O artesão indígena Yakekam Pankararu, natural de Pernambuco, não tinha planos de participar da III Feira da Agricultura Familiar, Povos Tradicionais e Economia Solidária do Piauí, ele estava em viagem ao estado com outro propósito: visitar uma comunidade indígena do povo Akroá-Gamella, nas proximidades de Uruçuí.
Faltando apenas dois dias para retornar a Guarulhos (SP), onde vive atualmente em uma aldeia multiétnica, Yakekam recebeu o convite para expor seus artesanatos na feira. Como já estava com as peças produzidas por seu povo, decidiu aproveitar a oportunidade para apresentar aos piauienses uma cultura marcada pela ancestralidade, espiritualidade e resistência.
O nome civil do artesão é Gabriel e o nome indígena é Yakekam, dado pela mãe.
Artesanato com história e espiritualidade
No estande, colares, pulseiras, braceletes, cocares, gargantilhas, anéis e maracas chamam a atenção dos visitantes. As peças são confeccionadas com sementes, pedras naturais e matérias-primas retiradas da natureza, como jarina, mucunã, açaí, olho-de-cabra, olho-de-pomba e coco.
Para Yakekam, porém, o maior valor está no significado de cada criação. "Cada artesanato tem um símbolo, tem um significado e tem um porquê. Eles representam força, representam proteção. São artesanatos curados e benzidos pelos nossos anciões para depois irem até a casa de vocês e protegerem vocês também", disse.
Colar de cobra coral conquista os visitantes
Entre todos os produtos expostos, um chamou especialmente a atenção dos visitantes do Piauí: o colar inspirado na cobra coral.
"O pessoal do Piauí gosta muito do colar de cobra coral. Eu trouxe alguns colares, vendi todos e ainda ficou gente querendo comprar."
Além dele, a maraca sagrada também está entre os itens mais procurados durante a feira. As vendas, segundo Yakekam, superaram as expectativas.
"Graças a Deus, as vendas estão saindo. Hoje vendemos bastante e já deu para fazer um bom dinheiro."
Mais do que comercializar artesanato, Yakekam Pankararu levou ao evento a história de seu povo, mostrando que cada peça produzida à mão carrega a memória dos ancestrais, a força da natureza e a riqueza da cultura indígena brasileira.
Tradição aprendida desde a infância
Yakekam conta que o artesanato faz parte da vida do povo Pankararu desde a infância. O conhecimento é transmitido pelos mais velhos, em encontros realizados ao redor da fogueira, onde as novas gerações aprendem muito mais do que técnicas de produção.
"O artesanato a gente aprende desde novo na aldeia. Os nossos mais velhos, todas as seis horas da noite, faziam uma fogueira e ensinavam a gente a fazer o artesanato. Eles ensinavam também um pouco da ciência deles e das experiências que tinham na mata."
Segundo Yakekam, cada peça produzida representa um modo de vida e mantém viva a identidade do povo Pankararu. "Isso é mais do que só paixão pelo artesanato. Isso é o viver também, é o nosso sustento", afirma.
Há mais de oito anos, a artesã participa de feiras pelo país, levando consigo não apenas os produtos, mas também a história e os saberes ancestrais de seu povo.