Em um momento em que o debate sobre o papel das elites regionais volta à tona no Brasil, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, recorreu a um conceito que se tornou símbolo da crítica sociológica nacional para reagir às investidas da oposição: a “elite do atraso”. A expressão, cunhada pelo sociólogo Jessé Souza, descreve setores dominantes que, mesmo após o fim da escravidão e do período colonial, preservaram valores predatórios e usam o Estado como instrumento de proteção a privilégios privados e corporativos, em detrimento do bem-estar coletivo.
Essa definição “cai como uma luva” em parte significativa da chamada “elite piauiense”. Durante entrevista ao portal Piauí Hoje na quinta-feira (21/05), Rafael Fonteles afirmou que há um segmento da sociedade local que “torce e trabalha contra o Estado” e “quer que a gente fique no atraso”.
Mas o governador diz que não muda seu modo de governar por causa dessa parte da elite do Piauí porque, segundo ele, são "absolutamente insignificantes para um governo como nós, que acredita no potencial do Piauí e do povo do Piauí".
A declaração do governador foi motivada por um conjunto de críticas recorrentes da oposição, concentradas em quatro pontos principais: viagens internacionais do governador, operações de crédito do estado, a obra do Porto de Luís Correia, no litoral piauiense, e o inexistente “imposto da água e do sol”, uma referência a taxas sobre uso de poços artesianos e energia solar.
Diante dessas criticas, Rafael Fonteles não hesita em classificar parte delas como fruto de “desinformação”, “mentiras propositais”, ou mesmo “limitação intelectual”, declaração que causa impacto nos meios políticos e redes sociais.
“Às vezes, alguns desses temas são tratados ou com desinformação ou com mentiras propositais mesmo, fake news propositais. Mas, em outras vezes, não é desinformação e nem mentira: é limitação intelectual mesmo”, disse o governador.
Missões produtivas e não turismo
Em defesa das 16 missões internacionais realizadas desde o início do mandato, Fonteles explicou que elas têm dois pilares: atrair investimentos e firmar cooperações em educação e tecnologia.
“Se o Piauí não for conhecido, se ele ficar no meio desse continente Brasil, com muita concorrência, ele não vai ser visto pelos investidores”, argumentou.
Ele citou exemplos concretos, como a vinda de empresas europeias e chinesas do setor de energias renováveis — a CGD, por exemplo, dobrou investimentos no estado após encontros na China. Além disso, destacou o programa “Piauí para o mundo”, que enviou estudantes da rede pública para instituições na China, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Espanha e Cingapura.
“Quem acompanha minha agenda lá sabe. Eu faço questão de colocar tudo na internet, tanto nos stories quanto nos feed, para a população acompanhar cada reunião que eu faço. São 15 agendas, às vezes no mesmo dia”, afirmou.
Empréstimos: contas em dia
Sobre as operações de crédito, Fonteles comparou o financiamento público à compra de uma casa própria: ninguém poupa 30 anos para pagar à vista; financia-se e usufrui-se logo do bem.
“Nós queremos a estrada, a escola, o hospital de boa qualidade, e é para isso que recorremos às operações de crédito, para não esperar 30 anos para ter isso que podemos ter agora”, disse.
O governador ressaltou que o Tesouro Nacional atesta a saúde fiscal do Piauí. Segundo ele, o estado não deve nada à União, diferentemente de estados como São Paulo (R$ 300 bilhões), Minas Gerais (R$ 185 bilhões) e Rio de Janeiro (R$ 203 bilhões). O endividamento piauiense é de 15% do PIB estadual, índice considerado baixo, com rating B+.
“O povo quer a rodovia boa agora, o asfalto na sua rua agora, a escola boa agora, o hospital bom agora. Então tudo isso é muito importante para o bem da população”, completou o governador.
Porto de Luís Correia: 110 anos de espera e uma realidade que incomoda
Um dos alvos preferenciais das críticas da oposição é o Porto de Luís Correia, projeto com mais de um século de promessas. Rafael Fonteles garantiu que o empreendimento já é uma realidade, com obras em andamento nos terminais de fertilizantes, minério de ferro e contêineres.
“Já desmistificamos a questão da profundidade. Já vamos ter a primeira operação de exportação de minério de ferro do Piauí pelo Porto do Piauí. Imagina a virada de chave que isso vai significar no imaginário coletivo do povo piauiense, que sempre ficou desacreditado”, celebrou.
Ele lembrou que, até agora, 31 navios com minério de ferro produzido em Piripiri foram exportados pelo Porto do Pecém (CE). Agora, a exportação será feita pelo próprio estado.
Fonteles ainda anunciou a revitalização do Rio Parnaíba com investimento de R$ 1 bilhão, para torná-lo navegável comercialmente, algo que, segundo ele, trará de volta a prosperidade de cidades como Parnaíba, que no passado tinha conexão direta com a Inglaterra.
“O rio Parnaíba é o principal elemento natural da identidade do Piauí. Ele voltar a ser navegável do ponto de vista comercial é fundamental para o desenvolvimento”, afirmou.
“Imposto da água e do sol”: a fake news que não morre
Sobre a acusação de criação de um “imposto da água e do sol”, Fonteles foi incisivo:
“É muito fácil explicar porque nunca teve nenhuma cobrança da água. Não há cobrança, nunca vai haver cobrança de taxa de uso da água de poços. Isso é uma mentira deslavada. Uma fake news total.”
Quanto à energia solar, ele esclareceu: a cobrança pelo uso da rede elétrica para quem tem placa solar foi criada por uma lei federal de 2022, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro (Lei 14.300). O Piauí, segundo o governador, já deu a máxima isenção possível no ICMS, dentro das regras do Confaz.
“Nós queremos derrubar essa lei. Tanto é que a bancada federal do Piauí, a meu pedido, protocolou uma lei revogando essa lei do Bolsonaro”, afirmou.
Ao final da entrevista, Rafael Fonteles ficou claro que o embate não é meramente técnico ou orçamentário. Para ele, o que está em jogo é um conflito de visões de estado e sociedade. A “elite do atraso” piauiense, herdeira de um passado escravocrata e coronelista, vê na máquina pública apenas um balcão de privilégios.
Enquanto isso, a aposta do governo é no desenvolvimento estruturante, na atração de investimentos e na qualificação de jovens da escola pública. A pergunta que fica é: o Piauí conseguirá romper as amarras do atraso impostas por sua própria elite? Para Rafael Fonteles, a resposta é um sonoro sim. E ele diz que os críticos “insignificantes” não serão obstáculo.
Na verdade, o que as elites querem mesmo é a perpetuação de uma estrutura econômica que concentra renda e marginaliza grandes parcelas da população, criando o que pensadores e estudiosos batizaram de ‘ralé’ ou subcidadãos”.
A entrevista
A seguir, a íntegra da entrevista do governador Rafael Fonteles ao jornalista Luiz Brandão.