A imagem do político confinado ao ar-condicionado do gabinete ou restrito às sessões solenes da Assembleia Legislativa povoa o imaginário popular. Mas, nos rincões do Piauí, um estado de dimensões continentais e desafios logísticos brutais, há quem transforme o mandato em combustível de caminhonete e a estrada de chão em palanque permanente da democracia.
Enquanto o senso comum repete que "político não trabalha", os dados mostram outra realidade: a maioria dos deputados estaduais piauienses percorre, anualmente, entre 150 mil e 180 mil quilômetros pelas rodovias estaduais e federais. A conta é de tirar o fôlego: média de 12,5 mil a 15 mil quilômetros por mês, ou impressionantes 400 a 500 quilômetros por dia.
Um mandato em 4 rodas
Esse vai e vem incessante não é turismo político. É a matéria-prima do mandato que recusa a bolha. Em cada comunidade ribeirinha, cada assentamento do MST, cada vila esquecida pelo asfalto, o parlamentar coleta demandas, fiscaliza obras e ouve o eleitor que não tem condições de bater à porta do poder.
O deputado Francisco Limma (PT), engenheiro agrônomo de formação, é um retrato vivo dessa resistência rodoviária. Ele integra o seleto time que supera a barreira dos 150 mil quilômetros rodados por ano pelo interior do estado, distância equivalente a três voltas completas ao redor da Terra (a circunferência da Terra tem 40.075 quilômetros).
"A democracia não se faz no ar-condicionado do gabinete", afirma Limma, que já foi prefeito de São João do Arraial e coordenou programas de combate à pobreza rural. "A gente só conhece a realidade do pequeno produtor, a falta de recapeamento na estrada, os conflitos agrários e a seca que mata o gado se a gente estiver lá, no barro, ao lado de quem sofre."
Da tribuna à poeira
O trabalho de Limma vai além da quilometragem. Nos registros oficiais da Assembleia Legislativa, o parlamentar tem atuação propositiva constante. Em março de 2026, ele protocolou requerimento cobrando recapeamento e tapa-buracos na BR-343 (trecho Floriano–Jerumenha) junto ao DNIT, além de pedir audiência pública para debater conflitos agrários e impactos socioambientais da expansão agrícola. Também apresentou projeto de lei instituindo a Política Estadual de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Crônicas no SUS do Piauí.
"O povo não quer promessa de palanque. Quer ponte, quer asfalto, quer água. Se o político não for lá ver com os próprios olhos, a demanda não chega, o dinheiro público mal aplicado não aparece. Estrada para mim é instrumento de trabalho e exercício de cidadania", conclui.
Em tempos de fadiga democrática e desconfiança generalizada com a política institucional, a rotina desses deputados estradeiros soa como antídoto.
Longe dos holofotes e dos estúdios, eles encaram o sol do semiárido, as pontes de madeira, a poeira que sobe e a lama que atola, porque sabem que a democracia se conquista todos os dias, de porta em porta, de estrada em estrada.
Francisco Limma e seus colegas que cruzam o Piauí de ponta a ponta não são exceção apenas pelo volume de quilômetros. São exceção porque insistem que representação popular é presença física, não figurativa.
E, neste ano eleitoral, com as eleições gerais marcadas para 4 de outubro, essa presença se torna ainda mais vital. Afinal, o voto que nasce da estrada carrega consigo não apenas a esperança, mas a memória de que alguém, um dia, enfrentou o barro para ouvir.