A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira (7) uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes bilionárias do Banco Master, e, mais uma vez, os agentes federais bateram à porta do senador Ciro Nogueira (PP-PI). Não é novidade para o parlamentar piauiense a visita da PF em suas empresas e na sua casa.
Desta vez, porém, a investigação revela um nível de intimidade incomum entre o poder público e o crime financeiro. De acordo com as investigações autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Ciro Nogueira não é apenas mais um político no radar, mas sim o "destinatário central das vantagens indevidas" oriundas do esquema comandado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso na sede da PF em Brasília acusado de comandar a maior fraude bancária da história do país.
Com o avanço das investigações da Polícia Federal sobre o escândalo do Banco Master, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo de mandados de busca e apreensão na manhã desta quinta-feira (7). A ação, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), é o quinto desdobramento da Operação Compliance Zero e aprofunda os indícios de que o parlamentar mantinha uma relação financeira suspeita com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Os novos desdobramentos trazem à tona a engrenagem financeira que, segundo a PF, ajudava bancar o alto padrão de vida de políticos como Ciro Nogueira. Conversas obtidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelam a existência de uma "parceria" entre a empresa da família do banqueiro, a BRGD S.A, e uma empresa ligada ao senador, a CNLF Empreendimentos.
Os diálogos são explícitos. Em julho de 2024, Felipe Vorcaro, primo de Daniel, preso nesta quinta-feira, questiona o dono do banco: "Oi, é para continuar pagando a parceria brgd/cnlf? 300k mes?". A resposta de Daniel é lacônica e direta: "Sim" .
A "mensalidade" política, no entanto, não demorou a subir. Em junho de 2025, já sob pressão, Daniel Vorcaro aparece cobrando o primo: "Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?". A resposta de Felipe sugere um reajuste no contrato, subindo de R$ 300 mil para R$ 500 mil: "Vou ver se dou um jeito aqui.. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?".
Se o dinheiro corria solto, a investigação aponta que a contrapartida era igualmente cara. A Polícia Federal descobriu que Ciro Nogueira utilizou seu mandato para tentar salvar o Banco Master. Em agosto de 2024, o senador apresentou a Emenda nº 11 à PEC 65/2023, que propunha um aumento brutal no limite de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), passando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
A medida, se aprovada, seria um salva-vidas para Vorcaro, permitindo ao Banco Master, que estava à beira do colapso, atrair grandes investidores. Acontece que o texto da emenda, segundo a PF, não saiu da cabeça do senador. Ele foi redigido pela própria assessoria do Banco Master e entregue em um envelope na casa de Ciro Nogueira.
A prova do conluio está na reação do banqueiro. Após o protocolo da emenda, Daniel Vorcaro comemorou em mensagens obtidas pela PF, gabando-se de que a proposta "saiu exatamente como mandei", enquanto seus interlocutores projetavam que a medida "sextuplicaria" os negócios da instituição.
O histórico de investigações
O TOC, TOC da PF não é novidade para o senador do Piauí, que preside o Partido Progressistas (PP). Longe disso. Ciro Nogueira já havia sido alvo da Polícia Federal em 2018, 2019 e novamente agora em 2026.
· 2018 (Lava Jato): Durante a Operação Lava Jato, a PF cumpriu mandados no gabinete e na residência de Ciro Nogueira sob acusação de obstrução da justiça. Na ocasião, o senador foi acusado de tentar comprar o silêncio de uma testemunha.
· 2019 (Operação Compensação): A PF voltou à carga, realizando buscas em 22 endereços ligados ao senador. Delações da J&F apontaram que ele intermediou o repasse de R$ 43 milhões em propina ao PP. Na ocasião, a defesa, comandada pelo renomado advogado Antonio Carlos de Almeida Castro (Kakay), classificou a ação como "direito penal do espetáculo".
A despeito da reincidência e do volume de provas mencionado em cada operação, a trajetória de Ciro Nogueira nos tribunais superiores é marcada por um padrão que se repete: a absolvição ou o arquivamento dos casos.
Como mostra a análise do histórico do parlamentar, o STF rejeitou denúncias contra o senador em 2018 sob a alegação de falta de "justa causa" e de que as acusações se baseavam apenas em palavras de delatores sem provas materiais. Com bom trânsito entre ministros do STF, desembargadores e juízes, Ciro Nogueira viu as ações penais serem arquivadas ou eternizadas em inquéritos sem solução, mantendo-se imune e impune enquanto acumulava poder no Centrão e, posteriormente, na chefia da Casa Civil do governo Bolsonaro .
A delação que pode abalar
O contexto atual, no entanto, pode ser diferente. Diferente de 2018, onde as delações da Odebrecht e JBS eram a principal fonte de acusações, Daniel Vorcaro está, neste exato momento, em tratativas avançadas para fechar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.
Na véspera da operação desta quinta-feira, a defesa de Vorcaro entregou os anexos da proposta de delação. Caso o acordo seja homologado pelo ministro André Mendonça, o banqueiro poderá detalhar, com documentos e conversas, cada centavo das "mesadas" pagas aos "amigos", além de revelar outros políticos e autoridades que participavam do esquema.
A nova operação da PF, portanto, chega em um momento crítico. Enquanto agentes vasculhavam seus gabinetes e apreendiam computadores e celulares, a espada da delação de Daniel Vorcaro paira sobre a cabeça do senador, podendo, enfim, romper a blindagem histórica que sempre o protegeu das consequências de seus atos.
Versão da defesa de Ciro Nogueira
A defesa do senador Ciro Nogueira divulgou nota nesta quinta-feira (7) após a nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga suspeitas de corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro envolvendo o parlamentar e o Banco Master.
No comunicado, os advogados do senador negam qualquer irregularidade relacionada à atuação de Ciro Nogueira e afirmam que ele está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.
“A defesa do Senador Ciro Nogueira repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”, diz trecho da nota.
Os representantes jurídicos também afirmam que o senador não teve participação em atividades ilícitas ou nos fatos investigados pela Polícia Federal.
A nota ainda critica medidas investigativas consideradas “graves e invasivas”, alegando que elas teriam sido tomadas com base em troca de mensagens entre terceiros. Segundo a defesa, esse tipo de procedimento merece “reflexão e controle severo de legalidade” pelas Cortes Superiores.
O comunicado é assinado pelos advogados Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, Roberta Castro Queiroz, Marcelo Turbay, Liliane de Carvalho, Álvaro Chaves e Ananda França, do escritório Almeida Castro, Castro e Turbay Advogados.
Veja a nota:
A defesa do Senador Ciro Nogueira repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar.
Reitera o comprometimento do Senador em contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados, colocando-se à disposição para esclarecimentos.
Pondera, por fim, que medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve, assim como ocorreu com o uso indiscriminado de delações premiadas.
Antônio Carlos de Almeida Castro – Kakay -Roberta Castro Queiroz - Marcelo Turbay - Liliane de Carvalho - Álvaro Chaves - Ananda França
Almeida Castro, Castro e Turbay Advogado
ASSESSORIA JURÍDICA