Dados divulgados esta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 46,1% dos adolescentes piauienses entre 13 e 17 anos afirmam já terem conduzido veículos sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH), incluindo carros, motocicletas e até barcos. O índice coloca o Piauí na sexta posição nacional entre os estados com maior proporção de escolares que dirigiram nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Em comparação com 2019, quando o percentual era de 45,1%, houve aumento de um ponto percentual. A média nacional em 2024 ficou em 34,2%, bem abaixo do registrado no estado, de acordo com o IBGE. A pesquisa também revela que o Piauí é o quinto estado brasileiro com menor uso de capacete por adolescentes ao viajar em motocicletas. A média nacional de uso é de 87,9%, enquanto no Piauí o índice cai para 76,1%.
O número de jovens condutores sem habilitação está diretamente ligado a uma realidade ainda mais grave: a violência no trânsito. Dados da Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI) e do Hospital de Urgência de Teresina (HUT) mostram que motociclistas jovens, do sexo masculino e sem CNH são os que mais morrem em acidentes de trânsito no estado. Em 2024, das 1.062 mortes de trânsito registradas, 766 foram de motociclistas, sendo que 75,05% das vítimas não possuíam CNH. No HUT, a cada 60 minutos uma pessoa vítima de acidente de moto é atendida. O problema se agrava porque o Piauí é o estado com o maior percentual de motocicletas nos domicílios (54%), segundo o IBGE, e o Detran contabiliza 833.503 motos no estado contra apenas 487.626 motociclistas habilitados.
A pesquisa também investigou a exposição dos jovens a outras situações de risco no trânsito. No Piauí, 29,3% dos estudantes afirmaram ter sido passageiros em veículos conduzidos por pessoas sob efeito de álcool nos 30 dias anteriores ao levantamento, um aumento em relação a 2019, quando o percentual era de 26,5%. Em Teresina, o índice chegou a 30,3%, acima da média nacional de 27,2%. Além disso, quando se trata de segurança no carro, 40,3% dos jovens declararam não usar ou raramente usar o cinto de segurança, segundo o IBGE.
O levantamento ainda mostra desigualdades importantes dentro do próprio estado. Entre os meninos, 55% disseram já ter dirigido, contra 37,5% entre as meninas. Nas escolas públicas, o percentual chegou a 48,1%, enquanto nas privadas ficou em 31,8%. Em Teresina, 33,9% dos adolescentes relataram já ter conduzido veículos, percentual inferior à média estadual, mas ainda assim o quarto maior entre as capitais brasileiras, atrás apenas de Boa Vista (38,1%), Cuiabá (37,5%) e Palmas (36,2%).
Ações educativas
Para a diretora-geral do Detran-PI, Luana Barradas, os números acendem um alerta porque a aptidão comprovada por meio da CNH não é uma mera formalidade. "Esse é um assunto que o Detran-PI vem trabalhando exaustivamente nos últimos anos. Fazemos campanhas de conscientização, blitz educativas, além de contarmos com o apoio da Polícia Militar na fiscalização. Só é possível tirar a CNH a partir dos 18 anos porque a legislação brasileira entende que somente a partir dessa idade a pessoa é capaz de compreender os riscos à própria vida e à de terceiros, além de poder ter responsabilidade jurídica completa", afirmou.
A gestora destacou ainda que motoristas mais jovens tendem a estar mais expostos a comportamentos de risco e que estudos indicam que esses jovens ainda estão em fase de desenvolvimento de áreas ligadas ao controle de impulso, à percepção de risco e à tomada de decisão.
Por conta dessa situação, ela informou que o Detran tem ampliado suas ações educativas e de formação cidadã. Entre as principais iniciativas estão o projeto Ciranda Educativa, que leva orientações sobre segurança viária a estudantes das redes pública e privada desde o ensino infantil e fundamental, e a CNH Social Estudantil, desenvolvida em parceria com a Secretaria de Estado da Educação (Seduc), para expandir oportunidades, promover inclusão e reforçar a segurança entre jovens, especialmente motociclistas. O programa CNH Social Estudantil, por exemplo, já beneficiou 10 mil estudantes da rede pública estadual com a emissão da primeira carteira de habilitação.