Brasília viveu um fim de semana de efervescência cultural com a estreia da Virada Cultural do Sesc-DF e a programação do Festival Multiversos, que transformaram a capital em um polo de arte, música e manifestação política. Enquanto o centro da cidade recebia 36 horas de atrações gratuitas, a poucos quilômetros dali, no gramado do Eixo Cultural Ibero-Americano, o cantor paraibano Chico César levou milhares de pessoas ao delírio com seu show.
Nascido Francisco César Gonçalves, em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba, o artista de 62 anos construiu uma trajetória que mescla jornalismo, poesia e música. Formado pela Universidade Federal da Paraíba, mudou-se para São Paulo aos 21 anos, onde trabalhou como revisor de textos antes de se dedicar integralmente à carreira musical.
O estouro nacional veio em 1996 com o álbum "Cuscuz Clã", que trouxe sucessos como "À Primeira Vista" – canção que, segundo o próprio artista, vai além do romantismo: "Ao cantar 'quando ouvi Salif Keïta / Prince, dancei', estou me referindo a dois artistas negros. É geopolítica e pan-africanismo cantados de forma doce".
O repertório de Chico César inclui ainda "Mama Mundi" (2000), "Respeitem Meus Cabelos, Brancos" (2002) e "Estado de Poesia", vencedor do Prêmio da Música Brasileira em 2018 na categoria Pop/Rock/Reggae/Hip-hop/Funk . Em 2022, lançou "Vestido de Amor", disco gravado na França com participações de lendas africanas como Salif Keïta .
Virada Cultural: 36 horas de arte e diversidade
Promovida pelo Sesc-DF, a Virada Cultural ocupou o Setor Comercial Sul (SCS) com nove palcos ao ar livre, além do Teatro Sesc Silvio Barbato. Inspirado no modelo paulistano, o evento gratuito teve início às 10h de sábado (15) e se estendeu até a noite de domingo (16), reunindo desde bandas de rock como Fresno e o duo de eletrônica Dubdogz até coletivos tradicionais do DF, como Choro no Eixo, Samba da Tia Zélia e Vapor.
O diretor regional do Sesc-DF, Valcides de Araújo, destacou a potência cultural local: "Brasília não precisa copiar São Paulo. Nossa capital já é uma metrópole cultural vibrante, única e com uma arquitetura a céu aberto que parece ter sido projetada justamente para vivências como essa" . A iniciativa, segundo ele, busca "dinamizar o centro urbano, movimentar a economia criativa local e mostrar que o DF respira arte em todos os seus cantos".
Festival Multiversos e a arte como resistência
A poucos quilômetros do SCS, o Festival Multiversos – patrocinado pela Petrobras via Lei de Incentivo à Cultura – ocupou o gramado do Eixo Cultural Ibero-Americano com atrações como Os Garotin, Esdras Nogueira, Samba Delas e Chico César.
O paraibano, reconhecido como um ativista político de esquerda assumido, não decepcionou o público. Durante o show, ao perceber que a plateia exibia símbolos de apoio ao ex-presidente Lula, o cantor entoou canções que combatem o fascismo, posição que defende há décadas.
"Não me peça um absurdo desse, não me peça para silenciar, não me peça para morrer calado. Respeite ou saia. Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria. Não sou seu entretenimento", declarou Chico César recentemente em suas redes sociais ao rebater críticas sobre o teor político de suas músicas.
O posicionamento ganhou ainda mais força com o lançamento de "Bolsominions", música em ritmo de reggae que critica o que o artista chama de "grupo político de inspiração fascista que sequestrou de modo hipócrita parte significativa das igrejas". A canção gerou reações, incluindo um voto de repúdio na Câmara Municipal de João Pessoa, mas também apoio de fiéis que, segundo Chico, "sairam em minha defesa e até me agradeceram".
Uma noite de arte, política e pertencimento
Enquanto a Virada Cultural consolidava Brasília como palco democrático para manifestações artísticas, o show de Chico César no Multiversos evidenciou o papel do artista como agente político, algo que, para ele, é indissociável da criação musical.
"Todas as minhas canções são políticas. Não se posicionar diante de uma opressão é tomar o lado do opressor. Tudo o que você faz, ecoa", afirmou em entrevista ao O Globo . Inspirado por uma infância marcada pela prisão do irmão durante a ditadura militar, o cantor mantém a coerência entre sua arte e sua militância.
Com mais de 80 canções compostas desde o início da pandemia – muitas delas sobre cloroquina, vacinas e resistência – Chico César segue firme em sua missão: fazer do amor um ato revolucionário.