A menos de seis meses das eleições de outubro de 2026, o cenário político no Piauí apresenta um desafio inédito para candidatos e estratégias de campanha. Dados de pesquisas recentes apontam que entre 70% e 75% do eleitorado ainda não sabe em quem votar para deputado estadual. Para deputado federal, o índice de indefinição é ainda maior, chegando a aproximadamente 80%.
Pesquisa do Instituto Amostragem, realizada entre 23 e 27 de março de 2026 com 1.137 eleitores e registrada no TRE-PI sob o número PI-00022/2026, confirma a pulverização da disputa.
No cenário espontâneo, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, nenhum pré-candidato a deputado estadual ultrapassa 2% das intenções de voto, o que evidencia o baixo nível de consolidação eleitoral.
O peso das redes sociais
Diante desse cenário de indefinição, candidatos e partidos estão preparando estratégias agressivas para atrair o eleitor. Além das tradicionais visitas a municípios, reuniões com lideranças comunitárias e o apoio de líderes políticos consolidados, a grande aposta para 2026 será a comunicação digital, especialmente as redes sociais.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que as eleições deste ano devem consolidar um modelo em que a viralização é tão estratégica quanto ou até mais importante do que a apresentação de propostas.
“O marketing eleitoral viverá seu momento mais intenso em 2026, impulsionado pelo avanço da inteligência artificial, que deve ser usada tanto no monitoramento de redes e na análise de tendências do eleitorado quanto na interação automatizada por meio de chatbots”, avalia Guto Araújo, secretário-geral do Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP) .
TikTok, cortes de vídeo e a “indústria da viralização”
O TikTok se consolida como uma das principais plataformas de comunicação política no mundo, e o Brasil não foge à regra. Nas eleições de 2022, diversos candidatos — de presidenciáveis a vereadores — utilizaram a rede para humanizar campanhas e viralizar discursos.
“No TikTok, qualquer vídeo pode viralizar, independentemente do tamanho do perfil. A plataforma coloca o conteúdo na frente do criador, e isso permite que pautas políticas cheguem a públicos que normalmente não seguiriam perfis de políticos ou veículos de comunicação”, explica Paulo Pontes, expert em marketing eleitoral digital.
A estratégia envolve desde vídeos curtos de até 30 segundos com recados diretos até a participação em trends e o uso de hashtags específicas para engajar públicos segmentados. Os partidos também passaram a investir em equipes dedicadas exclusivamente à produção de conteúdo para o TikTok, reconhecendo seu poder de viralização.
Uma tendência que ganha força em 2026 é a “industrialização dos cortes de vídeo” — estratégia amplamente utilizada por produtores musicais e influenciadores, agora adotada pela política. A repetição do conteúdo em centenas ou milhares de canais próprios e de terceiros força o algoritmo a tratar determinada pessoa ou tema como relevante.
“A repetição cria a sensação de presença constante, reduz a percepção de rejeição e impõe relevância. O algoritmo não interpreta intenção política. Ele reage a volume, recorrência e engajamento”, explica o estrategista Zuza Nacif.
Inteligência Artificial e a corrida tecnológica
Partidos de todo o espectro político estão de olho na inteligência artificial como ferramenta de campanha. O PT, por exemplo, realizou em outubro de 2025 um seminário com representantes da Meta, TikTok, Google, YouTube e Kwai para fortalecer sua presença digital para as eleições de 2026.
O partido já utiliza IA na produção de conteúdo para redes sociais, apostando em vídeos curtos e chamativos com potencial de viralizar. “Precisamos arriscar, ser ousados, perder o medo de errar e inovar na estética, na linguagem e no discurso”, afirmou Éden Valadares, secretário de Comunicação do PT, ao assumir o cargo.
No entanto, o uso da tecnologia também traz riscos. Especialistas alertam que a IA pode facilitar a propagação de deepfakes e levantar preocupações sérias sobre privacidade e manipulação de dados.
A organização como fator decisivo
Em um cenário de alto índice de indecisos, a organização da campanha será um diferencial competitivo. Não basta apenas produzir conteúdo; é preciso saber direcioná-lo, monitorar resultados e ajustar rotas rapidamente.
“O sucesso nas urnas em 2026 dependerá diretamente da capacidade de antecipação e planejamento das campanhas. Quem começar agora a estruturar sua comunicação digital terá vantagem. As redes serão, mais do que nunca, o campo decisivo dessa batalha”, dizem os especialistas.
Eles também destacam que o horário eleitoral gratuito na TV e no rádio ainda tem relevância, especialmente para eleitores com mais de 35 anos e das classes D e E. Mas o consenso é que o equilíbrio entre os canais é fundamental. “Apostar só no digital é um erro. O sucesso está em integrar todas as frentes de maneira inteligente”, afirmam.
O primeiro turno das eleições de 2026 está marcado para o dia 4 de outubro. Com mais de 80% dos eleitores ainda indecisos em algumas categorias, a corrida promete ser uma das mais imprevisíveis e disputadas da história recente do Piauí.