São Paulo — O ato de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista, neste domingo (18), a uma semana do segundo turno, ficará marcado não pelo tamanho do público — estimado em 71,9 mil pessoas pelo Monitor do Debate Político da USP/Cebrap em parceria com a More in Common —, mas pelo absurdo de uma de suas “atrações”. Apoiadores do candidato levaram ao local um míssil inflável gigante com a inscrição em inglês “Trump nuke Brazil”, que, traduzida literalmente, significa “Trump, bombardeie o Brasil com armas nucleares” .
O episódio, denunciado nas redes sociais pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e pela também deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), escancara o que críticos do bolsonarismo vêm alertando há anos: sob a fantasia de um patriotismo de fachada, setores radicalizados do campo bolsonarista flertam abertamente com a destruição do próprio país e com a subserviência a potências estrangeiras.
A cena é ainda mais reveladora porque, antes dos discursos, a organização do evento — batizado de “Bloquinho do 22” — pediu que os apoiadores recolhessem bandeiras de outros países, como Estados Unidos e Israel, sob o argumento de que o ato representava “a nação brasileira” . Ou seja: tentou-se esconder a simbologia estrangeira, mas o pedido de bombardeio nuclear contra o Brasil foi mantido e exibido orgulosamente. Trata-se de um patriotismo de araque, que se veste com as cores nacionais enquanto roga pela destruição da própria população.
O que diz o objeto e o que ele revela
O termo “nuke”, segundo o dicionário Cambridge, significa “bombardear algum lugar com bombas nucleares” ou “destruir e eliminar algo completamente” . Não se trata de uma metáfora ambígua ou de uma piada de mau gosto isolada. O objeto foi levado ao ato, erguido diante de câmeras e compartilhado em redes sociais como parte da parafernália de campanha. É a materialização de um discurso que, se levado a sério, significaria a morte de milhões de brasileiros.
O que pensa a maioria dos brasileiros
É fundamental separar o episódio protagonizado por esse grupo radical do que pensa a imensa maioria da população brasileira. Nem mesmo a direita democrática — aquela que disputa eleições dentro das regras do jogo, respeita a soberania nacional e não flerta com a violência — se identifica com esse tipo de manifestação. O pedido de ataque nuclear contra o Brasil não encontra respaldo em nenhum segmento majoritário da sociedade, seja à esquerda, ao centro ou à direita.
Pesquisas recentes do Datafolha mostram que a disputa eleitoral segue acirrada, mas com o presidente Lula em vantagem entre segmentos decisivos, como mulheres chefes de família (54% a 37%) e católicos (53% a 41%) . Mais do que números, esses dados indicam que o eleitorado rejeita o extremismo e a retórica de destruição. A maioria dos brasileiros quer soberania, desenvolvimento e paz — não bombas.
Soberania nacional em risco
O ato deste domingo não é um fato isolado. Ele se soma a uma série de episódios em que apoiadores do bolsonarismo exibiram símbolos dos Estados Unidos e de Israel em manifestações na Paulista, incluindo no 7 de Setembro do ano passado, quando estenderam uma bandeira gigante americana em plena data da Independência do Brasil. A diferença é que, agora, o recado deixou de ser apenas simbólico e passou a ser explícito: querem que o Brasil seja tratado como colônia, e que sua população seja alvo de armas nucleares.
Flávio Bolsonaro, que discursou no ato prometendo “livrar o Brasil do PT” e dizendo que seu pai, Jair Bolsonaro, colocará a faixa presidencial nele , não se pronunciou sobre o míssil inflável até a publicação desta matéria. A omissão, diante de um objeto que pede a destruição do país, é tão eloquente quanto o próprio objeto.
O Brasil já está alerta contra esses apátridas que odeiam o povo brasileiro. A soberania nacional não é uma bandeira que se veste e se tira conforme a conveniência eleitoral. É um compromisso com a vida, com a dignidade e com o futuro de um país. Quem pede bomba contra o próprio território não merece o voto de ninguém.