Ser mãe é padecer no paraíso, dizia-se antigamente, no que hoje as pessoas compreendem como uma absoluta romantização do papel feminino na criação dos filhos e no peso da responsabilidade das mães de moldarem a personalidade e natureza dos filhos. Hoje, melhor que se enxergue o papel da mãe para muito além da maternidade, das dores do parto que se desdobram pela vida. Ser mãe é um trabalho, quase nunca percebido, quase nunca valorizado.
O cuidar materno se enxerga como obrigação de quem gestou e pariu – e isso faz com que sobre os ombros feminino recaia quase todo o peso que é a criação dos filhos. Muito embora os tempos tenham sido mudados por um recorrente processo de conscientização de que filhos são de mães e de pais, ainda é para as mulheres que recaem a carga maior de trabalho, de preocupações e de sacrifícios no demorado e fatigante processo de criação dos filhos.
Mulheres dormem menos, porque, entre outras coisas, amamentam, cuidam da saúde dos rebentos, preparam material e fardamento escolar e acordam cedo para seguir nessa faina. Assim, têm menos tempo para ocupar espaços no mercado de trabalho e são menos favorecidas na competição por espaços de mando no mundo corporativo.
Isso não é opinião, é estatística que por agora não se precisa citar, dada a facilidade com que podem ser buscados e obtidos dados acerca de quão são menores as chances de progresso profissional de mulheres com filhos, ou seja, de mães que também são trabalhadoras, acadêmicas, políticas ou líderes sociais e de opinião.
Em boa hora, fora dos círculos acadêmicos em que esse tema já é debatido, o trabalho da mulher no cuidar dos outros começa a ganhar corpo. Isso é bom porque pode levar, por exemplo, à categorização desse trabalho como plausível de medição física, ou seja, para o estabelecimento, por exemplo, de ganhos materiais em demandas judiciais ou para efeito de contagem de tempo para aposentadoria, como, aliás, já ocorre por uma lei na Argentina.
Tirar do campo da invisibilidade o trabalho da mulher mãe pode e deve, sim, ser um ponto fundamental em uma sociedade que historicamente nunca enxergou nessas ações o que elas realmente são: mecanismo de melhor qualificação das pessoas. Imaginemos um mundo com mães diletantes? Seria certamente um mundo distópico, com a degradação humana pela ausência desse poderoso amálgama a unir as famílias em todas as suas configurações, a figura materna.
Haverá sempre aqueles a considerem uma tendência a não reconhecer o cuidar materno como um trabalho a ser reconhecido de modo legal e material. É um direito de pensar diferente, só que isso requer que se apresentem boas razões e ainda melhores argumentos para contrapor a ideia de essencialidade desse trabalho para constituir um mundo com pessoas melhores, mais bem formadas, com valores firmes, capacidade e empatia.
Neste sentido, sempre devemos lembrar que o reconhecimento do trabalho da mulher mãe não se pode tomar como uma inovação, embora seja, sim, um avanço civilizatório. Isso porque vem de longe, de muitas culturas anteriores à nossa, a ideia de imprescindibilidade da mãe como pilar social indispensável. Uma evidência disso é o milenar ditado judaico segundo o qual, Deus não pode estar em todos os lugares, por isso criou às mães. Ou seja, o povo que criou a ideia de Deus único colocou as mães no mesmo patamar de importância de uma divindade única.