Saúde

Piauí quer sair do incômodo primeiro lugar em suicídio

Foram 152 casos em 2016, com a taxa de 7,6 mortes por 100 mil habitantes
Fonte: Paulo Pincel | Editor: Alinny Maria 30/09/2017 07:15
Palestra sobre suicídio Palestra sobre suicídioFoto: Assessoria

A palavra “suicídio” - do latim “sui”: próprio e “caedere”: matar - é, por si só, apavorante. Todos temos medo até de pronunciar, de falar sobre. Quando se juntam ao termo os números de ocorrências registradas no ano passado no Piauí, a situação se torna aterradora.

Infelizmente, o Piauí detém a primeira colocação do país em número de ocorrências. Foram 152 mortes em 2016, com a taxa de 7,6 mortes por 100 mil habitantes. No Brasil, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 - um aumento de quase 10%.

A depressão, abuso de drogas e álcool, além das questões interpessoais - violência sexual, abusos, violência doméstica e bullying – estão entre as principais causas dessa “doença”.

Para debater o suicídio, os sinais e as formas de prevenção, o Serviço Social da Fundação Piauí Previdência realizou na manhã de sexta-feira (29), no auditório da Secretaria de Estado da Administração e Previdência, a palestra com a psicóloga Ana Moema Arraes Soares.

O secretário de Administração, Franzé Silva, participou da abertura do evento, quando destacou as ações do Governo do Estado para diminuir o número de casos de autodestruição, inclusive o lançamento do Plano Estadual de Prevenção ao Suicídio e o Seminário Estadual de Prevenção e Posvenção ao Suicídio, realizado nos dias 24 e 25 de agosto, no auditório da Associação Piauiense de Municípios.

O diretor Administrativo e Financeiro da Fundação Piauí Previdência, Rodrigo Ribeiro Cavalcante, representou o presidente Marcos Steiner Mesquita na palestra, que contou com a participação de servidores de várias secretarias de Estado.

O Plano

O Plano Estadual de Prevenção ao Suicídio prevê a implantação de fluxos e protocolos de acolhimento e manejo de pessoas que tentaram suicídio para as redes de atenção à saúde (SUS), educação, segurança e socioassistencial (Suas), com a qualificação dos profissionais que atuam nessas redes e demais atores intersetoriais que atuam diretamente na rede de cuidados às vítimas dessa doença.

Será disponibilizado um sistema de hotline, com atendimento em telemedicina para assistência psiquiátrica pelo Samu. A assistência será ampliada para todo o Piauí com a implantação de leitos psicossociais nos hospitais gerais de Picos, Floriano, Parnaíba, Oeiras e mais leitos em Teresina.

Campanhas educativas serão realizadas para conscientização da população em geral, dispondo de cartilhas com número de telefone e endereços de toda a rede assistencial do Estado, direcionamentos e explicações de como agir em certas situações. As campanhas também visam esclarecer sobre depressão e comportamentos autolesivos, ainda muito estigmatizados pela sociedade.

Seminário

Já o seminário teve como público alvo gestores e profissionais de Saúde, Assistência Social, Educação, Justiça e Controle Social, que debateram com especialistas de outros estados a valorização da vida na prevenção ao suicídio, transtornos mentais, uso de drogas e suicídio das populações LGBT e negra, o comportamento autodestrutivo no contexto escolar, dentre outras questões relacionadas ao tema.

As principais causas do suicídio, segundo especialistas:

1) Solidão

Uma das queixas mais recorrentes na tentativa de suicídio é a solidão. O sentimento de isolamento, de uma angústia profunda por se sentir sozinho, de que ninguém vai compreendê-lo e julgá-lo, de que não aguentam mais e estão cansados, são exemplos de falas dessas pessoas. O silêncio funciona como uma “máscara” que encoberta a dor profunda e a vergonha sentidas.

É possível que a pessoa mesmo rodeada de amigos se sinta solitária. É sempre bom ficar atento aos sinais de isolamento, como baixa autoestima, tristeza, perda de apetite, desânimo e apatia. A solidão é um sentimento que, caso se torne contínuo na vida da pessoa, pode virar uma doença como a depressão.

2) Depressão

A conseqüência mais desastrosa da depressão é o suicídio. Das 30 mil pessoas que morrem por suicídio nos Estados Unidos a cada ano, por exemplo, a maioria está sofrendo de depressão. Entretanto, já que as mortes por suicídio nem sempre são notificadas (devido ao estigma e ao fato de que muitas mortes acidentais provavelmente são suicídio), o número real ao ano pode chegar a 50 mil.

Na depressão, a pessoa se isola, chora muito, fica irritadiça, não sente mais prazer nas atividades que antes lhe agradavam, prefere não falar sobre seus sentimentos, não confia em ninguém e tem pensamentos suicidas.

3) Presença de outras doenças ou má saúde

Algumas doenças que deixam as pessoas impossibilitadas de alguma forma física, como andar, falar, ouvir, etc, ou, por exemplo, outras doenças como HIV, câncer, uma doença terminal ou transtornos mentais (esquizofrenia, depressão, bipolaridade, distúrbios da ansiedade e a personalidade, bulimia e anorexia, etc), podem contribuir para uma maior desorganização ou desconforto emocional, uma vez que, por essas pessoas acharem que tem uma doença incurável, ficam sem esperanças.

Essas pessoas não conseguem pensar em soluções e lidar com os obstáculos que surgem, sentem-se incapacitadas física e psicologicamente, desesperadas e intoleráveis. O risco de suicídio em pessoas que possuem esquizofrenia, por exemplo, é de 4 a 10%, já que elas podem estar em um estado fora da realidade, ter crises psicóticas e delírio de perseguição.

4) Problemas conjugais e de relacionamento

As brigas recorrentes com os pais e falta de amparo deles, término de um relacionamento, discussões frequentes com o (a) parceiro (a), divórcio e separação podem levar uma pessoa ao suicídio. Um exemplo seria o de uma mulher que toma uma superdosagem de sonífero quando seu esposo ou amante ameaça deixá-la.

Na maioria das vezes, para estas pessoas, uma relação em que se investiu tempo e toda uma carga emocional é difícil de ser desfeita. A separação ou discussões constantes levam à tristeza e depressão, elevando o risco para cometerem suicídio.

5) Dificuldades financeiras ou profissionais

Dificuldades financeiras, problemas no trabalho, desemprego e perda do status socioeconômico são outros riscos para o suicídio. A riqueza e o poder são volúveis e instáveis, e a qualquer momento estamos sujeitos a perder dinheiro, um emprego e a riqueza que existia antes.

Atualmente, com o aumento do desemprego e a crise econômica, o suicídio parece para muitos ser a única saída possível, que acaba por desencadear solidão, perda de apoio social, crises familiares e sensação de impotência, agravando assim tendências autodestrutivas, abuso de álcool e outras drogas e transtornos mentais, como ansiedade e depressão.

6) Bullying

Atualmente muito se tem falado sobre a relação de bullying e suicídio. Casos ocorridos com crianças e adolescentes que sofreram violência física e/ou psicológica por um grupo de indivíduos na escola, no bairro ou outro local e cometem suicídio tem aumentado.

Diante do bullying, a pessoa passa a ter ansiedade, depressão e pânico. E em certos casos, até a utilizar álcool e outras drogas. Seu medo é constante por sofrer ou tentar evitar esses atos de violência, levando à tristeza e pressão por receio de contar aos familiares e amigos seu sofrimento.

7) Problemas na adolescência e início da vida adulta

A taxa de suicídio entre adolescentes e jovens adultos está aumentando. A incidência de suicídio entre jovens de 15 a 24 anos quadriplicou durante as últimas quatro décadas. Adolescentes suicidas tendem a abandonar os estudos ou a ter problemas de comportamento na escola, embora alguns sejam estudantes talentosos que se sentem pressionados para serem perfeitos e os melhores da turma.

Algumas pesquisas mostram em estudantes do último do ensino médio mostraram que 27% disseram pensar seriamente em se matar. Os universitários têm duas vezes mais chances de se matar do que os que não estão na universidade de mesma idade, pois, segundo alguns estudos, são mais mal-humorados, exigem mais de si mesmos e se deprimem com mais freqüência do que seus colegas não-suicidas.

Dentre os motivos para o suicídio entre eles estão: solidão, viver longe de casa pela primeira vez (no caso de irem morar em repúblicas), receber pouco afeto parental, ter pais alcoólatras, pais divorciados ou separados, enfrentar novos problemas, tentar se sobressair academicamente quando a competição é muito mais forte do que no ensino médio, indecisões quanto à escolha da profissão, solidão causada pela ausência dos velhos amigos e ansiedade em relação aos novos.

8) Luto ou perdas afetivas

Perder um familiar querido (pais, irmãos, cônjuge, filhos) muitas vezes faz certas pessoas cometerem suicídio. Elas acham que podem ter perdido sua única fonte de apoio. Isso acontece muito com idosos que perdem seu parceiro, sua única companhia e de quem cuidava ou era cuidado.

Perder alguém importante é deixar uma lacuna vazia em nossas vidas, uma pessoa que não estará mais presente. Mas para muitas pessoas é comum pensar em cessar a vida, uma vez que estão presenciando prejuízo funcional, preocupação mórbida com desvalorização de si, ideação suicida, e até sintomas psicóticos e retardo motor.

9) Abuso de drogas

Estudos mostram que pessoas que cometeram suicídio quase 60% abusavam de drogas e 84% de álcool e outras drogas. O abuso de drogas faz com que estas pessoas fiquem deprimidas e se matem ou elas recorrem às drogas como uma forma de lidar com a depressão e se matam quando as drogas já não ajudam mais.

Porém, em muitos casos, o abuso de drogas parece ter aparecido antes de problemas psicológicos. Jovens, com menos de 30 anos, usuários de drogas que cometem suicídio tem uma frequência maior do que a prevista de conflitos interpessoais intensos ou de perda de um cônjuge ou parceiro nas semanas que antecedem o suicídio.

10) Timidez

Pode parecer impossível alguém tímido pensar em suicídio. Porém, a timidez é um dos fatores de risco para uma pessoa cometer suicídio. Mas não se trata aqui da timidez normal e sim da patológica, conhecida pelos profissionais de saúde mental como Transtorno de Ansiedade Social.

Esta timidez patológica limita a vida profissional, social e afetiva. Há um desconforto e inibição que estas pessoas apresentam em seus comportamentos, como: medo intenso, desproporcional e sem motivo aparente; círculo de amizades restrito; evita tudo que é novo; tem rotina rígida; e sente grande necessidade de aprovação dos outros. E tudo isso afeta o prazer de viver, acabando por pensar em suicídio para escapar e não saber como ultrapassar estes obstáculos.

Podemos ajudar

Entidades que compõem a rede de serviço de atendimento à pessoa com depressão e com tendência ao autoextermínio:

. Centro de Valorização da Vida – (86) 3222-0000:

. Centro Débora Mesquita – (86) 99827-3343;

. Grupo de Apoio Contato Esperança – (86) 3237-0077; e

. Provida – Lineu Araújo – (86) 3221-2500/98877-0588.

Existem ainda os Centro de Apoio Psicossocial (CAPs) em vários bairros de Teresina e em municípios do interior do es

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