O governo dos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, divulgou nesta segunda-feira (1º) a conclusão de uma investigação comercial contra o Brasil, propondo uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida, que ainda depende de decisão final do presidente americano, expõe não apenas o caráter político da retaliação, mas também a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um dos catalisadores da crise.
Enquanto os EUA miram sistemas como o Pix e levantam acusações ambientais defasadas para justificar a taxação, especialistas avaliam que Flávio, pré-candidato à Presidência, adotou uma postura de completa submissão a Trump, em uma tentativa de angariar votos que resultou no prejuízo direto à economia brasileira e à sua própria popularidade.
A decisão de Washington ocorre dias após uma visita relâmpago do senador Flávio Bolsonaro aos EUA. Na ocasião, ele se reuniu com Trump e membros do alto escalão americano para pedir, em tese, que não taxassem o Brasil.
No entanto, analistas ouvidos pelo site Brasil de Fato, apontam que a estratégia foi desastrosa. O professor de Relações Internacionais Ricardo Leães afirma que Flávio está disposto a "entregar o Brasil ao Trump" em uma disputa de influência com o presidente Lula. "Se o Lula oferece as terras raras, o Flávio vai oferecer terras raras e o Pix. Se o Lula oferecer terras raras e o Pix, o Flávio vai oferecer terras raras, Pix e qualquer outra coisa que seja de interesse de Trump", analisa.
Para a cientista política Mayra Goulart (UFRJ), o episódio isola politicamente o senador. "Flávio Bolsonaro tem enfrentado uma queda expressiva entre jovens, entre evangélicos, entre quem ganha de dois a cinco salários mínimos. Ele está perdendo o público menos radicalizado", destacou.
Por que Trump ignora os dados reais do Brasil
A justificativa oficial dos EUA, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, lista queixas que vão desde o comércio digital até supostas falhas no combate à corrupção. No entanto, as evidências mostram que Trump manipula ou ignora dados oficiais para validar o ataque:
1. O debate sobre o Pix
O relatório do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) afirma que o Brasil "prejudica injustamente as empresas americanas" ao favorecer o sistema de pagamentos nacional. No entanto, economistas apontam que a medida é protecionista, visando proteger a indústria de cartões de crédito dos EUA, e que o argumento não se sustenta comercialmente.
2. Desmatamento desatualizado
Uma das principais bandeiras para a taxação é a questão ambiental. Trump usou números do desmatamento que não correspondem à realidade atual. O relatório cita picos de 2021 como justificativa, mas ignora completamente os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que apontam queda de 50% no desmatamento da Amazônia e de 32% no Cerrado entre 2023 e 2025.
3. Falso déficit comercial
O analista internacional Ricardo Leães lembra que Trump justifica tarifas globalmente pela desindustrialização dos EUA, mas o Brasil não se enquadra nessa lógica. "O Brasil é um país que tem déficit nos EUA", ou seja, compra mais dos americanos do que vende, o que invalida a alegação de concorrência desleal usualmente usada pelo magnata.
Impacto bilionário e os próximos passos
Se confirmada, a tarifa de 25% terá um impacto significativo sobre a economia brasileira. Especialistas consultados pela Revista VEJA estimam que a medida pode afetar US$ 8,4 bilhões em exportações, o que corresponde a cerca de 21% do que o Brasil vende para o mercado americano.
O governo brasileiro ainda tem uma janela de negociação até 15 de julho para tentar reverter a decisão, mas o cenário é complexo. "Embora esse tarifaço seja de 25% e o outro, do ano passado, fosse de 50%, esse é mais grave. Ele acontece por um dispositivo legal já consagrado nos EUA. É muito mais difícil que o Brasil consiga fugir", concluiu Leães.