Brasil

Parto Humanizado: Brasil vive uma grande revolução diz ativista

Janet Balaskas luta há mais de três décadas pelos direitos da escolha da mulher durante o parto
Fonte: STÉFANIE STEFAISK | Editor: Redação 20/11/2017 14:59
Janet Balaskas Janet BalaskasFoto: Divulgação

No final da década de 70 e início dos anos 80, um grupo de mulheres no norte de Londres começou a exigir o direito de ter suas vontades respeitadas durante o parto. O movimento foi denominado ‘Parto Ativo' e demandava a não-obrigação do parto em posição de litotomia (deitada na maca), direito a livre movimentação e escolha da posição de dar à luz, a ser alimentada durante o trabalho de parto e a ter um acompanhante de sua escolha. Uma das principais ativistas deste movimento foi Janet Balaskas, que participou intensamente dos protestos que culminaram com a mudança nos protocolos hospitalares do Reino Unido e fundou o Centro de Parto Ativo, em Londres. Após as exigências das mulheres, as parturientes passaram a ter suas vontades respeitadas, inclusive sobre o local onde se sentem mais seguras para terem seus bebês. “No Reino Unido, as mudanças não aconteceram de um dia para o outro. Pelo contrário, foram fruto de três décadas de esforços concertados de um grande número de pessoas, desde ativistas do parto, grupos de apoio e, em particular, profissionais treinados para dar workshops de Parto Ativo para as famílias”, afirma Janet em seu site português.

Se, por um lado, o Brasil é o segundo país com o maior número de cesarianas no mundo, segundo dados da Unicef, por outro, o número de cesarianas caiu pela primeira vez, desde 2010. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde (MS) apontam que o procedimento cirúrgico, que apresentava curva ascendente, caiu 1,5 ponto percentual em 2015. Contudo, apesar da leve mudança, os números atuais ainda são preocupantes: no país são realizadas 55,5% de cesarianas e 44,5% de partos normais, sendo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de apenas 15% de cesarianas. Pesquisas realizadas por estas entidades apontam que os números altos no Brasil acontecem porque grande parte destas cirurgias são realizadas sem uma indicação real, que justifiquem o procedimento, e antes de a mulher entrar em trabalho de parto. Devido ao alto número de cesarianas eletivas realizadas nos hospitais públicos e privados, a UNICEF lançou a campanha informativa "Quem Espera, Espera" sobre a importância do trabalho de parto espontâneo para a saúde da mãe e do bebê e alerta: bebês nascidos antes do trabalho de parto estão mais sujeitos a apresentar problemas de saúde e apresentam maiores riscos de mortalidade e déficit de crescimento, de acordo com um estudo realizado em Pelotas.

Mudança

"O Brasil vive atualmente uma revolução", diz Janet, em entrevista ao Lifestyle ao Minuto Brasil. "Esta é uma revolução que acontece lentamente, nascimento por nascimento", explica a ativista. Segundo ela, as mulheres brasileiras estão buscando cada vez mais alternativas para fugir das cesarianas e protestando contra as violências verbais e psicológicas sofridas por parte dos profissionais de saúde, as denominadas violências obstétricas. “O desejo das mulheres por um parto ativo vem tendo um papel fundamental para a mudança”, explica.

Este desejo já vem rendendo frutos. O Ministério da Saúde lançou, em março deste ano, novas diretrizes para a assistência pelos profissionais de saúde, que incluem o direito à escolha da gestação de uma posição confortável na hora do parto, a não obrigatoriedade do jejum, presença de doulas e/ou acompanhantes, respeito à presença da família e intimidade da gestante, o acesso a métodos de alívio da dor, como massagens, banhos quentes e técnicas de relaxamento, direito ao uso de anestesia (quando solicitado pela parturiente), não separar mãe e bebê durante a primeira hora do nascimento (a chamada hora de ouro, crucial para o estabelecimento do vínculo entre os dois), estimular o contato pele a pele da mãe com o bebê após o nascimento, e reduzir as taxas de intervenções desnecessárias, como episiotomias, ocitocina, manobra de Kristeller (empurrar a barriga da mãe, procedimento já proibido em muitos países), cesariana e aspiração das vias aéreas do bebê após o nascimento.

Informação

"Pesquisem o máximo que puderem", recomenda Janet. Para ela, somente procurando informações é possível mudar o quadro. Mas por onde começar? São muitas matérias, opiniões, blogs, sites e, claro, pareceres de especialistas. Então, como separar as informações? Segundo Janet, é fundamental procurar especialistas atualizados, que trabalhem com evidências científicas. "Tente encontrar médicos que apoiem suas escolhas", como a vontade de ter um parto normal, indica Janet. "Pergunte por indicações profissionais de professoras de yoga e doulas e acesse o site Parto Ativo", direciona a ativista, que complementa: “Há ainda muito trabalho a ser feito para mudar o que acontece diariamente nas salas de parto para ‘normalizar” o nascimento. Isto inclui respeitar as mulheres e as suas escolhas, reduzir o uso de rotinas medicalizadas desnecessárias e, garantir na retaguarda uma assistência obstétrica baseadas em evidências e boas práticas”, finaliza.

Diferenças entre normal, natural e humanizado

Segundo a enfermeira obstetra Mayra Calvette, que esteve presente no nascimento dos dois filhos de Gisele Bündchen, existe uma diferença bem clara entre parto normal, natural e humanizado, em entrevista ao GShow. "O parto normal é por via vaginal, mas pode ser 'anormal'”, explica. Isso significa que, apesar de o bebê ter nascido por via vaginal, a mulher pode ter sofrido muitas interferências desnecessárias e não ter tido sua vontade respeitada durante o nascimento do bebê. “O parto natural não tem nenhuma intervenção médica, mas não é necessariamente humanizado”, continua a enfermeira. Neste caso, a mulher também pode não ter tido suas vontades respeitadas. “Já o parto humanizado não tem tempo para acabar e respeita o tempo da mãe e do bebê", finaliza. O parto humanizado nada mais é do que respeitar as necessidades e vontades da mãe durante o nascimento, sem interferências desnecessárias ou que não sejam solicitadas, e pode ocorrer tanto em hospitais, quanto em casas de parto ou em partos domiciliares.

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