da comercialização como medidas importantes para reduzir os acidentes.
Segundo ela, profissionais que atuam diretamente nas comunidades podem contribuir para manter o alerta sobre os riscos.
“É extremamente importante sensibilizar os profissionais da atenção primária, porque eles estão próximos das famílias. Os agentes comunitários de saúde, a Estratégia Saúde da Família e o Programa Saúde na Escola podem fazer esse trabalho educativo e manter esse alerta de forma permanente”, afirmou.
Carla Daniela também chamou atenção para a venda fracionada de produtos corrosivos, especialmente quando as substâncias são retiradas das embalagens originais e colocadas em outros recipientes.
“Muitas vezes, o produto é vendido de forma fracionada e vai sem o modo de usar e sem a identificação do que existe dentro daquela embalagem. Quando está na embalagem original, existem os alertas e os símbolos de segurança. Com o fracionamento e a colocação em outro vasilhame, esses alertas se perdem”, explicou.