Padre excomungado diz que foi advertido após críticas a rituais em igrejas

Sacerdote de Brasília, afastado da comunhão com Roma após aderir à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, diz ter sofrido represálias por críticas a celebrações que classificou como "rituais de macumba" em templos católicos

A excomunhão do padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa pelo Vaticano ganhou um novo capítulo após a divulgação de uma carta aberta dirigida aos católicos de Brasília. No documento de oito páginas, o sacerdote afirma que foi advertido pela Arquidiocese de Brasília depois de denunciar o que chamou de "rituais de macumba" realizados em igrejas católicas da capital federal. A declaração reacendeu o debate sobre disciplina eclesiástica, liberdade de manifestação de sacerdotes e os limites entre críticas litúrgicas e o respeito às diferentes tradições religiosas.

O religioso também sustenta que sofreu perseguição interna ao longo de seu ministério por defender posições consideradas mais tradicionais dentro da Igreja Católica. A Arquidiocese de Brasília, por sua vez, afirma que seu posicionamento oficial permanece o mesmo expresso na nota pastoral publicada após o decreto de excomunhão e não comentou especificamente as alegações apresentadas na carta.

O que motivou a excomunhão?

Ao contrário do que pode sugerir a repercussão nas redes sociais, a excomunhão não foi motivada pelas críticas feitas pelo padre aos supostos rituais. Segundo o Vaticano, a sanção canônica decorre da adesão do sacerdote à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo tradicionalista que entrou novamente em situação de cisma após promover, em 1º de julho de 2026, a consagração de quatro bispos sem autorização do papa. O Dicastério para a Doutrina da Fé classificou o ato como uma grave ruptura da comunhão com a Igreja Católica e decretou a excomunhão dos envolvidos.

A Arquidiocese de Brasília informou que, por ter aderido formalmente à Fraternidade desde abril de 2025, o padre Françoá passou automaticamente à condição de cismático com a publicação do decreto da Santa Sé. Também alertou que alguns sacramentos administrados por ministros da Fraternidade são considerados ilícitos ou inválidos segundo o Direito Canônico.

O conteúdo da carta aberta

Na carta, divulgada na quinta-feira (16), o sacerdote afirma que viveu mais de duas décadas de conflitos internos por defender a doutrina católica em sua forma tradicional. Entre os episódios relatados, ele afirma que, em setembro de 2022, publicou vídeos denunciando celebrações que, em sua avaliação, incorporavam elementos incompatíveis com a liturgia católica em uma paróquia de Sobradinho e na Catedral de Brasília. Segundo o padre, após a repercussão das imagens, recebeu determinação da Arquidiocese para retirar o conteúdo das redes sociais, o que diz ter feito naquele momento.

O sacerdote também afirma que foi removido de uma paróquia em 2024 após divergências litúrgicas e faz críticas à condução da Igreja no Brasil, mencionando ainda casos de abusos sexuais envolvendo membros do clero.

Arquidiocese mantém posição oficial

Em resposta à divulgação da carta, a Arquidiocese de Brasília informou que não faria comentários adicionais e reiterou que seu entendimento está expresso na nota pastoral publicada após a decisão da Santa Sé. No documento, a arquidiocese orienta os fiéis a não participarem regularmente das atividades promovidas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X, por considerar que elas ocorrem fora da plena comunhão com a Igreja Católica.

O que é a Fraternidade Sacerdotal São Pio X?

Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X tornou-se conhecida por defender a manutenção da liturgia anterior ao Concílio Vaticano II e por criticar diversas reformas promovidas pela Igreja Católica nas últimas décadas. As tensões entre Roma e a Fraternidade se intensificaram em diferentes momentos da história. Em julho de 2026, a crise voltou a ganhar destaque após a ordenação de quatro bispos sem mandato pontifício, ato considerado cismático pelo Vaticano e que resultou em novas excomunhões.

Debate vai além do caso individual

O episódio reacendeu discussões entre católicos sobre obediência ao papa, tradição litúrgica e os limites das divergências dentro da Igreja. Também trouxe à tona o uso da expressão "macumba", frequentemente empregada de forma genérica e, muitas vezes, pejorativa para se referir a religiões de matriz africana. Especialistas em estudos religiosos observam que o termo não representa adequadamente a diversidade de tradições como Candomblé e Umbanda e recomendam o uso de nomenclaturas específicas ao tratar desses credos.

Enquanto isso, o padre Françoá afirma que continuará exercendo seu ministério junto à Fraternidade São Pio X, apesar da sanção imposta pela Santa Sé, posição que permanece sem reconhecimento oficial da Igreja Católica.