VÍDEOS: pescadores fazem mutirão para retirar aguapés que dificultam pesca no Rio Poti

Trabalhadores do Poty Velho retiraram a vegetação para abrir passagem e denunciam impactos sobre a atividade que garante o sustento das famílias

O excesso de aguapés voltou a dificultar a vida de pescadores que dependem do Rio Poti para trabalhar e garantir o sustento das famílias em Teresina. Diante da dificuldade para navegar e chegar às áreas de pesca, os próprios trabalhadores se mobilizaram para retirar a vegetação aquática durante um mutirão realizado no sábado (29), na zona Norte da capital.

A ação foi promovida pelo Desafio Teresina Entre Rios em parceria com os Guardiões do Rio Poty, coletivo formado por pescadores ribeirinhos do bairro Poty Velho. A iniciativa teve como objetivo liberar trechos tomados pelos aguapés, mas também chamar a atenção para um problema ambiental que se repete no Rio Poti e interfere diretamente na rotina de quem depende da pesca.

Em alguns pontos, a vegetação forma verdadeiras barreiras sobre a superfície da água, dificultando a circulação das embarcações e o acesso dos pescadores aos locais onde costumam trabalhar. Para famílias que vivem da pesca, o problema ambiental representa também uma ameaça à renda.

Por que os aguapés se multiplicam?

O aguapé, também conhecido como Eichhornia crassipes, é uma planta aquática que ocorre naturalmente em ambientes de água doce. O problema surge quando encontra condições favoráveis para se multiplicar de forma acelerada, especialmente em águas com excesso de nutrientes e matéria orgânica.

Em Teresina, a própria Águas de Teresina aponta que os aguapés se multiplicam rapidamente em águas ricas em matéria orgânica e nutrientes e relaciona a proliferação ao lançamento irregular de esgoto. A empresa e o município têm defendido a ligação dos imóveis à rede de esgotamento sanitário como uma das medidas para reduzir a quantidade de nutrientes que chega aos rios.

O problema não se limita à aparência do rio. Documento do Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI) destaca que a proliferação excessiva de aguapés pode impedir a penetração da luz solar nas camadas mais profundas da água e prejudicar as trocas gasosas entre a atmosfera e o rio. O órgão também aponta que a cobertura da vegetação pode dificultar ou até impossibilitar o uso de embarcações e equipamentos fluviais.

Na prática, esses efeitos atingem diretamente os pescadores. Em fevereiro de 2026, pescadores denunciaram que os aguapés já ocupavam cerca de três quilômetros do Rio Poti, entre as regiões do Ininga e Pedra Mole, prejudicando o deslocamento e a atividade pesqueira.

Problema se repete todos os anos

A proliferação de aguapés no Rio Poti não é um problema recente. O Ministério Público Federal (MPF) informou que a limpeza anual da vegetação é uma obrigação prevista em acordo homologado pela Justiça Federal.

Em agosto de 2025, o MPF reuniu representantes da Águas de Teresina, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam) e de empresa responsável pelos serviços para cobrar o cumprimento das obrigações relacionadas à retirada dos aguapés dos rios Poti e Parnaíba durante o período de baixa vazão.

O acordo foi homologado pela Justiça Federal em novembro de 2024, após pedido do MPF e do MPPI, em uma ação civil pública que tramita desde 2003. Entre as obrigações está a realização anual da limpeza dos rios Poti e Parnaíba pelo município, com recursos depositados pela Águas de Teresina, até a implantação da cobertura prevista para o esgotamento sanitário de Teresina.

Na ocasião, o procurador da República Kelston Pinheiro Lages afirmou que as partes deveriam cumprir anualmente as medidas previstas, destacando que o aparecimento dos aguapés é recorrente durante o período de seca.

Em maio de 2026, o MPF e o MPPI voltaram a acompanhar o cumprimento do cronograma de limpeza e saneamento dos rios. Na reunião, os órgãos destacaram a necessidade de transformar as ações consideradas paliativas em limpezas permanentes, diante dos problemas ambientais recorrentes nos rios da capital.

Pescadores assumem a limpeza do rio

Enquanto o problema continua exigindo ações do poder público, os próprios pescadores têm participado do manejo da vegetação. O mutirão deste sábado representa mais uma mobilização de trabalhadores que conhecem de perto as condições do Rio Poti e sentem diretamente os efeitos da degradação ambiental.

A dificuldade de navegar significa dificuldade para trabalhar. Com trechos bloqueados pelos aguapés, os pescadores precisam enfrentar obstáculos para chegar às áreas onde encontram os peixes que serão vendidos posteriormente.

O histórico mostra que a relação entre a proliferação dos aguapés e a atividade pesqueira já provoca impactos há anos. Em 2019, pescadores de Teresina relataram períodos sem conseguir pescar por causa do chamado “tapete” formado pela vegetação no Rio Poti, com prejuízos financeiros para trabalhadores que dependiam exclusivamente da atividade.

A situação também já levou o poder público a capacitar pescadores para atuar na retirada de aguapés. Em setembro de 2025, a Prefeitura de Teresina informou que pescadores seriam treinados para participar da remoção de macrófitas aquáticas no Rio Poti, com orientações sobre segurança, uso de equipamentos de proteção e procedimentos para o trabalho nas embarcações.

Os Guardiões do Rio Poty foram oficialmente constituídos em 2024, mas a mobilização dos pescadores do Poty Velho em defesa do rio começou antes da formação do coletivo. O mutirão realizado neste sábado reforça essa atuação comunitária e evidencia que, para quem vive da pesca, a preservação do Rio Poti não é apenas uma questão ambiental: é também uma questão de trabalho, renda e sobrevivência.