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Mães e filhos especiais: sobre o que é amor infinito

Fonte: Cintia Lucas | Editor: Cintia Lucas 14/05/2017 15:32
Soraia e Lucas: uma relação de amor e fé na vida Soraia e Lucas: uma relação de amor e fé na vidaFoto: Reprodução/Whatsapp

Falar sobre maternidade é sempre falar de amor. Mas, quando esse amor é desafiado todos os dias, ela acaba se tornando uma missão. Uma mãe especial, que perdeu a visão quando os filhos ainda tinham quatro e seis anos, é mais do que uma guerreira, é sublime. E ainda ser mãe de um filho especial, que descobriu o autismo aos dois anos e hoje, aos 23, continua a aprender os gestos mais simples, é dar a si mesma, de corpo, alma e coração a este filho.

São essas duas histórias de vida que o PiauíHoje trouxe para homenagear as mães. Maria do Socorro Almeida da Silva, 49 anos, ficou completamente cega após sentir uma forte dor de cabeça. “Tinha 30 anos, tomei um remédio e fui dormir. Ao acordar percebi que não enxergava mais nada, nenhum fio de luz. Sempre tive problemas de visão, mas nunca pensei que chegaria a tanto”.

Quando perdeu a visão, Socorro tinha dois filhos pequenos, Maximiliano, seis anos e Bárbara, de quatro. Mãe solteira, doméstica, ela contou com a ajuda da mãe e da patroa que a auxiliaram desde a descoberta da cegueira até os primeiros passos para se adaptar à nova vida.

“Foi muito difícil. Você sabe o que é ir dormir enxergando normalmente e acordar cega? Tive muita fé em Deus e a ajuda dos amigos. Comecei tudo de novo em minha vida, aprendi a andar sem ver, a ler em braile e hoje continuo os estudos na Associação dos Cegos, onde tenho a oportunidade de aprender mais”, disse Socorro.

Entre os maiores desafios, ela disse que levar os filhos para a escola e quando adoeceram pela primeira vez foram momentos muito difíceis. “Tinha que levar ao médico, mal sabia como chegar até o posto de saúde. Levar e buscar na escola, ficava com medo do trânsito e a cidade não é adaptada para pessoas com deficiência”, relata Socorro.

Hoje, com os filhos adultos, um formado em História e a outra estudando, Socorro diz se sentir uma vencedora por conseguir criá-los e ter passado uma lição de vida e luta para os dois. “Não tive ajuda do pai, mas hoje os dois são criados e independentes e isso é o que me gratifica”.

Soraia Martins é mãe do Lucas, de 23 anos. Ele foi diagnosticado com autismo ainda nos primeiros anos de vida e de lá para cá, enfrenta uma verdadeira batalha pela independência, saúde e convivência social. Ela é uma das fundadoras da Associação dos Amigos dos Autistas (AMA) no Piauí.

“Senti que meu filho era diferente. Ao seis meses percebi que ele não olhava direitinho quando a gente olhava para ele, não via os brinquedinhos. Parecia surdo. O olhar era fixo e apagado. Ele não sorria quando a gente brincava com ele e sorria sozinho, às vezes e demorou a sentar. Como tinha um filho mais velho, o Luís Eduardo, aliás tenho três filhos, um mais velho e outro mais novo do que o Lucas. Pude comparar o desenvolvimento. Morava no interior do Estado e levei o Lucas na neuropediatra em Teresina e ela constatou o atraso no desenvolvimento e passou a fisioterapia. Aos dois anos veio o diagnóstico do autismo, na época nunca tinha ouvido falar disso. E me desesperei, eu e meu marido. A gente nunca espera um filho com necessidades especiais, ainda mais de algo que não tem cura. A gente chorava muito, meu marido teve muita dificuldade em aceitar, o que é comum aos homens. Mas aí comecei a incentivá-lo através das terapias que apareciam na época”, disse Soaraia.

Ela enfrenta uma jornada onde tem que conciliar o trabalho como educadora física, os filhos e o marido. São muitas as terapias a serem feitas. Um dos maiores desafios em relação ao filho especial foi a parte acadêmica. “Não tínhamos acesso às escolas. Foi muito difícil conseguir inseri-lo na escola, mesmo ele não tendo esse comprometimento de bater, de empurrar, sempre foi dócil. Foi muito complicado encontrar uma escola que aceitasse meu filho nas condições que ele tinha. As lutas do dia a dia sempre foram grandes, e as condições funcionais como se vestir, comer, tinha que persistir muito. Ele sempre teve muito comprometimento com a saúde e foi internado várias vezes. Ele teve que retirar um nódulo do pescoço e durante a cirurgia teve um AVC e ficou com um lado do corpo paralisado. Assim, teve que reaprender, já adulto, tudo aquilo de novo, como andar, comer. Ele faz algumas cosia e outras não. É muito angustiante ver seu filho nessas condições, você chora e se desespera. Mas acredito em Deus e que tudo tem um sentido. Graças a Deus tenho o meu marido e os irmão dele. Cada um tem sua angústia, eu como mãe, o marido como pai e meus filho como irmãos”, afirma Soraia.

Para ela, a sua maior alegria é ter o marido e os filhos do lado e deles compreenderem que têm um irmão especial e o aceitarem de acordo com suas limitações. Há uma relação de harmonia. “A minha maior tristeza é saber que ele não vai ser totalmente independente e preciso lidar com isso todo dia. São desafios diários que a gente enfrenta. Por exemplo, ele não entra em avião e a gente restringe muito nossas viagens. E as coisas pequenas como vestir a roupa, subir uma escada, pegar um copo. Minha família é muito grande, mas sempre que a gente precisa de todos, eles dão apoio. E dentro de suas limitações, o Lucas é uma pessoa feliz. Sempre proporciono a ele momentos de felicidade”.

Ela passa uma mensagem para as mães que estão no desafio de criar um filho com autismo. “A mensagem que passo as mães que vão enfrentar essa realidade é de que não esqueçam delas mesmas. Há momentos em que temos que cuidar deles, mas temos que cuidar da gente também. Não podemos deixar de nos cuidar. Então, diante do diagnóstico do autismo, temos que superar, pois não há saída. Então, temos que cuidar da gente, do nosso psicológico, do nosso emocional, da nossa saúde. Não adianta só chorar. Tem que engolir o choro e partir para a luta. Temos que cuidar e dar limites. Eles têm direitos e deveres. Mostre o que é certo e errado. Fazer carinho quando necessário, brigue quando precisar brigar. Se a escola não quer aceitar, então procure outra. Se as equipes de saúde não estão ajustadas ao que ele precisa, procure outras. Esse embate mão é bom”, disse Soraia.

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