A três dias das Eleições 2026, as pesquisadoras Milena Albuquerque e Ozeli Santos, doutorandas na Universidade Federal do Piauí, defendem que o eleitor deve analisar o voto para além da identificação pessoal com candidatos e considerar qual projeto político, na avaliação delas, oferece maior garantia de continuidade das políticas sociais, dos direitos e da democracia. Para as duas, diante da atual polarização, não há espaço político concreto para uma terceira via.
O posicionamento foi apresentado durante um bate-papo sobre "voto, vida e democracia" gravado em vídeo. Milena Albuquerque é psicóloga, psicanalista e doutoranda, com atuação acadêmica voltada às políticas públicas de saúde mental. Ozeli Santos é cientista política, mestre em Filosofia e também doutoranda.
A discussão ocorre às vésperas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Segundo o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os brasileiros escolherão presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais.
Voto deve decisão pensado no coletivo
Um dos principais argumentos apresentados pelas pesquisadoras é que o voto, embora exercido individualmente, produz consequências coletivas. Por isso, sustentam que a decisão eleitoral não deveria ser tratada como uma escolha baseada apenas em simpatia ou antipatia por determinado candidato.
Ozeli afirma que a análise deve considerar os efeitos das decisões políticas sobre trabalhadores, mulheres, famílias pobres e futuras gerações. Para ela, democracia significa, entre outras coisas, liberdade, participação política, acesso à educação e possibilidade de escolher os representantes pelo voto.
Milena segue a mesma linha e argumenta que escolhas políticas não podem ser comparadas às preferências individuais de consumo. Segundo ela, o eleitor precisa observar o contexto histórico, social e econômico no qual a eleição acontece.
As duas dedicam parte significativa da conversa às mulheres. Ozeli, que se apresenta como mulher preta e mãe, relaciona sua trajetória acadêmica às oportunidades conquistadas nas últimas décadas. Milena, também mãe, destaca a ampliação do acesso à universidade e às políticas públicas como elementos que precisam entrar na avaliação eleitoral.
Ao analisar a disputa presidencial, Milena Albuquerque (foto acima) e Ozeli Santos afirmam que, embora uma terceira via possa existir como possibilidade política em outros contextos, elas não identificam espaço para essa alternativa nas circunstâncias atuais.
Na avaliação apresentada durante a conversa, o eleitor que deseja preservar políticas sociais e ampliar direitos precisa observar concretamente quais forças políticas possuem histórico de implantação e manutenção dessas políticas.
É nesse ponto que as pesquisadoras situam o campo político representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Elas reconhecem que existem críticas a serem feitas ao governo e ao próprio presidente, mas argumentam que a análise eleitoral deve considerar realizações concretas e não apenas afinidades pessoais.
Para Milena, inclusive eleitores que possuem divergências com Lula deveriam considerar o que chama de "voto estratégico", observando quais políticas e direitos poderão avançar ou retroceder conforme o resultado das urnas.
Políticas sociais entram no centro do debate
A defesa feita pelas pesquisadoras encontra respaldo factual na existência de políticas federais atualmente voltadas à proteção social, embora a avaliação sobre qual projeto político é mais adequado para mantê-las pertença às entrevistadas.
Entre essas políticas está o Bolsa Família, programa federal de transferência de renda articulado com as áreas de assistência social, saúde e educação. O atual governo também mantém o Minha Casa, Minha Vida, que possui linhas subsidiadas para famílias de menor renda e financiamento habitacional para outras faixas.
Na conversa, Milena cita ainda o acesso ao ensino superior, o Enem, o SUS e as políticas de inclusão como exemplos de conquistas que, na visão dela, precisam ser consideradas pelo eleitor. A pesquisadora relata sua própria experiência na universidade e destaca mudanças na presença de estudantes oriundos da escola pública, além dos avanços na inclusão de pessoas com deficiência no ambiente acadêmico.
O debate também recupera a trajetória histórica das mulheres brasileiras e da população negra. Ozeli Santos (foto acima) relaciona as desigualdades atuais ao processo de escravização e às dificuldades enfrentadas pela população negra mesmo depois da abolição. Para ela, sua condição atual de mulher preta cursando doutorado precisa ser compreendida dentro de um processo histórico de ampliação de direitos.
Milena acrescenta que ser mulher continua produzindo desafios específicos na universidade, no trabalho, na maternidade e na participação política. As duas defendem maior presença feminina nos espaços de decisão e argumentam que direitos conquistados não devem ser considerados permanentes sem participação social.
Lula aparece como representante do campo defendido pelas pesquisadoras
Ao final da conversa, Milena e Ozeli deixam claro que, na avaliação política delas, o campo representado pelo presidente Lula é o que oferece maior correspondência com a defesa das políticas sociais, da inclusão e da proteção aos grupos de menor renda.
Milena afirma que sua posição não significa ausência de críticas ao presidente. Segundo ela, Lula "não acertou em tudo", mas seu governo deve ser analisado pelas políticas implementadas e pelos resultados produzidos ao longo de sua trajetória política.
Ozeli sustenta que a eleição precisa ser observada principalmente pelo que poderá acontecer com as conquistas sociais já existentes. Para ela, preservar direitos é condição necessária para posteriormente ampliá-los.
As duas também criticam a ideia de que discutir política necessariamente provoca conflitos. Pelo contrário, defendem que falar sobre política é fundamental porque decisões tomadas nas urnas interferem diretamente na educação, saúde, renda, trabalho, moradia e demais dimensões da vida cotidiana.
No entendimento apresentado pelas pesquisadoras, portanto, a disputa de 2026 ultrapassa a preferência individual por candidatos. Trata-se de uma escolha entre projetos políticos distintos e seus possíveis efeitos sobre democracia, liberdade, políticas sociais e bem-estar coletivo.
Para Milena e Ozeli, é justamente por essa perspectiva que a possibilidade de terceira via perde espaço no atual cenário: elas defendem que o eleitor examine qual campo político demonstra, na prática e por sua trajetória, compromisso com essas políticas. Na avaliação das duas, esse campo é hoje representado pelo presidente Lula.