A poucos dias do pleito de 4 de outubro, o portal Piauí Hoje promoveu, na segunda-feira (28), mais uma edição ao vivo do podcast "Bate-Papo com Notícias", comandado pelo jornalista Luiz Brandão. O programa, transmitido diariamente das 15h às 16h no YouTube, Instagram e TikTok, recebeu a jornalista e advogada Isadora Cortez, o advogado Alexandre Nogueira e o advogado e procurador do estado Jean Paulo Modesto para debater um tema central deste processo eleitoral: a influência das mídias digitais na democracia.
Logo na abertura, Brandão destacou o peso do momento histórico. "Estamos a seis dias da eleição. Essa é uma eleição diferente. Não vai escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro. O que está em jogo é o destino do Brasil. É preciso ter muito cuidado no domingo em quem você vai votar: se você quer voltar ao passado ou quer que o Brasil siga para frente, com as conquistas que já aconteceram", afirmou o jornalista.
Isadora Cortez abriu o debate ressaltando que as plataformas digitais se transformaram em uma verdadeira assembleia, onde não apenas os candidatos e a mídia tradicional produzem conteúdo, mas o próprio eleitor. "Hoje a campanha saiu das ruas, do corpo a corpo e dos comícios, e está no palanque digital. É muito importante que a gente faça uma discussão mais responsável sobre as redes sociais, porque elas jogam um papel decisivo na formação da opinião pública", avaliou.
A advogada também chamou atenção para o fenômeno da desinformação e o crescimento do discurso de ódio, lembrando que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já reconhece esses riscos. Segundo ela, é papel de toda a sociedade fiscalizar o que circula na internet. "Se você vê que alguém está postando uma besteira, um conteúdo falso, vá lá no grupo e diga: 'Isso aqui é falso'. Hoje existem ferramentas e agências de checagem que permitem verificar imediatamente", orientou.
O advogado Alexandre Nogueira foi direto ao apontar o principal perigo desse novo modelo de campanha. "O risco é real, porque quem define o que as pessoas vão acessar, o que vai aparecer no feed delas, são os algoritmos de cada big tech. É preciso saber se esse algoritmo está beneficiando ou prejudicando algum candidato", alertou.
Nogueira destacou que esta é a primeira eleição em que pesquisas apontam as redes sociais como principal meio de informação do eleitor, com índices que variam entre 48% e 55%. "Não é mais o rádio, a TV e o boca a boca. As redes sociais já aparecem como a principal forma de o eleitor se informar. Se você consegue subverter isso, você manipula a eleição", advertiu.
O advogado também observou que a Justiça Eleitoral tem agido quando provocada, inclusive com acesso aos códigos dos algoritmos, algo que não existia na eleição passada.
Da comunicação de massa à autocomunicação
O procurador do estado Jean Paulo Modesto fez uma análise histórica do processo. Ele lembrou que a Constituição de 1988 inovou ao estabelecer um capítulo próprio para regular a comunicação social, proibindo a existência de monopólios, embora a regulamentação em nível nacional tenha ficado incompleta.
"O modelo que tínhamos era o das grandes televisões e rádios, concessões públicas unidirecionais, onde as pessoas ouviam em casa, no horário estabelecido, sem poder participar. A internet modificou isso radicalmente, promovendo o que se chama de autocomunicação de massas. Agora cada um pode veicular conteúdo, cada um virou seu próprio jornalista", explicou Modesto.
No entanto, ele ponderou que a promessa inicial de democratização da comunicação não se concretizou plenamente. "A ascensão das grandes plataformas, que são corporações empresariais, terminou exercendo controle sobre a veiculação por meio dos algoritmos. Isso diminuiu muito o potencial que a internet tinha de contribuir para a democratização", afirmou.
Bolhas, mercado e atenção
Modesto foi além e criticou a lógica que domina as plataformas. "A lógica da internet é a sua atenção. Ela leva para você o que você vê, o que você gosta, o que você quer. Isso gera bolhas. E essa é uma lógica de mercado, não de formação da opinião pública", analisou.
Para o procurador, é preciso repensar esse modelo. "A comunicação está ali de contrabando, como desculpa para vender atenção e marketing. Isso empobrece o debate democrático e influencia as instituições. É um debate que está só começando, mas precisamos avançar", concluiu.
Os participantes também analisaram os assuntos que dominaram as redes sociais nos últimos dois dias. Entre eles, o caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida, que ganhou força após uma postagem do humorista Antônio Tabet e uma decisão do ministro André Mendonça, posteriormente revertida pelo ministro Flávio Dino. Para Alexandre Nogueira, a decisão de Mendonça foi equivocada ao dar "carta branca" para a Meta retirar conteúdos sobre o tema.
O debate também mencionou a viralização de um vídeo do humorista Fábio Pochar e a discussão sobre as bets. Isadora Cortez observou que esses assuntos têm impacto direto nas pesquisas eleitorais. "Me parece que esses temas que estão bombando na internet são aqueles que estão levando à modificação das últimas horas das pesquisas", avaliou.
O papel dos robôs e do engajamento
Sobre a atuação de robôs nesta campanha, Isadora Cortez afirmou que hoje é mais fácil detectá-los. "A gente não está vendo tanta fazenda de bots como na eleição passada, porque a Justiça Eleitoral hoje faz esse filtro. Mas ainda tem. Quem usa muito robô é o Nicolas Ferreira. É simples detectar: você vê milhões de visualizações, mas quando verifica de onde vêm, é da Índia, do Paquistão", revelou.
A advogada destacou ainda que o alcance das postagens sobre eleição diminuiu nesta campanha, o que torna o engajamento pessoal ainda mais decisivo. "Se não tiver gente engajada para fazer aquele conteúdo chegar longe, ele não vai chegar. A mobilização pessoal, no digital e na rua, é fundamental", concluiu.
Participação social como caminho
Jean Paulo Modesto encerrou o debate citando uma experiência positiva no Piauí: o Orçamento Participativo (OP) do governo do estado, que utiliza a internet como instrumento de participação social para discutir obras e o orçamento com a população. "Isso é uma inovação. É usar a internet como ferramenta de democracia, e não apenas de mercado", finalizou.
O debate reforçou a urgência de uma reflexão profunda sobre o papel das plataformas digitais no processo democrático, especialmente em um momento em que a desinformação e os algoritmos podem influenciar diretamente o resultado das urnas.