Ciro Nogueira fala em perseguição, mas operações da PF contra ele partiram dos "amigos"

Senador diz ser vítima de "lawfare", mas todas as vezes em que foi alvo da PF as investigações partiram de "amigos" e colegas, desde Temer a Bolsonaro, passando por Moro e André Mendonça

Em sua defesa no escândalo do Banco Master, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tem repetido em todo canto que é vítima de perseguição política. A alegação, à primeira vista, serve como cortina de fumaça para as acusações graves que pesam contra ele, entre elas a de receber mesadas de até R$ 500 mil do banqueiro Daniel Vorcaro para atuar em prol da instituição financeira no Congresso.

Contudo, uma análise factual e cronológica das investigações contra o presidente nacional do PP revela uma ironia e contradição constrangedoras para o parlamentar: se há perseguição, ela só pode estar vindo de seus próprios amigos e aliados. 

A tese de que o governo Lula ou o “sistema” estariam mancomunados contra ele desmorona diante de um dado simples e incontestável: todas as grandes operações da Polícia Federal que atingiram Ciro Nogueira foram autorizadas ou ocorreram sob a égide de governos e ministros que ele ajudou a sustentar ou indicar para o cargo.

Ciro Nogueira alega perseguição em 2026, mas o histórico demonstra que o desconforto com a lei não começou agora. Em 2018, durante a Operação Lava Jato, Ciro foi alvo de buscas em seu gabinete e residência sob acusação de obstrução da justiça. Quem assinou as ordens? O então juiz Sérgio Moro, hoje senador e colega de Ciro na oposição a Lula. Na época, o governo federal era comandado por Michel Temer, descrito pelo próprio senador como “amigo de longas datas” dos tempos de Câmara dos Deputados.

Em 2019, já no governo de Jair Bolsonaro, Ciro foi alvo da Operação Compensação, que apontou em delações da J&F o pagamento de R$ 43 milhões em propina ao PP. A PF voltou a bater à sua porta. Na ocasião, Bolsonaro já era presidente, e Ciro Nogueira já visto como um aliado estratégico e viria a ser ministro da Casa Civil de Bolsonaro meses depois.

Chegamos, estão, a 2026 e ao episódio mais emblemático que enterra a narrativa da “perseguição política”. A mais recente batida da PF contra o senador foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Mendonça não é petista: foi indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro, com o apoio entusiástico do grupo político de Ciro Nogueira no Senado. A ordem partiu da “caneta de Mendonça”, que não apenas é terrivelmente evangélica, mas uma criatura política da extrema-direita.

Em sua canetada, o ministro André Mendonça foi além do óbvio ao afirmar que os elementos colhidos indicam “um arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos, extrapolando relações de mera amizade”. Ou seja, o amigo do rei é quem o estaria perseguindo.

O "BolsoMaster” e o silêncio dos inocentes

Se a perseguição política a que o senador se queixa partisse do governo Lula, por que o próprio Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e líder da oposição, classificou os fatos como “graves” e disse confiar na relatoria de André Mendonça? A resposta é simples: antes de ser uma vítima, Ciro Nogueira se tornou um problema para a direita.

Basta lembrar que, em 2025, Flávio Bolsonaro afirmou que Ciro Nogueira tinha “todas as credenciais” para ser seu vice na chapa presidencial. Hoje, com a Operação Compliance Zero expondo a promiscuidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, o mesmo Flávio trata o caso com pinças e quer ficar à distância, pelo menos enquanto o escândalo não chega nele. Aliados do ex-presidente já se referem a Ciro como “aliado circunstancial”.

A tentativa de rotular a investigação como “lawfare” ou perseguição é uma tentativa desesperada de descolar sua imagem do chamado “BolsoMaster”, termo cunhado pelo governo para associar o escândalo ao coração do bolsonarismo. No entanto, os fatos são teimosos: as investigações mostram que Ciro apresentou emendas que beneficiariam o Master, redigidas pela própria assessoria do banco.

O senador Ciro Nogueira tem todo o direito de se defender das acusações do "BolsoMaster". O que não se sustenta é o argumento de perseguição política. A fragilidade dessa tese fica exposta quando se verifica que as investigações partiram em governos de amigos como Temer e Bolsonaro e de colegas de ministério, como Sérgio Moro e André Mendonça.

O que está muito claro é que Ciro não está sendo perseguido por inimigos. Está sendo julgado por seus pares. E, diante das evidências de mensagens, repasses de valores e imóveis disponibilizados por Vorcaro, a justiça está agindo. Não há “partido” mandando prender; há provas mandando investigar. 

O discurso da perseguição parece apenas uma tentativa de esconder a verdade mais desconfortável para o presidente do PP: no caso Banco Master, Ciro Nogueira é investigado não por ser oposição, mas porque, parafraseando seu aliado Júlio Arcoverde, talvez ele realmente não seja “o rei da honestidade”.

A tese da perseguição é frágil diante das evidências apresentadas pela Polícia Federal: mensagens, repasses, imóveis, emendas sob medida. O que está em curso não é uma caça às bruxas. É o funcionamento das instituições, que mesmo com todas as suas imperfeições, estão alcançando gente que, até ontem, se considerava intocável.

Ciro Nogueira pode não ser culpado e isso o devido processo legal dirá. Mas perseguido, certamente não é.