Uma coluna publicada pelo jornal O Globo no domingo (18) resgatou declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, em defesa da ditadura militar. No artigo, o jornalista Bernardo Mello Franco relaciona as posições políticas do parlamentar ao atentado do Riocentro, episódio ocorrido em 30 de abril de 1981, mesma data de nascimento do senador.
Com o título “Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro”, o colunista argumenta que o nascimento de Flávio na data do atentado é uma coincidência, mas que suas manifestações públicas ao longo da vida política são escolhas pelas quais ele deve responder.
O texto recupera declarações feitas pelo senador quando era deputado estadual no Rio de Janeiro e passagens do livro Mito ou verdade, publicado em 2017, nas quais ele defendeu o regime militar e criticou a Comissão Nacional da Verdade.
O que foi o atentado do Riocentro
O atentado ocorreu em 30 de abril de 1981, durante um show em comemoração ao Dia do Trabalhador, realizado no Riocentro, no Rio de Janeiro. A ação envolveu militares que transportavam explosivos e, segundo as investigações históricas, fazia parte de uma tentativa de provocar pânico e atribuir a responsabilidade à esquerda, em um contexto de resistência de setores militares ao processo de redemocratização.
Uma das bombas explodiu no interior de um carro ocupado por militares. O episódio se tornou um dos símbolos da tentativa de setores da ditadura de impedir o avanço da abertura política no país.
Na coluna, Bernardo Mello Franco destaca que Jair Bolsonaro, pai do senador, também defendia o regime militar e acompanhou, em 2014, o depoimento de um militar investigado no caso Riocentro. Na ocasião, segundo o artigo, Jair atacou a Comissão da Verdade e manifestou apoio à retomada da Operação Condor, aliança de repressão entre ditaduras sul-americanas.
Livro e discursos de Flávio Bolsonaro
O colunista cita o livro Mito ou verdade, lançado em 2017, no qual Flávio Bolsonaro expressou posições favoráveis ao regime militar e elogiou agentes da repressão política.
Entre os exemplos mencionados está a defesa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador durante a ditadura. O artigo também recupera críticas feitas pelo senador à Comissão Nacional da Verdade, criada para investigar violações de direitos humanos cometidas durante o regime militar.
A coluna relembra ainda discursos de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, entre 2004 e 2011, nos quais ele comemorou o aniversário do golpe de 1964 e contestou a caracterização do episódio como golpe militar.
Para Bernardo Mello Franco, essas manifestações fazem parte do histórico político do candidato e devem ser consideradas no debate eleitoral, especialmente em uma eleição posterior aos ataques de 8 de janeiro de 2023 e à condenação de militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
O jornalista também observa que a campanha de Flávio tem evitado referências à ditadura, mas avalia que declarações anteriores do senador permanecem relevantes para a análise de suas posições políticas.
A coluna foi publicada em meio à disputa presidencial de 2026 e coloca a defesa da democracia e a memória da ditadura militar no centro do debate sobre a trajetória política do candidato do PL.
No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.