Jovens cobram do prefeito Sílvio Mendes solução para crise no transporte de Teresina

Manifestantes se reuniram com o prefeito Sílvio Mendes, denunciaram a falta de ônibus e questionaram o contrato com as empresas que operam o sistema

A falta de ônibus, a demora nas paradas e as condições precárias dos veículos levaram um grupo de jovens a realizar uma manifestação em frente à Prefeitura de Teresina, na terça-feira (3). Os participantes cobraram providências do prefeito Sílvio Mendes (União Brasil) para solucionar os problemas do transporte público da capital. Durante a mobilização, representantes do movimento também foram recebidos pelo gestor municipal, mas afirmaram que saíram da reunião sem respostas concretas para as principais reivindicações.

Entre os participantes estavam a professora e cientista social Fabíola Lemos, candidata a deputada estadual pelo PT nas eleições de 2026, e João Meirelles, professor de História, estudante da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e um dos articuladores da manifestação.

Organizado a partir das redes sociais, o movimento reúne pessoas que dependem diariamente dos ônibus para trabalhar, estudar e realizar outras atividades. A principal cobrança é a ampliação da frota em circulação, além da recuperação de veículos sucateados, redução do intervalo entre as viagens e fiscalização das paradas de ônibus.

Os manifestantes também questionam o modelo de concessão do transporte coletivo e a relação da Prefeitura com as empresas responsáveis pela operação do sistema.

Professora critica contrato com empresas de ônibus

Durante a manifestação, Fabíola Lemos recebeu uma cópia do contrato entre a Prefeitura e as empresas concessionárias do transporte coletivo. A professora afirmou que o documento precisa ser analisado porque, na avaliação dela, os acordos não atendem às necessidades dos passageiros.

“A gente tem que analisar, porque aqui é muito blá blá blá, é muita conversa fiada, mas o que a gente está falando é de uma capital que não tem transporte público, que não tem ônibus”, afirmou.

Fabíola também criticou o que considera uma prioridade dada aos interesses econômicos das empresas em detrimento das necessidades dos usuários.

“O fato, minha gente, é que prevalece até hoje a lógica de não mexer com o lucro das empresas. Só que a população de Teresina não pode sair penalizada.”

A professora ressaltou ainda que muitos moradores precisam recorrer a transportes por aplicativo para conseguir chegar ao trabalho ou aos compromissos diários, comprometendo parte da renda familiar.

João Meirelles cobra respostas do prefeito

Após a conversa com o prefeito Sílvio Mendes, João Meirelles afirmou que o encontro não esclareceu os principais questionamentos apresentados pelo grupo. Segundo ele, o prefeito entregou uma cópia do contrato com as empresas e alegou que não seria possível encerrá-lo imediatamente.

“Hoje nós sabemos é que existe um problema, que o prefeito mais uma vez se esquivou de resolver e de responder o que nós queríamos de fato saber”, declarou.

O estudante também questionou as condições do documento apresentado pela gestão municipal.

“Um contrato falho, um contrato que não compreende e que não atende às demandas da população e que, segundo ele, não pode ser quebrado nesse momento”, afirmou.

De acordo com o relato de João, o prefeito informou que, futuramente, com o encerramento do contrato atual, a administração pretende buscar a rescisão da relação contratual e realizar novos procedimentos para atender às necessidades do sistema.

A Prefeitura de Teresina informou que recebeu sete jovens no gabinete do prefeito. Segundo a administração municipal, durante a reunião foram apresentados o histórico do Plano Diretor do Sistema Viário e de Transporte Coletivo, elaborado em 2008, uma cópia do contrato com as empresas e esclarecimentos sobre a licitação de até 120 ônibus, além de seis veículos para o Transporte Eficiente. A gestão também mencionou o processo para implantação de 500 novas paradas de ônibus e afirmou que respondeu aos questionamentos apresentados pelos participantes.

Promessa de novos ônibus e apenas dois veículos incorporados recentemente

A renovação da frota é uma das principais cobranças dos manifestantes. Em diferentes momentos, o prefeito anunciou projetos para ampliar a quantidade de veículos disponíveis na capital.

Em setembro de 2026, Sílvio Mendes anunciou uma licitação para aquisição de 96 ônibus novos e instalação de 500 paradas. Posteriormente, o planejamento municipal passou a mencionar aproximadamente 100 veículos.

A Prefeitura também contratou R$ 95 milhões em financiamento com a Caixa Econômica Federal, com contrapartida municipal de R$ 5 milhões, totalizando R$ 100 milhões para modernização e renovação da frota. O contrato foi assinado em 2 de outubro. Entretanto, a contratação do financiamento não significa que os veículos já tenham sido adquiridos. A liberação dos recursos depende das etapas de execução do investimento e da comprovação das compras.

Enquanto isso, em 27 de outubro, dois novos ônibus com ar-condicionado começaram a reforçar as linhas 301, que liga Mocambinho à Duque de Caxias, e 303, entre Mocambinho e Santa Sofia. Os veículos foram adquiridos pela empresa Transpremium, integrante do Consórcio Poty.

A chegada dos dois coletivos representa um reforço pontual, mas não corresponde à conclusão do projeto de renovação da frota anunciado pela administração municipal.

Crise no transporte público se arrasta desde 2017

A precariedade do transporte coletivo de Teresina não é um problema recente. A crise começou a ganhar proporções maiores em 2017, quando houve redução na quantidade de passageiros e queda na arrecadação das empresas, segundo o Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros de Teresina (Setut).

A situação se agravou a partir de 2019, com novos impasses entre empresários e trabalhadores, atrasos em pagamentos e sucessivas paralisações de motoristas e cobradores.

Com a pandemia da Covid-19, em 2020, o cenário piorou. A redução da circulação de pessoas provocou uma queda expressiva na demanda pelo serviço. O sistema chegou a passar por interrupções prolongadas, enquanto trabalhadores reivindicavam salários, benefícios e condições adequadas de trabalho.

Em 2021, as paralisações continuaram. Uma das greves daquele ano durou cerca de 36 dias, enquanto outra, iniciada em outubro, se estendeu por aproximadamente duas semanas. Os movimentos prejudicaram milhares de passageiros que dependiam dos coletivos para se deslocar pela cidade.

Um diagnóstico elaborado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em 2025, mostra a dimensão da redução da frota operacional. Em 2015, Teresina contava com 440 ônibus em operação. Em 2019, eram 416 veículos. Em 2021, durante a pandemia, o número caiu para 151. Em 2024, a frota havia se recuperado parcialmente, chegando a 232 ônibus.

Mesmo com a retomada de parte dos veículos, a oferta permaneceu distante dos níveis anteriores à crise. Em setembro de 2026, a Prefeitura informou que aproximadamente 213 ônibus estavam efetivamente circulando, segundo levantamento divulgado pelo setor.

A crise também foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de Teresina. O relatório produzido pelos vereadores recomendou a suspensão dos contratos com as empresas que operavam o sistema, diante dos problemas identificados.

Novas manifestações

Os jovens afirmam que não pretendem encerrar a mobilização após a reunião com o prefeito. João Meirelles anunciou que o grupo pretende realizar manifestações todas as segundas-feiras, em frente à Prefeitura, até que sejam apresentadas respostas concretas às reivindicações.

“Queremos solução. Ele sabe onde é a raiz do problema. Basta ele ir nessa raiz. E não se preocupe que nós não vamos desistir. Vamos para frente”, declarou.

A mobilização busca ampliar a participação de estudantes, trabalhadores e moradores no debate sobre a mobilidade urbana e pressionar a administração municipal por mudanças no transporte coletivo de Teresina.