Boicotes e ameaças a petistas se espalham pelo Brasil e lembram práticas nazistas

Casos de perseguição a trabalhadores, comerciantes e apoiadores de Lula foram registrados principalmente nos estados do Sul e Sudeste

A ameaça de uma advogada de dificultar a vida de funcionários petistas na Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Espírito Santo (OAB-ES) é mais um episódio de uma sequência de intimidações e manifestações de intolerância política registradas no Brasil após as eleições de 2026. Nos últimos dias, trabalhadores, comerciantes, profissionais liberais e apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a ser alvos de ameaças, listas de boicote, tentativas de constrangimento e agressões físicas.

A onda de perseguição tem registros principalmente nos estados do Sudeste e do Sul, embora também existam denúncias em outras regiões. As práticas incluem ameaças de demissão, divulgação de nomes de estabelecimentos considerados de esquerda e incentivo à exclusão econômica de pessoas por suas posições políticas.

No Espírito Santo, Julia Gobbo Amorim foi desligada da OAB-ES após divulgar um vídeo em que afirmava que iria “dificultar a vida” de funcionários petistas. A gravação foi feita nas dependências da instituição e repercutiu nas redes sociais.

 Julia Gobbo Amorim foi desligada da OAB-ES | Foto: reprodução

Listas de boicote e ameaças se espalham pelo país

No próprio Espírito Santo, uma reportagem do Século Diário identificou listas de boicote contra estabelecimentos e profissionais em pelo menos cinco cidades: Afonso Cláudio, Cachoeiro de Itapemirim, Guaçuí, Guarapari e Vitória. Entre os alvos estavam uma hamburgueria, uma marca de roupas, advogados e até instituições religiosas.

No Rio de Janeiro, episódios semelhantes foram registrados em Teresópolis, Nova Friburgo e Macaé. Em Teresópolis, o advogado Klaus Fins publicou um vídeo sugerindo a identificação de estabelecimentos ligados a petistas com uma estrela vermelha na entrada. Em Macaé, a procuradora municipal Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro afirmou que não faria políticas públicas para petistas e aconselhou empresários a não contratarem artistas, nordestinos, pobres e mineiros.

Advogado Klaus Fins | Foto: reprodução

Em Nova Friburgo, o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) denunciou que um policial militar estaria divulgando uma relação de estabelecimentos que apoiaram Lula. A corporação informou que abriu procedimento para apurar a conduta do agente.

Ainda no Rio de Janeiro, a deputada estadual Índia Armelau (PL) foi alvo de uma decisão da Justiça do Trabalho que determinou a retirada de publicações e proibiu a parlamentar de incentivar empregadores a perseguir ou demitir funcionários por suas convicções políticas.

 Deputada estadual Índia Armelau (PL) | Foto: Reprodução

No Paraná, empresários também passaram a divulgar listas de estabelecimentos associados ao PT. Em Londrina, um bar foi incluído em uma relação de possíveis alvos de boicote. A deputada estadual Jessicão (PP) também publicou mensagens incentivando empresários a demitir funcionários que votaram no PT, mas posteriormente negou que estivesse defendendo práticas discriminatórias.

Em São Paulo, duas mulheres registraram boletim de ocorrência contra policiais militares em Piracicaba. Segundo os relatos, os agentes teriam entrado em uma residência sem autorização, retirado camisetas do PT e obrigado três homens detidos a vesti-las. Uma das mulheres também afirmou ter sido agredida com um chute. A Polícia Militar abriu investigação preliminar.

Em Bauru, interior do estado de São Paulo, um trabalhador relatou que o chefe ameaçava demitir funcionários que declarassem ter votado em Lula. O empregado acabou desligado da empresa em 26 de outubro, embora o empregador tenha alegado mau comportamento como justificativa.

Agressões físicas também foram registradas

Além das ameaças e tentativas de perseguição profissional, episódios de violência física foram denunciados na reta final do segundo turno e após a divulgação do resultado eleitoral.

Em Montes Claros, Minas Gerais, a vereadora petista Iara Pimentel foi atingida no rosto durante um ataque a uma carreata de apoiadores de Lula. Uma criança também ficou ferida após homens arremessarem pedras, garrafas e outros objetos contra o veículo em que estavam os manifestantes. A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar o episódio.

Vereadora petista Iara Pimentel  | Foto: reprodução

Em Vargem Alegre, também em Minas Gerais, Elisabete Martins Chaves, de 54 anos, morreu após ser atropelada enquanto aguardava uma carreata em apoio à reeleição de Lula. Moradores apontaram possível motivação política, mas a intenção do motorista e a relação do atropelamento com a disputa eleitoral ainda dependiam de confirmação das autoridades.

Em Santos, no litoral paulista, o engenheiro ambiental Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, teve morte encefálica confirmada após ser espancado. Ele participava de uma apresentação musical vinculada a uma manifestação pró-Lula. Familiares levantaram suspeitas de motivação política e homofóbica, mas a autoria e as circunstâncias da agressão ainda não haviam sido esclarecidas.

Engenheiro ambiental Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos | Foto: reprodução

Em Rio Verde, Goiás, vídeos mostraram um homem sendo espancado por um grupo durante uma confusão após o resultado eleitoral. A motivação e a identidade dos responsáveis ainda dependiam de investigação. Em Florianópolis, Santa Catarina, testemunhas também denunciaram que policiais teriam atropelado um motociclista durante as comemorações pela vitória de Lula.

Estratégia remete ao boicote promovido pela Alemanha nazista

A identificação de estabelecimentos e profissionais por suas convicções políticas também trouxe à tona um episódio histórico da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, poucos meses depois da chegada de Adolf Hitler ao poder, o regime organizou um boicote nacional contra estabelecimentos comerciais e profissionais judeus.

Segundo a Enciclopédia do Holocausto, do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, os nazistas elaboraram listas de estabelecimentos judaicos, colocaram integrantes de suas tropas diante das lojas para intimidar clientes e espalharam cartazes com mensagens que incentivavam a população a não comprar de judeus. A Estrela de Davi e inscrições antissemitas também foram pintadas em vitrines e fachadas.

A campanha representou a primeira ação coordenada nacionalmente pelo regime nazista contra a população judaica alemã e marcou o início de uma política sistemática de exclusão econômica e social que posteriormente culminaria no Holocausto.

A semelhança apontada entre os episódios históricos está na estratégia de identificar pessoas e estabelecimentos, estimular boicotes e promover seu isolamento econômico e social por causa de uma identidade ou condição atribuída a elas. Isso não significa equiparar a dimensão dos episódios atuais à perseguição estatal e ao genocídio promovidos pelo nazismo.

Em Teresópolis, a presidente municipal do PT, Carol Quintana, classificou a proposta de marcar estabelecimentos de petistas como uma “prática nazifascista”, pela semelhança com os métodos utilizados contra comerciantes judeus na Alemanha.

Números mostram dimensão da violência política

A preocupação também aparece nos levantamentos oficiais. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), foram recebidas 941 denúncias de assédio eleitoral entre a noite de domingo (25) e o início da tarde de quarta-feira (28). O número representa 32,7% de todas as 2.878 denúncias registradas pelo órgão em 2026 até aquele momento.

Já o levantamento inicial apresentado pelo governo federal em 28 de outubro identificou 45 ocorrências de violência e atentados com motivação política após as eleições, com 47 vítimas e dez homicídios. Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina estavam entre os estados com maior número de registros.

Os dados reforçam a dimensão da violência política no país e a necessidade de investigação das denúncias. A liberdade de escolha eleitoral e a manifestação de opiniões políticas são direitos garantidos pela Constituição, e ameaças, agressões e tentativas de retaliação não podem ser tratadas como consequências naturais de uma disputa eleitoral.