A prorrogação do horário de votação no segundo turno das eleições de 2026 foi marcada por pedidos apresentados pelas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), demora na definição pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que provocou confusão em seções eleitorais. A medida foi anunciada quando o horário regular de votação, encerrado às 17h, já estava terminando e acabou aplicada somente nos locais em que as urnas ainda não haviam sido fechadas.
O caso começou com denúncias de dificuldades de deslocamento dos eleitores. A campanha de Lula alegou problemas na circulação do transporte público em diferentes estados e solicitou a ampliação do horário de votação até as 19h. Mais tarde, a campanha de Flávio Bolsonaro também pediu a extensão, mas apresentou como justificativa os efeitos das chuvas sobre o deslocamento da população em municípios de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Pedido de Lula apontou falta de transporte público
A coligação Brasil Pronto Pra Mais, que representa Lula, acionou a Justiça Eleitoral após relatos de redução da frota de ônibus, longas esperas e dificuldades para chegar às seções eleitorais. Inicialmente, a campanha apresentou pedidos relacionados a municípios da Bahia, incluindo Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. Ao longo do dia, ampliou a solicitação para localidades de outros estados, entre eles Piauí, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Paraíba, Pará e Rio de Janeiro.
A argumentação da campanha foi a de que a falta de transporte poderia impedir eleitores de exercer o direito ao voto dentro do horário previsto. Por isso, pediu que a votação fosse estendida até as 19h. A coligação também defendeu a manutenção do transporte público gratuito e da frota equivalente à dos dias úteis para facilitar o deslocamento dos eleitores.
Campanha de Flávio Bolsonaro também pediu prorrogação
A campanha de Flávio Bolsonaro apresentou uma solicitação própria ao TSE para ampliar o horário da votação até as 19h em municípios de cinco estados. O partido argumentou que fortes chuvas, alagamentos e falta de energia haviam dificultado o deslocamento de eleitores em determinadas regiões.
Apesar das diferenças entre as justificativas, as duas campanhas defenderam a ampliação do prazo para votar. Enquanto a candidatura de Lula apontou principalmente falhas na oferta de transporte público, a de Flávio enfatizou as dificuldades provocadas pelas condições climáticas.
Kassio Nunes Marques recebeu os pedidos, mas não decidiu a tempo
Os requerimentos chegaram ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques. Diante das informações sobre a redução da frota de ônibus, o ministro pediu esclarecimentos ao Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) e à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) para avaliar a dimensão dos problemas e a viabilidade operacional de uma eventual mudança no horário de votação.
Nunes Marques estabeleceu prazo para que os órgãos prestassem informações. O ministro considerou necessário verificar a extensão concreta das dificuldades de transporte antes de decidir sobre uma medida que poderia alterar o encerramento das urnas, a totalização dos votos e a divulgação dos resultados.
Entretanto, o presidente do TSE não chegou a conceder nem a negar a prorrogação antes do encerramento regular da votação. Enquanto a questão permanecia sem uma definição sobre o mérito no tribunal eleitoral, a campanha de Lula levou o pedido ao Supremo Tribunal Federal.
A sequência dos acontecimentos colocou a decisão sobre a ampliação do horário nas mãos do STF quando o prazo normal de votação já estava chegando ao fim.
Cristiano Zanin determina votação até as 19h
No fim da tarde, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, analisou a reclamação apresentada pela coligação de Lula e determinou a prorrogação do recebimento dos votos por duas horas, até as 19h, em todo o Brasil. Na decisão inicial, Zanin considerou a gravidade dos fatos relatados e atribuiu ao TSE a responsabilidade de cumprir a determinação.
O problema foi o momento em que a ordem foi divulgada. Segundo relatos publicados pela imprensa, a decisão entrou no sistema pouco antes das 17h e se tornou pública por volta das 17h02, quando o horário oficial de encerramento já havia chegado.
Nesse intervalo, parte das seções eleitorais já tinha encerrado a votação. Em algumas delas, os procedimentos de fechamento haviam sido concluídos, os boletins de urna impressos e os resultados encaminhados para as etapas seguintes da apuração.
Zanin esclarece que urnas fechadas não seriam reabertas
Após a divulgação da decisão inicial, surgiram dúvidas sobre como a determinação deveria ser aplicada. A redação inicial previa a extensão do horário em todas as seções do país, mas o fechamento de urnas às 17h tornou necessária uma orientação complementar.
Zanin esclareceu, então, que a prorrogação deveria ser cumprida apenas nos locais em que as urnas ainda não haviam sido fechadas. Nas seções em que a votação já tinha sido encerrada, os votos registrados seriam mantidos e totalizados normalmente, sem reabertura das urnas para receber novos votos.
O esclarecimento restringiu, na prática, o alcance da medida para os eleitores que ainda não haviam conseguido votar. Quem chegou a uma seção depois das 17h, mas encontrou a urna já fechada, não pôde votar naquele local, mesmo com a decisão de extensão do horário até as 19h.
O próprio TSE confirmou, em comunicado divulgado neste domingo (25), que a votação continuaria apenas nos locais em que o procedimento ainda não havia sido encerrado às 17h. O tribunal também informou que o recebimento dos boletins de urna, a totalização e a divulgação dos resultados seriam retomados depois das 19h.
Decisão provocou confusão em locais de votação
A diferença entre o horário da decisão e o fechamento regular das urnas gerou confusão em algumas cidades. Reportagens registraram relatos de eleitores que chegaram a locais de votação depois das 17h e não conseguiram votar porque as seções já estavam fechadas. Também houve relatos de orientações contraditórias nos primeiros momentos após a divulgação da ordem judicial.
O episódio expôs a dificuldade de executar uma decisão nacional quando parte das seções já havia concluído os procedimentos previstos para o encerramento da votação. A determinação de estender o horário não significou a reabertura automática de todas as urnas do país, e o esclarecimento posterior confirmou que os locais já encerrados permaneceriam fechados.
A cronologia é central para entender o caso: primeiro, as campanhas apontaram obstáculos ao deslocamento dos eleitores; em seguida, os pedidos chegaram à Justiça Eleitoral, mas o TSE não decidiu sobre a prorrogação antes das 17h; depois, o ministro Cristiano Zanin determinou a extensão do horário, quando a votação regular já estava terminando; por fim, a decisão foi delimitada às seções que ainda estavam abertas.
O resultado foi uma situação em que a ampliação do prazo foi determinada judicialmente, mas não alcançou eleitores que chegaram a locais onde o encerramento já havia sido concluído. O episódio levantou questionamentos sobre o tempo de resposta das instituições eleitorais e sobre a capacidade de garantir condições iguais de acesso ao voto diante de problemas de transporte e de decisões tomadas no limite do horário previsto.