A Língua Portuguesa do Brasil

O modo brasileiro de falar, porém, vai se impondo mesmo em Portugal, numa inversão do caminho linguístico, que antes cruzou o Atlântico para assentar-se no Brasil

Entre as centenas de efemérides, temos, em 5 de maio, o Dia Internacional da Língua Portuguesa e da Cultura Lusófona, que poderia e deveria ser mais lembrado, sobretudo, como ponto de debate e reflexão sobre o idioma comum a países situados em cinco continentes, mas, também, por eles terem em comum um tronco linguístico a lhes unir.

Imaginemos o falar lusófono em transformação, a ponto de o português falado no Brasil ser agora considerado a língua brasileira – embora sob o ponto de vista científico não se possa assim definir o falar português no Brasil como idioma próprio ou pátrio de nosso país, e sim uma variante única do português, dito adequadamente de português brasileiro.

O modo brasileiro de falar, porém, vai se impondo mesmo em Portugal, numa inversão do caminho linguístico, que antes cruzou o Atlântico para assentar-se no Brasil entre os séculos XVI e XIX. Agora, navegando pela internet, o português do Brasil vai se cristalizando no falar das novas gerações portuguesas, a ponto de isso ter-se transformado em preocupação naquele país europeu – em muitas situações, também uma desculpa para a xenofobia.

O que tem acontecido com frequência é que o crescente consumo de produtos de entretenimento feitos no Brasil por emissoras de TVs, plataformas de streamings, "youtubers" e "tiktokers" tem alterado o modo de falar de crianças e adolescentes. Há quem pregue que a “invasão brasileira” põe em risco a cultura lusófona original portuguesa, um exagero que ignora a língua como elemento em permanente mudança.

Há ainda, na refutação a lusofonia brasileira, uma ignorância histórica, pois a língua portuguesa originariamente falada em Portugal é hoje citada não como originada diretamente do Latim, mas uma evolução do idioma galego. Outro aspecto é o de que a língua portuguesa tem uma gigantesca influência de vocábulos derivados do árabe, posto que durante sete séculos os mouros ocuparam a Península Ibérica, deixando na língua uma das marcas mais profundas dessa ocupação. Estima-se em mais de 1,5 mil palavras de origem árabes existentes no idioma de Camões.

O falar português do Brasil “invadir” Portugal, com efeito, numa ação bem mais rápida que a lenta imbricação da filologia árabe no mundo lusitano, não pode ser tomado como ameaça. Trata-se da dinâmica da língua, cuja transformação é praticamente impossível de ser contida. Tanto é assim que um texto português do século XV até poderá ser lido por uma pessoa do século XXI, mas somente será compreendido por um elemento que domine as informações pertinentes ao modo de falar e escrever de 600 anos atrás.

O Brasil que agora “invade” Portugal – e não apenas com seu modo de falar – é o país que viu seu enorme território ser ocupado pelos lusitanos ao longo dos séculos XVI até XIX, que no começo do século XIX sequer falava língua portuguesa, mas sim a “língua geral”, um idioma provisório com elementos do português e dos dois principais troncos linguísticos dos povos indígenas, o tupi e o guarani. Então, isso pode até ser reconfortante, porque o colonizador que antes impôs sua língua como mecanismo de poder, vê-se agora “ameaçado” nesse poder pela língua da antiga colônia.

Esse “idioma brasileiro”, variação única da língua portuguesa, resulta do encontro das oralidades vindas de uma base linguística imposta (daí sua prevalência), com as centenas de línguas indígenas reunidas nos troncos linguísticos tupi e macro-jê e as línguas africanas, dos grupos bantu e iorubá. Uma diversidade que em vez de condenar a cultura lusófona, como querem fazer crer os xenófobos, a salva da morte certa, porque faz do português língua permanentemente viva.