Racismo mata corpos e apaga saberes das pessoas negras, diz doutoranda em filosofia

Palloma Valéria Maced participou do podcast Mulher Mais, transmitido ao vivo na quinta-feira (14) no canal do Portal Piauí Hoje no YouTube.

A doutoranda em Filosofia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Palloma Valéria Macedo, discutiu a resistência intelectual das mulheres negras na academia e destacou como o racismo estrutural ainda impacta a produção de conhecimento no Brasil.

Ela participou do podcast Mulher Mais, transmitido ao vivo na quinta-feira (14) no canal do Portal Piauí Hoje no YouTube

Palloma Valéria Macedo e apresentadoras Natalia Costa e Ozeli Santos | Foto: Piauí Hoje

Natural do Sul do Piauí, a pesquisadora compartilhou sua trajetória acadêmica marcada por desafios financeiros, perdas familiares e superação. A filósofa saiu do interior do estado ainda adolescente em busca de oportunidades educacionais e hoje ocupa um espaço de destaque na pós-graduação da UFPI.

“O espaço da filosofia da mulher que nós ocupamos hoje é um espaço que vem de resistência e também de muita invisibilidade, infelizmente”, afirmou.

A pesquisadora contou que veio para Teresina aos 14 anos para estudar e relembrou as dificuldades enfrentadas ao longo da caminhada acadêmica, especialmente após a morte do pai, período em que precisou se reinventar para concluir a graduação e seguir na pós-graduação.

Eu tive que me virar mesmo para conseguir terminar os estudos. Finalizei a graduação em 2022, passei direto para o mestrado e concluí em 2025. Hoje já estou no doutorado.

Durante a conversa, a doutoranda também destacou a importância da filosofia como ferramenta de reflexão crítica e transformação social. Segundo ela, a área vai além do pensamento abstrato e está diretamente ligada às desigualdades presentes na sociedade.

“A filosofia é o básico para qualquer sociedade, tanto pela reflexão crítica quanto por trazer problemas que muitas vezes passam despercebidos pelo senso comum”, explicou.

Racismo estrutural e epistemicídio

Um dos principais pontos debatidos no podcast foi o conceito de epistemicídio, termo utilizado para explicar o apagamento histórico dos saberes produzidos por pessoas negras.

A pesquisadora afirmou que seu campo de pesquisa é voltado para filosofia, gênero e racismo, abordando as desigualdades enfrentadas por mulheres negras dentro da academia e da produção científica.

Palloma Valéria Macedo e apresentadoras Natalia Costa e Ozeli Santos | Foto: Piauí Hoje

Ao citar a filósofa Sueli Carneiro, ela explicou que o racismo não elimina apenas corpos, mas também conhecimentos, memórias e produções intelectuais.

O racismo não mata apenas corpos, mas também os saberes de pessoas que foram marginalizadas historicamente.

Segundo a pesquisadora, existe uma estrutura histórica que coloca o homem branco europeu como detentor legítimo do conhecimento, enquanto intelectuais negros são frequentemente invisibilizados.

“A pessoa negra é colocada como alguém incapaz de produzir conhecimento, incapaz de pensar por si própria. Isso foi construído historicamente e ainda se reproduz de forma muito sutil”, afirmou.

Palloma também chamou atenção para os dados relacionados à presença de mulheres negras na pós-graduação brasileira.

“Menos de 0,5% das mulheres negras possuem bolsa de pós-graduação e cerca de apenas 1% têm doutorado no Brasil. Isso mostra o epistemicídio acontecendo na prática”, pontuou.

Desafios dentro da academia

Durante o bate-papo, a doutoranda revelou que já precisou provar diversas vezes sua capacidade intelectual dentro do ambiente acadêmico.

O descrédito intelectual é uma questão rotineira nas nossas vidas dentro da academia. Muitas vezes nós somos silenciadas ou interrompidas constantemente.

Ela também falou sobre como mulheres negras ainda enfrentam dificuldades para ocupar espaços de fala na filosofia, área historicamente dominada por homens.

“Quando nós falamos sobre gênero e racismo, muitas vezes somos vistas como ‘as chatas feministas’. Mas são problemas reais que acontecem diariamente”, afirmou.

Ao longo da entrevista, a pesquisadora citou importantes intelectuais negras brasileiras, como Lélia Gonzalez e Djamila Ribeiro, além da filósofa norte-americana Angela Davis, como referências fundamentais para a construção de uma filosofia mais plural e inclusiva.

“Resistir é pensar”

Ao final do podcast, Palloma deixou uma mensagem para jovens negras que desejam ocupar espaços acadêmicos.

Por mais difícil que seja, não é impossível chegar até aqui. Você só precisa dar o primeiro passo. Depois vem o segundo, o terceiro e assim por diante.

Questionada sobre o significado de resistência intelectual, a pesquisadora resumiu: “Resistir é pensar.”

Assista o episódio completo: