A recente onda de manifestações que tomou conta das principais cidades brasileiras após o primeiro turno das eleições foi o ponto de partida para um debate aprofundado no podcast "Bate-Papo com Notícias", do Portal Piauí Hoje, nesta terça-feira (20). O programa, comandado pelo jornalista Luiz Brandão, recebeu o advogado Marcos Steiner, o cientista político e professor Germano Moura, e a assistente social e mestra em Saúde Coletiva Paula Lopes.
A conversa começou com uma análise sobre por que as grandes manifestações, como a que ocorreu em Teresina no Dia do Piauí, não aconteceram antes, no início da campanha eleitoral. Para o professor Germano Moura, houve uma desmobilização dos movimentos sociais, em parte devido a um processo de "cooptação" pelos governos de esquerda. "Quando você acessa o poder, você tem uma função mais institucional. Você não governa para um lado, governa de forma universal", explicou, citando a necessidade de coalizões para governar.
A assistente social Paula Lopes complementou, apontando que a desmobilização é um fenômeno internacional ligado ao avanço do neoliberalismo, que individualiza as pautas. No entanto, ela vê um novo ciclo de mobilização, impulsionado pela juventude e pelas redes sociais. "Existe um mundo que não é o mundo das ruas, é o mundo das redes sociais. Ele tem que ser também dialogado", afirmou, lembrando que muitos deputados de extrema direita foram eleitos com forte atuação digital.
Um dos pontos centrais do debate foi a dificuldade da esquerda em se comunicar com o eleitor médio. Marcos Steiner foi enfático ao apontar erros estratégicos do PT no primeiro turno, como a avaliação equivocada de que a eleição seria resolvida de imediato, o que teria deixado o candidato da extrema direita "solto" para construir sua candidatura. "Você está com o sistema de comunicação na mão, mas o adversário domina a linguagem", alertou.
Germano Moura destacou o que chamou de "purismo intelectual" da esquerda, que a impede de competir com a extrema direita no terreno da desinformação e do entretenimento. "A gente sobe muito o nível do debate para falar com professores acadêmicos, mas esse discurso não chega à população", disse. "Ninguém come PIB, ninguém come bolsa de valores. O eleitor médio é pragmático", acrescentou, defendendo a necessidade de traduzir as conquistas do governo para a vida cotidiana das pessoas.
A conversa também abordou a ascensão de movimentos como os "Red Pill" e as "Trad Wives", que, segundo Paula Lopes, pregam o ódio às mulheres e a negação de direitos duramente conquistados. "É um movimento perigoso e de conservadorismo", alertou. Para ela, é fundamental que os homens também se posicionem como feministas nessa luta.
O debate presidencial e os riscos para a democracia
Ao analisarem o debate presidencial, os participantes criticaram a falta de propostas e o comportamento do candidato da extrema direita, que, segundo eles, apostou no caos e na desinformação. Paula Lopes criticou a postura de deboche e a demonstração de desconhecimento sobre políticas públicas como o SUS. "Onde é que nós na sociedade estamos que ela bate palma para isso?", questionou.
Marcos Steiner elogiou a postura do presidente Lula no debate, especialmente ao desafiar Flávio Bolsonaro a abrir seu sigilo bancário. "O Lula foi corajoso, firme e disse: 'Eu sou honesto'", afirmou. Para ele, a recusa do adversário em aceitar o desafio é reveladora. "Ele não topou porque tem alguma coisa a esconder", disse, citando as investigações da Polícia Federal sobre as movimentações financeiras de um amigo do candidato.
O debate encerrou com um alerta sobre os riscos que o projeto da extrema direita representa para a economia e para a sociedade brasileira. Germano Moura destacou que o desmonte do Estado proposto pelo candidato levaria à desindustrialização e ao desemprego em massa, prejudicando especialmente os micro e pequenos empresários. "O nosso capitalismo depende do Estado. Se eu tiro a capacidade de investimento do Estado, a economia não gira", concluiu, reforçando a importância do voto consciente para a preservação da democracia.