Destino do Brasil estará em jogo na eleição de domingo; projetos antagônicos na disputa

No podcast "Bate-Papo com Notícias", a advogada Lidiane César, o músico Chagas Vale e o cientista político Germano Gomes discutem os rumos da democracia, o legado dos governos progressistas e os escândalos que cercam a extrema direita

A poucos dias do pleito de 4 de outubro, o portal Piauí Hoje promoveu, na terça-feira (29), mais uma edição ao vivo do podcast "Bate-Papo com Notícias", comandado pelo jornalista Luiz Brandão. O programa, transmitido diariamente das 15h às 16h no YouTube, Instagram e TikTok, recebeu a advogada Lidiane César, o músico e militante cultural Chagas Vale e o professor e cientista político Germano Moura para debater o que está em jogo na eleição presidencial.

Logo na abertura, Brandão destacou o compromisso do veículo com a informação de qualidade. "Nós aqui vamos continuar tentando fazer uma comunicação de qualidade, respeitando nossos internautas e nossos convidados. Vamos trabalhar com a verdade e não vamos atacar a honra de quem quer que seja", afirmou.

Dois projetos de sociedade em disputa

O professor Germano Moura abriu o debate apontando que a eleição não se resume a candidatos, mas a projetos distintos de nação. "Existem dois projetos de país e de sociedade em curso. As pessoas precisam entender que, quando a gente vai definir o nosso voto, a gente tem que entender o que está em jogo", alertou.

Gomes criticou o modelo de Estado mínimo defendido pela extrema direita, citando como exemplo o desinvestimento em saúde durante a pandemia de Covid-19. "Nós tivemos 700 mil mortos nesse país. O Brasil foi um dos países mais devastados pela Covid-19, coincidentemente ao lado dos Estados Unidos, onde o governante também era negacionista. Quando o Estado é mínimo, todo mundo perde", afirmou.

O cientista político também destacou que o Estado mínimo defendido por setores conservadores é, na prática, "mínimo para os outros e máximo para alguns". "O agronegócio odeia que seja tirado subsídio dos seus investimentos para que seja colocado em políticas sociais. É um projeto de sociedade excludente, de ataque às minorias, às universidades, à ciência", completou.

A memória de um Brasil que não existe mais

O músico Chagas Vale trouxe para o debate um olhar cultural e histórico. Ele citou versos do cordel "Aboio", do poeta Salgado Maranhão, para ilustrar a transformação social do país. "Esse cordel é de 1980 e continua atual na discussão política, mas a gente pode ver dois retratos: o de 1995 para trás e o que é hoje", disse.

Vale lembrou cenas de miséria que marcaram o passado do Nordeste, como as frentes de serviço e as barragens, e alertou para o risco de retrocesso. "É um Brasil que não existe mais, embora ainda tenhamos gente com fome. Essa juventude que apoia o Flávio Bolsonaro não lembra disso, não conhece essa história", lamentou.

Para o músico, a eleição de domingo é a mais importante desde a redemocratização. "Se a esquerda perder essa eleição, nós perdemos o nosso país. Imagina mais quatro anos de um Bolsonaro com um Supremo Tribunal do lado dele, que é o que o Flávio quer", alertou.

Lidiane César e Germano Moura: Brasil merece manter crescimento A falsa simetria entre os candidatos

O professor Germano Moura foi enfático ao criticar a tentativa de equiparar Lula e Flávio Bolsonaro. "É uma falsa simetria, um falso duplo padrão. Lula é histórico, é o maior líder da América Latina, o maior estadista da nossa história. Isso incomoda muita gente", afirmou.

Gomes analisou o preconceito estrutural que, segundo ele, alimenta a rejeição a Lula. "Lula sofre o preconceito mais arraigado da sociedade brasileira. Ele vem da pobreza, é retirante nordestino, ex-operário metalúrgico. O lugar que ele está não é para ele, dizem. Mas deveria ser o contrário: Lula é o exemplo de que a nossa democracia funciona, é o arquétipo da meritocracia que deu certo", defendeu.

O cientista político também criticou o rebaixamento do debate político promovido pela extrema direita. "A direita brasileira do passado era letrada, culta. Agora escolheram os caras que não sabem juntar duas frases e que tinham orgulho disso", ironizou.

A advogada e a defesa da democracia

A advogada Lidiane César reforçou que a eleição não define apenas um governo, mas o próprio regime democrático. "A democracia está em jogo, a soberania está em jogo, a nossa liberdade está em jogo. Todo o processo de construção que nós fizemos enquanto progressistas, como a retirada do Brasil do mapa da fome, está em risco", afirmou.

Lidiane destacou a importância da mobilização popular e da participação nas ruas e nas redes. "Tenho caminhado com nossos candidatos e percebo uma mudança de pensamento nas últimas duas semanas. As pessoas estão dizendo que vão votar, que vão estar lá no dia da eleição", contou.

A advogada também lembrou a resistência do eleitorado nordestino, que, segundo ela, foi às urnas "a pé, de moto, de caminhão de boi" na última eleição, mesmo diante de obstáculos. "Nosso poder de mobilização é grande. O Nordeste mostrou isso", afirmou.

Desinformação e o papel das redes

O debate também abordou o impacto da desinformação no processo eleitoral. Germano citou o filósofo Umberto Eco para explicar o fenômeno. "Ele disse que a internet deu voz ao idiota da aldeia. O Bolsonaro passou a dizer abertamente toda aquela sorte de preconceito que as pessoas só falavam no privado", afirmou.

Chagas Vale complementou, lembrando que a tecnologia amplificou discursos de ódio que antes ficavam restritos a círculos pequenos. "Essa coisa do celular na mão, da live, deu voz e visibilidade a essa galera. Foi a tecnologia que enalteceu esse tipo de discurso", disse.

Lidiane César criticou a hipocrisia de setores que se apresentam como defensores da moral e dos bons costumes. "O Flávio Bolsonaro carrega uma congregação de igrejas, um discurso de moralidade, e acaba maculando todo um povo que vem com ele. Nossos companheiros evangélicos devem estar decepcionados", avaliou.

O legado dos governos progressistas

O professor Germano fez um balanço das conquistas dos governos de Lula e Dilma, especialmente na educação. "Hoje nós temos no Piauí 24 campi do Instituto Federal. Desses, 22 foram criados por Lula e Dilma. Isso não é benefício, é oportunizar", afirmou.

Ele lembrou que, em sua época de universidade, Teresina tinha apenas a Universidade Federal do Piauí e a Escola Técnica Federal. "Hoje temos várias universidades públicas, o FIES, o PROUNI, o sistema de cotas. Essa geração de 30 anos para baixo não viveu um país de miséria", disse.

Gomes também criticou a PEC do Teto dos Gastos, aprovada no governo Michel Temer, que congelou por 20 anos os investimentos em saúde e educação. "Quem recuperou a saúde e a educação do país foi Lula", afirmou.

As bets e a saúde pública

O debate abordou ainda a decisão do governo Lula de regulamentar e posteriormente proibir as bets. Germano Gomes elogiou a medida. "Foi uma cartada certeira. As mães estão agradecidas, as famílias estão agradecidas. O dinheiro que ia para as bets agora está indo para o comércio local", afirmou.

Lidiane César classificou a medida como "a maior ação de setembro amarelo da história do Brasil". "É uma questão de saúde pública, de saúde mental e financeira das famílias. O jogo é feito para a pessoa nunca ganhar", afirmou.

Chagas Vale lembrou que foi Michel Temer quem legalizou as bets e deixou a regulamentação para o governo seguinte. "Bolsonaro passou quatro anos sem regulamentar. Lula veio e regulamentou em 2024. Se não resolvesse, ele disse que travaria", completou.

Luiz Brandão e Chagas Vale no estúdio do portal Piauí Hoje Os escândalos da extrema direita

O programa também dedicou espaço aos escândalos que cercam o senador Flávio Bolsonaro, denunciado por seu ex-sócio, Alexandre Ferreira Dias Santini, dono da loja de chocolates "Bolsotini". As denúncias envolvem a chamada "rachadinha", festas em hotéis de luxo e supostas orgias com garotas de programa.

Brandão ironizou a situação. "Ele não é evangélico, não vai à igreja, faz orgias. E os evangélicos, o que dizem disso?", questionou.

Lidiane César respondeu citando a hipocrisia como marca da elite brasileira. "É o discurso vazio: faça o que eu digo, não faça o que eu faço. As pessoas acham que aquilo que elas fazem é o típico da elite brasileira, que vem desde a casa grande, quando estupravam as escravas e no domingo iam à missa rezar", afirmou.

Germano Moura completou. "O Flávio Bolsonaro é a caricatura daquele político que todo mundo diz odiar. É o cara da mamata, da rachadinha, envolvido em todo o processo da política ruim, que nunca produziu nada. E é esse cara que você quer botar na presidência?", questionou.

A fé na virada

Ao final do programa, os participantes demonstraram otimismo com uma possível vitória no primeiro turno. Germano Gomes explicou que o método "likely voter", usado por institutos de pesquisa, pode favorecer Lula se o eleitorado mais engajado — mulheres, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade — comparecer em massa às urnas.

Lidiane César revelou que tem percebido uma mudança de humor nas ruas e nas redes. "A grande mudança de pensamento das pessoas nas últimas duas semanas é visível. As pessoas estão dizendo que vão votar, que vão estar lá no dia da eleição", contou.

Chagas Vale arrancou risos ao comentar o movimento do voto útil entre setores da direita. "O Caiado está se posicionando como terceira via, não quer ser rotulado como bolsonarista. Esse é o acordão que eles estão querendo fazer", afirmou.

Brandão encerrou o programa com uma mensagem de esperança e defesa da democracia. "Nós não estamos fazendo campanha nem para o Lula, nem para o Bolsonaro. Estamos falando de informações verdadeiras, do que está nas redes sociais e na mente das pessoas. A gente quer um Brasil livre, soberano, solidário", concluiu.

Podcast 

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