A construção de uma estátua de 11 metros em homenagem ao Diabo, no município de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, ganhou repercussão nacional e despertou a curiosidade sobre a idealizadora do monumento. Conhecida como Mãe Rainha das Trevas, a sacerdotisa é líder de um templo de quimbanda e soma quase 800 mil seguidores nas redes sociais, onde divulga rituais e conteúdos relacionados à sua crença.
A escultura foi instalada no Palácio Estrela Negra da Quimbanda, localizado na praia da Taíba, distrito de São Gonçalo do Amarante. O templo, fundado há 29 anos, também é a residência da líder religiosa e recebe mensalmente visitantes durante cerimônias e celebrações.
Segundo Mãe Rainha das Trevas, a obra custou aproximadamente R$ 100 mil, valor pago integralmente com recursos próprios. Ela afirma que o monumento foi construído em terreno particular e que todas as autorizações exigidas pelos órgãos públicos foram obtidas antes do início da obra.
De acordo com a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, a construção está regularizada e atende às exigências urbanísticas e ambientais. Como o imóvel fica em uma Área de Proteção Ambiental (APA), também foi necessária autorização dos órgãos ambientais competentes.
"Feiticeira dos políticos"
Nas redes sociais, Mãe Rainha das Trevas se apresenta como "feiticeira", função que exerce dentro da quimbanda. Ela também se define como a "feiticeira dos políticos" e afirma que costuma receber parlamentares que buscam auxílio espiritual, principalmente durante períodos eleitorais.
A sacerdotisa diz que enfrentou episódios de preconceito muito antes da construção da estátua. Segundo ela, as críticas começaram quando mantinha, em Fortaleza, um espaço religioso conhecido como "Casa dos Caixões", caracterizado pela fachada pintada de preto e por elementos utilizados em seus rituais.
Apesar da repercussão provocada pelo monumento, ela afirma que não teme atos de vandalismo e acredita que sua comunidade respeita a diversidade religiosa.
O que é a quimbanda?
A quimbanda é uma tradição religiosa de origem afro-brasileira cujos ensinamentos são transmitidos principalmente de forma oral. Diferentemente de religiões baseadas em livros sagrados, seus fundamentos são preservados por meio da tradição entre sacerdotes e iniciados.
Segundo praticantes da religião, a quimbanda busca a evolução espiritual do indivíduo e rejeita a ideia de que seja um "culto ao mal", classificação que, segundo eles, resulta de preconceitos históricos. Um dos conceitos centrais da crença é a reencarnação, vista como um ciclo que deve ser superado por meio do aperfeiçoamento espiritual.
Para Mãe Rainha das Trevas, a figura do demônio possui um significado diferente daquele difundido por religiões cristãs. Ela afirma que, dentro de sua tradição religiosa, os demônios são vistos como entidades espirituais que auxiliam seus seguidores, interpretação que contrasta com a visão predominante em outras crenças.
Além das atividades religiosas, a sacerdotisa afirma promover ações sociais, como a distribuição de alimentos e brinquedos para comunidades da região. Segundo ela, o templo costuma reunir entre 200 e 300 pessoas durante as cerimônias realizadas mensalmente.