Áudio para Vorcaro expõe elo de Flávio Bolsonaro com maior fraude bancária do país

Senador do PL é flagrado cobrando R$ 134 milhões do banqueiro do Master para financiar filme sobre o pai; para equipe de marketing, omissão do caso agrava crise e impacta nas pesquisas

A revelação do áudio no qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobra R$ 134 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro atingiu em cheio a pré-campanha do parlamentar à Presidência da República. O conteúdo, publicado pelo site Intercept Brasil nesta quarta-feira (13/05), vai além da exposição de um negócio milionário: ele conecta diretamente uma das principais figuras do bolsonarismo ao maior esquema de fraude do sistema financeiro nacional.

A gravação, enviada por Flávio a Vorcaro em 8 de setembro de 2025, flagra o senador em um momento de constrangimento e urgência. Ele admite estar "sem graça" por ter que cobrar o banqueiro, mas justifica a pressão por causa do "momento muito decisivo" do filme "Dark Horse". O receio do parlamentar era explícito: dar um "calote" em astros de Hollywood como Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, uns caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou o senador no áudio, demonstrando a dependência do fluxo de dinheiro vindo das contas do banqueiro .

A ligação perigosa com o "sistema Master"

O impacto político do vazamento reside na associação direta entre a família Bolsonaro e Daniel Vorcaro, preso na Operação Compliance Zero da Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, um dia após a última mensagem enviada por Flávio ao banqueiro. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central no dia seguinte, em um escândalo que envolve rombo bilionário e a tentativa de um golpe de R$ 47 bilhões contra o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) .

Os documentos obtidos pelo Intercept mostram que a relação entre os dois começou em dezembro de 2024, mediada por um empresário. Entre fevereiro e maio de 2025, pelo menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) teriam sido transferidos para o fundo "Havengate Development Fund LP", no Texas (EUA), controlado por aliados do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

Embora Flávio tenha admitido o pedido publicamente, classificando a operação como "patrocínio privado para um filme privado, sem dinheiro público", a estratégia de marketing da campanha foi pega de surpresa. Integrantes da equipe, ouvidos sob reserva pela revista Veja, demonstraram irritação com o fato de o pré-candidato não ter avisado sobre a existência do áudio.

“Não houve tempo de construir uma narrativa de contenção”, relatou um dos coordenadores. A avaliação interna é de que, se Flávio tivesse gravado um vídeo explicativo assim que soubesse da iminente publicação, o estrago poderia ser menor. Em vez disso, a campanha passou o dia apagando incêndios, culminando em uma reunião emergencial convocada para esta quarta-feira com a presença do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.

O "estrondo" nas pesquisas

Com a eleição presidencial se aproximando e o filme "Dark Horse" com estreia marcada para 11 de setembro, em pleno período eleitoral, o timing do vazamento é visto por analistas como catastrófico para a imagem de Flávio.

A oposição já se movimenta para explorar o caso. O Partido dos Trabalhadores (PT) usou suas redes sociais para ordenar que a militância “compartilhe ao máximo” o áudio, buscando consolidar na opinião pública a imagem de que o bolsonarismo esteve umbilicalmente ligado ao esquema de corrupção do Banco Master. O próprio Flávio tentou reagir pedindo a instalação de uma CPI para “separar os inocentes dos bandidos”, mas o discurso foi ofuscado pelo teor da conversa.

Nos bastidores, a certeza é unânime: o áudio não sairá da roda de discussão política tão cedo. A equipe de Flávio trabalha com a previsão de que o caso terá impacto direto nas próximas pesquisas de intenção de votos, deteriorando um eleitorado que já via com ressalvas a associação do nome de Flávio Bolsonaro a escândalos financeiros desde os dias das "rachadinhas" na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

O que está em jogo

Além do desgaste eleitoral, a revelação levanta questões jurídicas. A Procuradoria-Geral da República ainda não se manifestou sobre o conteúdo das conversas, mas a Polícia Federal já tem acesso integral ao material, que foi compartilhado com a defesa de Vorcaro em fevereiro por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto isso, o filme "Dark Horse", que deveria ser uma vitrine para a biografia do ex-presidente, atualmente preso em prisão domiciliar, transformou-se em um "filme amaldiçoado" para o clã, servindo como prova documental de um relacionamento incômodo com o crime financeiro.

A conversa 

Ouça a conversa de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro sobre pagar de patrocínio.