O Piauí pode ocupar uma posição estratégica na nova corrida mundial por minerais essenciais à indústria tecnológica e à transição energética. Estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) identificaram 39 novas ocorrências minerais com enriquecimento em elementos terras raras e urânio na borda oriental da Bacia do Parnaíba, em território piauiense.
A descoberta ganha ainda mais relevância no momento em que o governo federal amplia as discussões sobre uma estratégia nacional para os minerais críticos e as terras raras. Esses recursos são utilizados em equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas, veículos elétricos e outras tecnologias avançadas.
Mas é preciso fazer uma ressalva: ocorrência mineral não significa, automaticamente, uma reserva pronta para exploração comercial. Os próprios pesquisadores defendem novos estudos para dimensionar o volume dos depósitos e avaliar a viabilidade econômica da mineração.
Piauí tem terras raras?
A resposta, com base nos estudos geológicos disponíveis, é sim: existem ocorrências de elementos terras raras identificadas no Piauí. O Informe Técnico nº 27 do SGB, publicado em 2025, aponta 39 novas ocorrências relacionadas principalmente às formações geológicas Itaim, Pimenteira e Longá, na borda oriental da Bacia do Parnaíba. As pesquisas identificaram rochas fosfáticas com concentrações de elementos terras raras. Em uma das amostras analisadas, o teor total desses elementos atingiu um valor anômalo de 2,3%. Segundo o SGB, os resultados colocam as concreções fosfáticas estudadas na Bacia do Parnaíba entre as mais enriquecidas em elementos terras raras já analisadas nesse tipo de ocorrência.
Estudos citam municípios do Piauí
Os levantamentos técnicos registraram amostras e ocorrências em áreas de municípios piauienses como São João da Serra, Novo Oriente do Piauí, Santa Cruz dos Milagres e Aroazes. Outro estudo do SGB aprofundou a análise da Formação Longá, na região leste do estado, com trabalhos realizados na borda da Bacia do Parnaíba. As pesquisas apontam que as rochas sedimentares da Formação Longá podem atingir até 200 metros de espessura. Para os pesquisadores, esse dado indica a possibilidade de que níveis enriquecidos em fosfato e outros elementos também ocorram em subsuperfície.
Disprósio, érbio, itérbio e ítrio foram identificados
Entre os elementos terras raras encontrados nas análises estão disprósio, érbio, itérbio e ítrio. Os dados divulgados pelo SGB apontam concentrações de até 259 ppm de disprósio, 281 ppm de érbio, 392 ppm de itérbio e até 2.188 ppm de ítrio. Esses elementos têm aplicações em setores de alta tecnologia. O disprósio, por exemplo, é utilizado em ímãs de alto desempenho empregados em motores e tecnologias de energia limpa. O estudo também identificou concentrações elevadas de fosfato e urânio. Em algumas amostras, os teores de urânio chegaram a 1.268 ppm.
Potencial é considerado promissor
A avaliação técnica do Serviço Geológico do Brasil classifica áreas pesquisadas como promissoras a altamente promissoras para o desenvolvimento econômico de depósitos de elementos terras raras. Isso não significa, porém, que uma mina de terras raras será aberta imediatamente no Piauí. Para transformar uma ocorrência geológica em um projeto de mineração são necessárias novas etapas de pesquisa, incluindo sondagens, estimativas de recursos minerais, estudos de viabilidade econômica e tecnológica e licenciamento ambiental. O tamanho e a continuidade das mineralizações também precisam ser detalhados.
O que são minerais críticos?
Minerais críticos são matérias-primas consideradas essenciais para setores estratégicos da economia e que podem enfrentar riscos de abastecimento. Entre os minerais que ganharam importância internacional estão lítio, grafita, níquel, cobre e elementos terras raras. As terras raras formam um grupo de elementos químicos utilizados na produção de componentes tecnológicos de alto desempenho. Apesar do nome, nem sempre são escassas na natureza. A dificuldade está, muitas vezes, na concentração, separação e processamento desses elementos.
Piauí pode entrar no mapa da mineração estratégica
A identificação das 39 ocorrências abre uma nova perspectiva para o conhecimento do subsolo piauiense. O cenário internacional também aumenta a importância das pesquisas realizadas na Bacia do Parnaíba. Estados Unidos, China, países europeus e outras potências disputam acesso a minerais essenciais para a indústria tecnológica e para a produção de equipamentos ligados à transição energética.
O Brasil busca transformar seu potencial geológico em uma cadeia industrial capaz de gerar tecnologia e produtos de maior valor agregado, evitando limitar-se à exportação de matéria-prima. Nesse cenário, o Piauí pode ganhar importância estratégica. Os dados científicos já confirmam a presença de ocorrências minerais relevantes. O próximo desafio é descobrir qual o tamanho real dessa riqueza, se a exploração é economicamente viável e como transformar o potencial do subsolo em desenvolvimento para a população piauiense. Enfim, o Piauí tem potencial comprovado por estudos geológicos para ocorrências de terras raras e outros minerais estratégicos, mas ainda precisa avançar nas pesquisas antes de falar em grandes reservas comerciais.