Em um movimento que a população local já chama carinhosamente de “O Basta Subiu a Escada”, o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro foi riscado da placa de inauguração da "famosa" Escada do Baixão dos Rodrigues, no Parque Nacional da Serra da Capivara.
O ato de "vandalismo seletivo" aconteceu sob a proteção de uma fina camada de acrílico. Os visitantes passaram tinta ou material cortante apenas onde estava o nome do ex-presidente, como uma cirurgia de remoção de tumor malígno. É nítido que alguém tentou tirar o nome do ex-presidente daquele lugar, porque o resto da placa está visível.
A “abra faraônica”
Entregue em 19 de outubro de 2021, dentro das “festividades” do aniversário do Piauí, sem que o governador à época tivesse sido convidado, a escada é um caso de marketing político puro. Feita de ferro galvanizado, o mesmo material de tanques de obras abandonadas, a estrutura possui 114 degraus e se estende por 60 metros de altura.
Segundo dados oficiais, a obra custou cerca de R$ 700 mil, viabilizada por uma emenda do ex-deputado federal Paes Landim. Na inauguração, quem apareceu para bater palma foi o ministro do Meio Ambiente da época, Joaquim Leite. Jair Bolsonaro, obviamente, não veio.
O desprezo às instituições
A ignorância às instituições está nos nomes na composição da placa. Enquanto o nome de Bolsonaro está lá, mas o da principal autoridade do estado à época, o governador Wellington Dias (PT), foi omitido propositalmente na confecção do monumento.
Na prática, a placa conta a seguinte verdade: para o cerimonial do governo federal, quem mandava no Piauí era o senador Ciro Nogueira (PP), então ministro da Casa Cívil de Bolsonaro, e o ex-deputado Paes Landim, citados na placa, autores políticos da façanha. A falta do governador não foi um erro de digitação; foi um recado. Afinal, como registrar o nome de um governador de oposição na única obra que a gestão Bolsonaro entregou no estado em quatro anos?
E por que a placa foi riscada? A resposta é simples e sobe a serra feito eco: protesto com a falta de respeito às instituições. Os visitantes, ao riscarem apenas o acrílico, sem destruir a escrita original, quase com um cuidado cirúrgico, não apagaram um nome; apagaram a vergonha de ver um presidente usar um patrimônio mundial da UNESCO para fazer propaganda vazia.
Enquanto o Parque Nacional da Serra da Capivara, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade e lar da maior concentração de sítios pré-históricos das Américas, luta por visibilidade e verba, o ex-presidente preferiu usar os 114 degraus como outdoor eleitoral.
A escada de ferro pode até enferrujar com o tempo, mas a piada está garantida. A “única obra de Bolsonaro no Piauí” agora tem uma nova função: servir de alvo para visitantes bem-humorados que preferem apagar o nome de quem subiu a rampa do Planalto, mas saiu pela porta dos fundos.