O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgou uma nota oficial nesta terça-feira (7) repudiando a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência nos Estados Unidos sobre as tarifas impostas pelo governo Donald Trump. O Planalto classificou a atuação do pré-candidato à Presidência como "traição à pátria" e afirmou que ele age com "claro objetivo eleitoreiro" .
Flávio discursou por cinco minutos em audiência organizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) — que não foi transmitida publicamente — em uma tentativa de conter danos à sua campanha presidencial, após ser apontado como responsável pelo novo "tarifaço" contra o Brasil.
Governo acusa senador de "legitimar" investigação injusta
Na nota assinada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), o governo federal afirma que, entre os 34 brasileiros inscritos para falar na audiência, "só Flávio Bolsonaro não se posicionou contrário às medidas contra o Brasil, optando por sugerir o seu adiamento, com claro objetivo eleitoreiro".
O Planalto também acusa o senador de "legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores do nosso país", em vez de rebater as acusações dos EUA.
"Divergir do governo é legítimo. Convocar uma potência estrangeira a pressionar o próprio país é traição à Pátria. Há uma diferença essencial entre fazer oposição ao governo e fazer oposição ao país e ao povo brasileiro", diz trecho da nota oficial.
"Tariflávio": o apelido que viralizou
A atuação de Flávio junto a autoridades americanas tem sido usada por aliados de Lula para criticar o senador, afirmando que ele atenta contra a soberania brasileira. O governo conseguiu emplacar o termo "Tariflávio" nas redes sociais — a expressão esteve entre os assuntos mais comentados no X (antigo Twitter) — para associar o senador à implementação das novas tarifas de 25% contra produtos brasileiros.
O monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram pela empresa de análise de dados Palver mostra que 8 em cada 10 mensagens opinativas responsabilizam Flávio Bolsonaro pelas ameaças ao Pix e ao novo tarifaço. O levantamento, referente ao período de 27 de maio a 2 de junho, está atrelado à viagem do senador aos EUA e sua reunião com Donald Trump no Salão Oval.
Senador defende Pix e pede adiamento das tarifas
Em sua fala na audiência, Flávio defendeu o sistema Pix, que se tornou alvo do governo americano. "O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução. Ele ampliou a inclusão financeira ao trazer milhões de brasileiros — especialmente os mais pobres — para a economia formal", afirmou o senador, segundo sua assessoria.
O pré-candidato também argumentou que o momento eleitoral é o "pior possível" para a implementação das taxas, que "foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro". Em manifestação por escrito enviada ao USTR, Flávio pediu a suspensão das tarifas por 180 dias, até depois das eleições de outubro.
No documento, o senador admite que o tarifaço pode fortalecer politicamente o governo Lula em ano eleitoral: "Pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos EUA foi mais evidente".
Governo cita vínculo de Flávio com Banco Master
A nota do Planalto também critica o senador por não ter esclarecido sua relação com pessoas do Banco Master. "Ao citar o caso Master, maior esquema de corrupção da história do país, omitiu sua origem vinculada ao governo de Jair Bolsonaro. Também esqueceu de mencionar seus próprios vínculos com Daniel Vorcaro, para quem pediu mais de 130 milhões de reais para, segundo ele alega, produzir um filme sobre o seu pai".
O senador tem minimizado o episódio, afirmando que sua relação com Vorcaro "foi única e exclusivamente por causa do filme" e que se trata de "uma relação privada, um investimento". No entanto, mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil mostram que Flávio negociou com o banqueiro R$ 124 milhões para a produção do longa "Dark Horse", sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Efeito eleitoral e negociações em curso
Analistas políticos avaliam que o novo tarifaço pode anular os ganhos políticos obtidos por Flávio após sua visita a Trump na semana passada. Segundo o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, "a questão do tarifaço e seus desdobramentos contrata uma mobilização maior do eleitorado bolsonarista, mas, ao fazer esse movimento, a rejeição de Flávio fica num patamar muito próximo da de Lula".
Enquanto isso, o governo brasileiro mantém negociações "ininterruptamente com os Estados Unidos desde julho de 2025 para reverter as tarifas aplicadas injustificadamente contra o Brasil", segundo a nota da Secom. Um grupo de trabalho composto por políticos, economistas e diplomatas já participou de quatro rodadas de negociações com autoridades americanas.